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DIÁRIO DA CIDADE DO PORTO

Introdução

1874: Capital da província, cabeça dos concelhos e comarcas, distrito administrativo e bispado.

Situada a 6 Quilómetros do mar, 36 de Penafiel, 75 de Lamego, 110 de Coimbra, 45 de Guimarães, 50 de Braga, 70 de Viana do Minho, 95 da Régua, e 315 de Lisboa.

Tem 22.000 fogos, 86.000 almas, em 12 freguesias – 8 no Porto e 4 no termo.

É dividida em dois bairros administrativos – Oriental e Ocidental.

O bairro oriental, tem na cidade as freguesias da Sé, Santo Ildefonso e Bonfim; no termo, Campanhã, e Paranhos.

O bairro ocidental, tem na cidade, as freguesias de Cedofeita, Massarelos, Miragaia, S. Nicolau, e Vitória; no termo, S. João da Foz, e Lordelo do Ouro.

É Quartel general da 3.ª divisão militar; Assento do tribunal da relação; Quartel do batalhão de caçadores n.º 9; dos regimentos de infantaria n.º 10 e 18; corpo da guarda municipal.

Tem estação telegráfica; estação do caminho de ferro do Norte – no lugar das Devesas, em Vila Nova de Gaia – logo que terminem as obras da ponte sobre o Douro, a sua estação principal será na Póvoa de Campanhã, já em funcionamento para os caminhos de ferro do Minho e Douro.

O distrito administrativo é composto de 18 conselhos; Amarante, Baião, Bouças, Felgueiras, Gondomar, Lousada, Maia, Marco de Canavezes, Paços de Ferreira, Paredes, Penafiel, Santo Tirso, Póvoa de Varzim, Valongo, Vila do Conde, Vila Nova de Gaia, e os dois bairros da cidade.

Pertencem ao arcebispado de Braga, os concelhos de; Amarante, Felgueiras, Lousada, Marco de Canavezes, Paços de Ferreira, Póvoa de Varzim, Santo Tirso, e Vila do Conde.

Ao bispado do Porto; Amarante, Baião, Bouças, Gaia, Gondomar, Lousada, Maia, Marco de Canavezes, Paços de Ferreira, Paredes, Penafiel, Porto, Santo Tirso, Valongo, e Vila do Conde.

(Os conselhos que vão repetidos, têm freguesias no arcebispado de Braga, e no bispado do Porto. A vila de Amarante, é parte do arcebispado, e parte do bispado).

Tem três comarcas judiciais, que se denominam varas:

1.º vara; Santa Catarina, tendo anexo o julgado de Gondomar.

2.ª vara; Santo Ovídio, tendo anexo os julgados de Gaia e Valongo.

3.ª vara; Cedofeita, tendo anexo os julgados de Bouças e Maia.

1757: Tinha apenas 5 freguesias; a de Cedofeita, e Massarelos, eram consideradas do termo, e a do Bonfim foi criada mais tarde.

As cinco freguesias consideradas de cidade:

Sé (Nossa Senhora da Assunção); a mitra apresentava o abade, que tinha de rendimento anual, 500$000 reis. Tinha dois curas, da mesma apresentação, com 40$000 reis cada um.

Fogos; 1.920

Santo Ildefonso; o tesoureiro-mor da Sé, apresentava o cura, que tinha 8$000 reis de côngrua e o pé do altar.

Fogos;1.508

S. Nicolau; a mitra apresentava o abade (mas, em sede vacante, ia a concurso) tinha 500$000 reis de rendimento.

Fogos; 994

Nossa Senhora da Vitória; a mitra apresentava o abade, que tinha 400$000 reis de rendimento.

Fogos;914

S. Pedro de Miragaia; a mitra apresentava o abade, que tinha 240$000 reis de rendimento.

Fogos; 491

As freguesias que não eram consideradas da cidade, em 1757, eram:

S. Martinho de Cedofeita (bispo); o papa apresentava, in solidum, o prior, que tinha cinco mil cruzados (2.000$000 reis) de rendimento anual.

Fogos;505

Nossa Senhora da boa Viagem, de Massarelos; o prior de Cedofeita, apresentava o cura, que tinha 60$000 reis de rendimento.

Fogos; 219

Santa Maria de Campanhã (Nossa Senhora do Rosário); o ordinário, por concurso sinodal, apresentava o reitor, que tinha 350$000 reis de rendimento.

Fogos;758

S. Veríssimo, de Paranhos; o cabido da Sé do Porto, apresentava o reitor, que tinha 140$000 reis de rendimento.

Fogos; 272

S. Martinho de Lordelo do Ouro (bispo); o real padroado, apresentava o reitor, que tinha 100$000 reis de rendimento.

Fogos;280

S. João Baptista, da Foz do Douro; o D. abade do mosteiro beneditino de Santo Tirso, apresentava o vigário (que era sempre um monge do mesmo mosteiro), tinha 150$000 reis de rendimento.

Fogos;625

Vê-se pois que estas onze freguesias, tinham em 1757; 8.486 fogos, (neste número de Fogos, vai incluída a nova freguesia do Bonfim, que foi feita, a maior parte, à custa da freguesia de Santo Ildefonso, e o resto, da Sé) que aumentaram no espaço de 119 anos, em 13.514 fogos.

1856; Tinham estas 12 freguesias, 17.300 fogos. Em 20 anos, aumentou o número de fogos 4.700

PORTO OU GAIA ?

TALVEZ AS DUAS

UMA DE CADA VEZ !

-1508: João Lesseo, bispo rossense, na Hibernia; História de Escócia – Gatello Cecropis, filho de Neolo, 4.º rei dos gregos, casado com Scota, irmão de Pharaó, perseguidor dos israelitas, que fundou a povoação de Cale, pelos anos 1508 antes de Jesus Cristo.

Fugindo ás pragas do Egipto, saiu pelo Nilo, para o mar Jónio, e atravessando o Mediterrâneo, se dirigiu com grande número de gregos, para o Oceano Atlântico, vindo aportar ao Douro, desembarcando a pouco mais de meia légua da sua foz, ai fundou uma povoação a que deu o nome de Gatellia, ou Porto Gatellio, de onde se derivou o nome de Portugal.

Esta fundação coincidiu com a saída dos judeus, do Egipto, 3.500 anos!

D. frei Prudêncio de Sandoval, nas suas Antiguidades de Tuy, assevera que este Gatello, foi o fundador de Porto Gatellio e da cidade de Tuy.

-1184: Floriam do Campo e com ele, frei Bernardo de Brito – Os primeiros fundadores de Gaia, foram os gregos; Diomedes, rei de Etholia, e companheiro de Ulysses na guerra de Troya, o qual com os seus, passaram à Itália, e dali a Espanha, onde edificaram a cidade de Tide, ou Tude, Hoje Tuy, sobre a direita do rio Minho. Diz Floriam, que lhe deram este nome, em memória de Tideo, pai de Diomedes. Foram os seus companheiros povoando as terras situadas entre Douro e Minho, e passando para o Sul do primeiro destes rios, fundaram uma povoação a que deram o nome de Gráya, ou Grávia, deduzindo o vocábulo de Graius, ou Gravius; e que depois se veio a chamar Portus Graius. (Porto Grego).

Na Descripção topographica e historica da cidade do Porto, por Agostinho Rebelo da Costa, diz-se:

«Uns atribuem a sua fundação, àqueles gregos da provincia de Thraia, que habitavam as margens do rio Axio, homens guerreiros, e exercitados no valor militar, chamados mygdones.

Dizem pois, que impelidos estes gregos por uma furiosa tempestade, surgiram na foz do rio Douro, e, subindo por ele, foram parar ao lugar chamado Gaia – se o lugar de Gaia já existia, prova a sua antiguidade – do qual passaram para a outra margem, onde edificaram uma cidade, com o nome de Lavra, que depois se chamou Portucale.

Talvez que os chefes desta opinião, vendo que Ptolomeu, nas suas Cartas geographicas, fixara a cidade de Lavra na mesma posição da cidade do Porto, dessem causa à errada ideia que concebeu uma grande parte do vulgo, de que a freguesia de S. Salvador de Lavra, cita na comarca da Maia, três léguas ao norte distante do Porto, fora a primeira fundação d`esta cidade.»

Continua este escritor:

«Menelau, irmão de Agamenon e marido de Helena (a de Tróia) desterrando-se da sua pátria, passara do Mediterrâneo ao Oceano, até à altura em que está a cidade do Porto, que ele edificara, cercando-a de elevados muros, e ornando-a com todos os edifícios necessários a formarem a sua grandeza.

Os costumes e ritos de Lacedemonia, praticados pelos portugueses da província do Minho, ainda até ao tempo de Stabo, são os maiores fundamentos em que se firmam os autores d´esta opinião.»

Moedas gregas – Serra do Pilar; uma de Atenas, do início do século V, outra de Alexandre III, do início do século IV antes de Jesus Cristo; não à provas da sua chegada a este local, mas deverão ter chegado antes dos romanos, em finais do século IV ou início do século III antes de Cristo, depois de terem circulado pela Anatólia, Levante e Egipto, onde uma foi puncionada.

Embora as datas e nomes não sejam seguras, tudo leva a querer que foi em Gaia, até provas em contrário, o primeiro – Porto.

-296: Os gallos-celtas, que, vindo da Andaluzia, foram povoando todo o Ribatejo, Santarém, Tomar, Coimbra e Talabrica, até chegarem ao Douro, na margem direita, ai fundaram uma cidade a que chamaram Portus-Gallus, que a fortificaram convenientemente – Teriam sido os primeiros povos não Gregos, a instalarem-se no Porto.

Rodrigo Mendes da Silva, esse português degenerado (era de Celorico da Beira) que foi viver e morrer a Madrid, e foi cronista dos Filipes; e que, não se envergonhando de ser traidor à sua pátria, teve vergonha de escrever na sua língua materna – na sua Poblacion general de Espanha, a folha 118 v., diz que – a opinião mais seguida entre os doutos, é que os gallos-celtas franceses, fundaram a povoação de Gaia, pelos anos 296 antes de Jesus Cristo, dando-lhe o nome de Porto-Gallo.

Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção:

«Aos gallos-celtas atribuem a fundação do Porto, aqueles que asseveram passarem eles do Alentejo para a Extremadura, em companhia dos Turdetanos, e que, depois de conquistarem as províncias da Beira e Minho, erigiram, para segurança e presidio das suas tropas, o castelo de Cale. D`aqui, dizem, se mudaram para a parte septentrional do Douro, onde deram principio à cidade do Porto, com o nome de Portucale.»

O Itinerário de Antonino Pio menciona a povoação de Cale, e não fala na cidade fronteira a Norte – Segundo alguns escritores, a cidade a Norte, teria sido arrasada por Sertório, tendo edificado Cale a Sul:

Itinerário de Lisboa a Braga; Jerabrica (Alenquer) Scalabis (Santarém) Cellium (Ceice) Conimbrica (Condeixa Velha) Eminio (Agueda) Talabrica (Aveiro) Lancobriga (Feira) Cale (Gaia) Braccara Augusta (Braga).

O bispo D. Rodrigo da Cunha, diz que a palavra Cale fora originária dos romanos.

Outros escritores são da mesma opinião, movidos de que, no castelo de Gaia se acharam algumas inscrições lapidares, que faziam menção de Júlio César; e de que, também na catedral desta cidade, estavam umas letras gravadas em pedra, que diziam JULIUS, atribuem a fundação do castelo e cidade a este imperador.

-196: Os romanos expulsaram os cartagineses da nossa península, dividindo-a em duas províncias – Ulterior (Andaluzia e Lusitânia) e Citerior (o resto das Espanhas).

-26: Octaviano Cesar a dividiu em Tarraconense, Bética e Lusitania.

40: Segundo Vaseu, Ambrózio de Morales e outros, citados pelo bispo D. Rodrigo da Cunha; pelos anos 40 de Jesus Cristo, imperando Caligula, desembarcou na Lusitânia o apostolo S. Tiago, pregando em Braga a religião Cristã, e fazendo bispo desta cidade a S. Pedro de Rates, e bispo do Porto, a S. Basilio, ambos seus discípulos; mas que a cidade do Porto não era a actual, porem Porto-Calle, ao Sul do Douro.

A primitiva Sé do Porto foi construída, no primeiro século da era cristã (desconhece-se a data), na cidade ou povoação de Portugallo, ao Sul do Douro, e no sitio de Paço de Rei, da actual freguesia de Mafamude.

75: O imperador Tito, filho de Vespasiano, sendo questor das Espanhas o famoso Plinio, dividiu a Lusitânia em três comarcas; Lerida, Beja, e Santarém.

130: O imperador Adriano, procedeu a novo arredondamento, dividindo a península em cinco províncias; Tarraconense, Carthaginense, Lusitânia, Galiza, e Bética.

320: Constantino Magno, dividiu as Espanhas em seis províncias – as cinco já existentes, e a Balearica, compostas das ilhas de Mallorca, Minorca e Iviça.

OS BÁRBAROS DO NORTE

396/407: Da Gothia, Suécia, Noruega, e outras terras setentrionais, caíram como uma avalanche destruidora, os suevos, ostro-godos, visigodos, vândalos, alanos, francos, burguinhões, selingos, etc., em hordas inumeráveis, invadindo primeiro a Itália. Escalaram os muros de Roma, e roubando-lhe todas as suas riquezas, em um saque geral, foram talando os campos e desbastando todas as cidades que acharam no seu caminho. Passaram ás Galias, onde muitos deles se deixaram ficar; e seguindo o resto, transpuseram os Pirenéus, tornando-se senhores da Espanha romana, invadiram a Lusitânia, terminando as suas correrias na Galiza.

Constâncio, eleito imperador, passou ás Galias, onde fez as pazes com os invasores.

Tentando porém libertar as espanhas, passou os Pirenéus, acompanhado de seu filho Contante e de numerosas tropas, ao passo que Dedimo e Viriniano, parentes de Honório, marcharam da Lusitânia, com o mesmo fim.

Mas o valor e a disciplina das legiões romanas, tiveram de ceder ao número, e os bárbaros ficaram senhores da Espanha romana para sempre.

409/413: Estando os alanos e suevos senhores da Espanha; os Vândalos e selingos, que haviam ficado nas Galias os vieram reforçar.

A polícia, as leis, e a ilustração romana, foram aniquiladas pela ferocidade destes bárbaros, que obedeciam a chefes ou reis naturais. Gunderico, era rei dos vândalos, Hermenerico, era rei dos suevos, e Resplandiano dos alanos.

Os vândalos e selingos, estabeleceram-se na Bética, cujo nome mudaram para Wandaluziai,(Andaluzia). Os alanos e suevos, ocuparam a Lusitânia e a Galiza; destruindo grande parte das suas povoações, e assassinando os seus antigos habitantes, que escapando da fome e da peste, ficaram reduzidos a pouco mais de um milhão.

Os invasores eram, na sua maior parte, hereges (arianos; da igreja de ário) e o resto idolatras; e o seu ódio aos templos e ministros católicos foi implacável.

O clima ameno, e a vida patriarcal dos lusitanos, foram pouco a pouco atenuando a ferocidade dos bárbaros, cujo domínio, dentro de poucos anos, se tornou mais tolerável do que o dos romanos.

Ataces, sucessor de Resplandiano, procedeu, com os outros chefes, à demarcação dos limites da Península, ficando ele com a maior parte da Lusitânia e parte da província de Cartagena; estabelecendo a sua capital em Mérida.

Parte dos vândalos e selingos, estabeleceram-se na Andaluzia; o resto, com os suevos, dividiram entre si a Galiza, e a outra parte da Lusitânia, que compreendia todo o território desde Lisboa até ao rio Minho, pelo litoral; ficando a Andaluzia (Bética) aos vândalos e selingos, e a costa Lusitana, aos suevos.

A outra parte dos vândalos (que era a maior) ficou na Castela-Velha.

414: As Asturias, Biscaia e uma parte da Galiza ainda ficaram obedientes ao império romano.

Ataces, rei dos alanos, declarou guerra a Hermenerico, rei dos suevos; a Gonderico, rei dos vândalos; e aos povos que estavam sob o domínio do império.

415: Constâncio, ilustre capitão romano, foi mandado pelo imperador Honório, contra Alaufo, rei dos godos, que ocupava parte das Galias. Constâncio o expulsou daquele país (Galia Norbonense), obrigando-o a entra em Espanha pelo Roussilon.

Os godos estabeleceram-se na Catalunha, tomando Barcelona para sua capital.

418: Os alanos romperam de novo com os selingos e vândalos, enquanto os romanos, coligados com os godos, tentavam sustentar na Península o domínio do império.

Ataces foi morto e o seu exército desbaratado, em uma grande batalha, dada junto a Mérida (Estremadura espanhola), e as tropas alanas, que escaparam, retiraram-se para a Galiza e para as costas da Lusitânia.

Walia, rei dos godos, continuou as guerra contra os vândalos e selingos da Andaluzia.

Gunderico, rei dos vândalos, aumentou as tropas; mas as guerras permanentes que os bárbaros traziam uns contra os outros, deu ás Espanhas uma época tristemente celebre, de feroz anarquia.

Hermenerico, rei dos suevos, que era o mais ilustrado e político, dos principais invasores, admitiu os lusitanos a todas as honras, deixando-lhes o livre exercício da religião católica, e em pouco tempo deixaram de haver conquistadores e conquistados.

420: Gunderico, rompeu a guerra contra Hermenerico, mas foi derrotado, e teve de fugir para as ilhas Baleares, onde, depois de refeito dos passados desastres, tornou a invadir a Andaluzia; mas de novo foi derrotado, junto a Sevilha, perdendo a vida nessa batalha.

427: Sucedeu-lhe seu irmão Genserico, que, receando a perseguição de Theodoredo, rei dos godos, passou à África, com 80.000 vândalos e alguns alanos, unindo-se ao conde Bonifácio, que se havia rebelado contra o imperador Honório.

Valentiniano III, sucessor de honório, mandou um exército romano para a Lusitânia, sob o comando de Sebastião, na esperança de reconquistar este país; e, com efeito, recuperaram as suas duas principais cidades, Mérida (capital) e Lisboa.

Sebastião, orgulhoso com estas vitórias, rebelou-se contra o imperador, e se aclamando rei; mas, as suas crueldades desgostaram os seus soldados, que o assassinaram.

440: Os alanos e suevos, recobraram então o que haviam perdido; e Hermenerico entregou o governo do reino a seu filho Rechila, que vence os romanos, comandados por Andelabo, em Xenil.

441: os suevos e alanos ficam senhores das terras que até então haviam sido dos romanos.

Rechila, que era um guerreiro distinto, e um consumado político, cedeu as províncias de Cartagena e Carpetanea, aos romanos, para ficar pacífico senhor do resto.

451: Pela morte de Rechila, lhe sucedeu seu filho Reciário, que, conseguiu acabar com o domínio romano nas Espanhas; mas esse triunfo, acarretou a sua desgraça; porque, soberbo com ele, declarou guerra a Theodorico, rei dos godos, que o derrotou, junto a Astorga.

456: Fugindo para o Porto, ali foi preso e mandado degolar, por ordem de Theodorico.

459: No primeiro concilio bracarense, Arisberto, que foi o 2,º bispo do Porto, se assina Arisbertus, Episcopus Portucalenses, prova nesta data, que Portu-Cale, ao Norte do Douro e não a Sul, visto pertencer ao arcebispado de Braga

464: Os suevos, com estas derrotas, ficaram em um estado de anarquia, que degenerou em guerra civil, tendo cada partido, um rei à sua frente, que eram Madras, eleito pelo povo, e Franta, eleito pelos nobres; mas ambos reconheciam a supremacia dos godos, e ambos morreram em combate.

Sucedendo a Madras, seu filho Rumismundo, e a Franta, seu filho Frumario; porém, morrendo este, tornaram a unir-se os dois bandos, ficando Rumismundo único rei dos suevos.

Já a esse tempo, quase todos os suevos eram católicos; mas casando Rumismundo com uma filha de Theodorico, que era ariana, esta introduziu no reino a heresia de Ario, que durou cem anos.

490/549: É a história dos godos bastante obscura, com respeito aos reis suevos: apenas vemos mencionados como reis da Lusitânia e Galiza; Hermenerico, Rechila, Reciário, Madras, Franta, e Frumário.Intrusos; Thedulo, Veremundo, Miro, Pharamico, Rechila 2.º, Reciário 2.º.

549: Era Argila rei dos godos. Os cordoveses o desbarataram, e ele teve de fugir para a Lusitânia, onde marchou contra Atanagildo; mas, depois de várias derrotas, morreu na última batalha, que deu, junto a Sevilha, ficando Atanagildo único rei dos godos das Espanhas.

558: Foi Theodomiro aclamado rei dos suevos.

559: Sendo Theodomiro ariano, abjurou esta heresia, fazendo-se católico, acabando com o arianismo.

Theodomiro teria sido o fundador da igreja de São Martinho de Cedofeita, e nela foi baptizado seu filho e sucessor, Ariamiro, depois de convertidos à fé católica.

564: Como católico Theodomiro, convocou um concílio católico em Braga.

CONCILIO DE LUGO

568: As actas do concilio de Lugo, convocado por Theodomiro, rei dos suevos, marcam as paróquias que pertenciam a cada bispado:

3.º Cânon – A igreja catedral do Porto, que está edificada no castelo novo dos suevos, tenha as igrejas que estão na sua comarca, que são – Vila Nova (Esta Vila Nova, não é a de Gaia, mas a povoação que se foi edificando fora dos muros construídos pelos suevos, em redor da Pena Ventosa, onde está a Sé, e onde os suevos tinham um castelo. Vila Nova, ficava fora do couto dos bispos do Porto, estendendo-se pelo dorso meridional do monte, até à Lada, ou margem do rio),Betaonia, Verêa, Menturio, Torebia, Bramuste, Pongaoste, Lecombo, Nestes, Napoles, Curmano, Magneto, Leporeto, Melga, Tangobria, Vila Gomedes, e Tarmata. Mais os lugares de; Lambrencio, Aliobrio, Valericia, Turlango, Ceres, Mendolas e Palencia, que são 25 igrejas sugeitas a uma.

5.º Cânon – contém a divisão da catedral de Coimbra; A igreja colimbriense, tenha a mesma Coimbra, Eminio, Selio, Rome, Insua, Antoana e Portugal (O CASTELO ANTIGO DOS ROMANOS) que são sete igrejas sujeitas a uma.

PAÇO DE REI

Todos os escritores clássicos concordam, em que, a fortaleza e povoação romana de Castrum-Novum, depois chamada pelos suevos Festabol (Porto Novo, ou Praia Nova) era em frente de Porto-Cale, e exactamente no sitio onde hoje existe a Sé e ruas circunferentes.

Todo o mundo sabe que a primitiva cidade do Porto, não ficava em frente da antiga cale (Gaia) que está a mais de dois quilómetros ao Sul Oeste, mas sim em frente de Serra do Pilar e Mafamude: no sítio de Mafamude estava Paço de Rei; antiga povoação com grande importância, cujo nome no tempo do conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, tinha o nome de Portugallo e depois Portucalle.

O rei suevo, Hermenerico, depois de uma guerra de dois anos, com Ataces, rei dos alanos (414) fez com ele as pazes, dando-lhe por esposa, sua filha Cindazunda, ou Cindaswinda.

Vendo-se Hermenerico em paz com os alanos, tratou de construir um palácio para si e para a sua corte, -- possivelmente seria este o paço de rei -- e quartéis para os seus soldados.

Os suevos eram cristãos, mas hereges (arianos) e portanto teriam sido eles que construíram, um templo acastelado que existiu até à invasão dos mouros; tendo estes ocupado este Paço, até à reconquista cristã; sendo depois – devido à sua beleza moura -- desmantelado pelos cristãos, que teriam aproveitado as suas pedras, para construções no Norte de Espanha.

570: Faleceu Theodomiro, sucedendo-lhe seu filho Ariamiro, que foi um acérrimo defensor e propagador da religião católica.

577: Ariamiro conquistou o Aragão e a Navarra; mas, Leovigildo, rei dos godos da Galia Narbonesa, invadiu os seus estados, com um poderoso exército, obrigando Ariamiro a aceitar uma paz desvantajosa.

583: Morreu Ariamiro, sucedendo-lhe nos reinos da Lusitânia e Galiza, seu filho Eburico, ainda criança, e ao qual seu pai nomeara por tutor, o rei Leovegildo.

Endeca, senhor poderoso, e homem de grande ambição, teve manhas de se fazer aclamar rei pelos suevos, obrigando Eburico a cortar os cabelos, e fazer-se monge beneditino, no mosteiro de Dume.

585: Pouco tempo se logrou o usurpador do fruto da sua perfída; porque Leovegildo, como tutor de Eburico, obrigou Endeca a fazer-se também monge em Dume, depois de lhe ter feito cortar o cabelo.

Mas, Leovegildo, segundo o uso da maior parte dos protectores, deu por terminada a dinastia dos reis suevos, unindo o seu reino à monarquia gótica. – Até então, pertencera a cidade do Porto ao reino dos suevos, e depois, passou a formar parte do grande reino gôdo.

MURALHA SUEVA

Principiando ao Norte, na Porta de Nossa Senhora de Vandoma, dirigia-se em volta da igreja da Sé, até à porta de Nossa Senhora das Verdades. Daí virava para S. E., pelo Oeste das Escadas das Verdades, até ás Escadas do Codeçal, e esquina do Recolhimento do Ferro. (Este lanço de muralha, ainda existia em 1874, em perfeito estado de conservação, com quase todas as suas ameias: era de cantaria, sem cimento de qualidade alguma, e parecendo mais obra romana do que sueva).

Descia pelas Escadas do Codeçal, até à margem do Douro, -- onde ainda hoje se vê—na Porta da Lada, que ficava por trás de Cima do Muro da Ribeira, e perto da ermida de Nossa Senhora da Lada.

Daqui, cortava a muralha na direcção do oeste, até ao largo da Ribeira (onde consta que ouve uma Porta, chamada da Vila, junto da qual corria um ribeiro também chamado da Vila).

A muralha fazia aqui um angulo, e tomava a direcção de N.E, seguindo pelo lado do Sul da antiga rua dos Mercadores, até ás Porta de Santa Ana, donde, seguindo a mesma direcção de N. E., continuava pelo lado Sul da rua da Bainharia, até ás Portas de S. Sebastião.

Daqui, formando um Z ás avessas, ia fechar ás portas de Nossa senhora de Vandoma.

Compreendia este circuito de muralhas no seu recinto, as bitesgas e alfurjas (a que hoje se dão o nome de ruas); Nossa Senhora de Agosto, pena-Ventosa, das Aldas, de S. Sebastião, de Tráz; travessa de Santa Ana; os largos do Açougue-real, da Pena-Ventosa; além de uns pequenos e imundos becos, na Ribeira.

Eis a primitiva cidade sueva do Porto, que não era a décima parte da Alfama, a cidade árabe de Lisboa.

Foi esta zona amuralhada que, a rainha D. Thereza mandou coutar e deu em feudo ao bispo do Porto D. Hugo.

CASTRO DA PENA-VENTOSA

Dizem alguns escritores, que os suevos já aqui encontraram uma fortaleza romana, denominada Castro da Pena-Ventosa; alguns até sustentam que a primeira casa da rua da Pena-Ventosa, indo da das Aldas, está construída sobre um dos baluartes do castro romano.

Desta casa até à parede Este do colégio dos grilos, era a parte principal de uma antiquíssima fortaleza, fechada por este lado Oeste por uma alta e robusta muralha.

A cidadela deste castelo romano, ou a sua torre de menagem, era o templo da Sé, construído em forma de fortaleza, com as suas ameias e seteiras e com toda a robustez de uma praça de armas, como era uso naquele tempo.

 

O PORTO GODO

621: Foi aclamado rei, Flavio Swintila, filho de Flavio Ricaredo I; continuou a guerra contra os romanos e vasconços, conseguindo expulsar os primeiros da Península, sendo o primeiro rei cristão que reinou em todas as Espanhas.

631: Swintila, que fora um príncipe virtuoso, e um valente general, nos primeiros anos do seu reinado, mudou todas as suas virtudes em vicios abomináveis, pelo que os seus vassalos, ajudados pelo rei de França, Dagoberto I, o expulsaram do trono ( Dagoberto I, reinou desde 628 até 638), aclamado o senhor godo, Sisinando.

636: Sisinando convocou o 4.º concilio, de Toledo, onde apareceram 72 bispos, e entre eles; os do Porto, Braga, Eminio, Egitania, e Conimbriga.

Falecendo o rei Sisinando, lhe sucedeu seu irmão Chintila que convocou o 5.º e 6.º concílio de Toledo, nos quais se trataram materiais importantes para o reino.

641: Neste ano morreu Swintila; depois de se ter retirado para a Galiza.

642: Faleceu Chintila, sucedendo-lhe Tulga.

643: Sucedeu a Chintila, Chindaswindo que reformou as leis góticas.

649: Chindaswindo convocou o 7.º concílio de Toledo.

650: Faleceu Chindaswindo, sucedendo-lhe seu filho Rescewindo, que reinou quase 22 anos, de profunda paz, com o que muito prosperou o reino.

Houve no seu tempo o 8.º, 9.º e 10.º concílios de Toledo, e um em Mérida.

672: no último ano do reinado de Rescewindo, invadiram os gasdões as costas da Lusitânia, mas foram derrotados, e tiveram de fugir para a França.

Neste ano morreu Rescewindo, ficando-lhe por único herdeiro seu filho Theodofredo, de menor idade.

Não quiseram os godos para seu rei, em tempos tão revoltosos, uma criança; pelo que elegeram o famoso Wamba, que, em pouco tempo, conseguiu pacificar os seus estados.

675: Wamba convocou o 11.º concílio de Toledo, no qual se terminou a divisão dos bispos da Península; ficando o do Porto com as freguesias que já possuía.

Por este tempo, uma grande esquadra de mouros africanos, invadiu uma grande parte do litoral da nossa província do Minho; porém Wamba os derrotou em terra, e seus navios foram incendiados; de modo que muito poucos poderam levar à África a notícia de tão grande derrota.

682: Dez anos apenas, durou o feliz reinado do Santo Wamba, que abdicando em Ervigo ou Ervigio que tinha adoptado, se retirou a um mosteiro, onde faleceu.

687: Morre Ervigo, sucedendo-lhe no trono Egica, seu genro, e sobrinho de Wamba.

701: Por falecimento de Egica, sucedeu-lhe no trono seu filho Witiza, que foi um poço de vícios, permitindo a poligamia, negando a obediência espiritual ao papa, e arrasando grande número de fortalezas da Espanha, por conselho do seu valido, o tristemente celebre, conde D. Julião, pai de Cava, que já então tramava a traição que mais tarde levou a efeito contra a sua pátria.

707: D. Rodrigo, e Acosta, filhos do príncipe Theodofredo, e descendentes do rei Cisdawindo, expulsaram do trono a Witiza, e D. Rodrigo foi aclamado rei de todas as Espanhas, com grande alegria dos povos; mas em breve se tornou quase tão vicioso como o seu antecessor.

D. Julião, continuando com as suas maquinações, induz o novo rei a continuar na demolição das fortalezas, sob pretexto de tirar a força aos senhores godos, que nem sempre obedeciam ás ordens do rei.

712: Aplanada, nesta parte, a estrada da traição, o pai de Cava, passa a Ceuta com sua filha, e ai combina com os africanos a maneira mais fácil da conquista da Península.

713: Tarif-Aben-Zarca, atravessa o estreito de Gibraltar, com um exército de doze mil homens.

Os godos, comandados pelo príncipe D. Sancho, saem ao encontro; mas tendo morrido este príncipe valoroso, logo no principio da batalha, as suas tropas desanimam e os mouros as desbaratam.

D. Rodrigo, que estava em Toledo, marcha com grande número de soldados para o Norte da Espanha, mas quando chega, já o conde Julião e os mouros tinham retirado para a África, carregados de ricos despojos.

D. Rodrigo trata então de se preparar para a resistência de novas investidas, e principia a reconstrução de algumas fortalezas, que ele e o seu antecessor haviam mandado demolir.

714: Os mouros, o conde Julião e o bispo Opas (seu irmão) não lhe dão tempo de se colocar na defensiva, e Tarif-Aben-Zarca, com um numerosíssimo exército passa de novo à Espanha – vinha com tanta certeza da conquista, que já trazia uma multidão de mulheres, crianças e escravos, para povoar a Península, e impor-lhe a sua lei, religião e costumes.

D. Rodrigo apressa-se em lhe sair ao encontro, com um exército também muito numeroso, mas composto, na sua maior parte, de gente bisonha, sem disciplina, e sem pratica militar.

O encontro teve lugar nas margens do rio Guadalete: os godos, seguindo o exemplo do seu rei, que se batia com a maior bravura, fizeram prodígios de valor. A batalha durou oito dias, mas por fim os cristãos foram completamente derrotados, e o rei, a grande custo se salvou, vestido de pastor, e veio, segundo todas as probabilidades, terminar os seus dias à Lusitânia.

Com esta batalha terminou o reinado godo nas Espanhas; desta batalha escapou com vida, D. Pelayo, príncipe de sangue godo, que com alguns cristãos, se refugiou nas cavernas, quase inacessíveis de Cova-Donga (Asturias) e ai, pela sua bravura, pela sua constância e pela sua inteligência, conseguiu formar o núcleo desses exércitos, que no fim de uma guerra titânica de 537 anos, poderam expulsar da Lusitânia (Algarve) os dominadores sarracenos (em 1250) e no fim de 779 anos (1492) expulsaram da Espanha (Granada) as últimas hostes agarenas.

PORTO MOURO

715: A onda vinda da Mauritânia em breve se espalhou pela Espanha, invadindo a Lusitânia, pelo Sul, caindo em seu poder as fortes praças e castelos de Évora, Beja, Alcácer do Sal – no Alentejo; Portimão e silves – no Algarve; Idanha e outras terras – na Beira, e assim foram sucessivamente conquistando toda a Lusitânia.

716: Cai o Porto, tomada de assalto pelos mouros, comandados pelo emir, Abd-el-Azim.

Parece que os mouros se limitaram, por então, a saquear a cidade e a assassinar todos os seus habitantes que não poderam fugir – tendo conservado as suas fortificações.

Cento e quatro anos se conservaram os mouros senhores pacíficos desta cidade – os árabes chamavam a esta cidade Bortkl.

820:Um dos descendentes do ilustre Pelaio, D. Afonso I, de Castela (o Católico) foi o primeiro, que veio quebrar as algemas do Porto, resgatando esta cidade do poder dos infiéis.

824: Abd-el-Raman, kalifa de Córdova, pretendeu reconquista-la; porém o conde Hermenegildo, governador do Porto, saiu-lhe ao encontro pela porta, depois chamada da Batalha, tendo esta acontecido, junto ao lugar onde hoje está a igreja matriz de Campanha, no sitio onde corre um ribeiro, hoje chamado Rio Tinto ( cujo nome, se diz, tomou depois desta batalha, em razão do muito sangue que nela correu, tingindo o ribeiro, que levou as suas ondas ensanguentadas, até ao Douro), os mouros foram completamente desbaratados, e o seu chefe morto.

825: Al-Mançor, o grande, que sucedera no kalifado de Córdova, e se intitulara o terror dos cristãos, ansioso por tomar a desforra, reuniu um grande, exército, composto da flor das suas tropas e caiu sobre a cidade do Porto, que depois de repetidos ataques tomou e destruiu, não deixando pedra sobre pedra!

PORTO CRISTÃO

982: Cento e cinquenta e sete anos esteve esta cidade deserta e abandonada, sem que os cristãos a quisessem repovoar, receando novas desgraças – tal era a esse tempo a força dos mouros.

Mas neste ano, reinando em Leão, nas Asturias, na Galiza e em Portugal, D. Ramiro III; fundeou no Douro uma esquadra de normandos e gascões, comandados por D. Moninho Viegas e seu irmão, D. Sisnando Viegas (que depois foi o 15.º bispo do Porto) e por D. Nonego, bispo de Vendome (França), que andavam pelo litoral de Portugal (era já esse o nome e não Lusitânia)

Procurando ocasião de se bateram contra os infiéis.

O PORTO DOS DOIS IRMÃOS

Muitos escritores sustentam que: D. Moninho e D. Sisnando eram portugueses, filhos do conde D. Gonçalo Moniz, governador do Porto, Coimbra, Feira e da maior parte da província de Entre-Douro e Minho; e que, vendo esta cidade assim destruída e abandonada, foram pedir socorro aos gascões, que nesses tempos faziam profissão de nautas errantes, combatendo os mouros por mar e terra, e vivendo dos despojos tomados aos infiéis;

Que o bispo D. Nonego pregou uma espécie de cruzada, prometendo fazer parte dela, e vir em socorro dos cristãos portugueses, e que tudo se levou a efeito;

Que o cognome de gasco (gascão) dado a D. Moninho, foi por ele estar algum tempo na Gasconha (como no século passado, se costumava chamar brasileiros, aos portugueses que residiram alguns anos no Brasil). É uma opinião digna de crédito; porque o apelido Viegas, é mais gótico do que francês; e o prenome de Dom, dado por todos os escritores aos dois irmãos, confirma esta opinião.

Mas, quer fossem portugueses ou franceses, o certo é, que a estes dois irmãos; ao bispo de Vendome, aos gascões e normandos que os acompanharam, DEVE O PORTO A

SUA REEDIFICAÇÃO E REPOVOAMENTO.

Segundo a Chronica dos cónegos de Santo Agostinho (Página 242, capitulo 4.º):

«Os dois irmãos, D. Moninho Viegas e D. Sisnando, não eram gascões, mas portugueses, e muito portugueses – porque—Reinando em Castela e Leão, D. Ramiro 3.º, em 982, e sendo senhor do porto o conde D. Gonçalo Moniz, entrou pelas terras de Portugal o capitão mouro, Al-Mançor, com um poderoso exercito, e veio por um apertado cerco à cidade do Porto.

O conde e os portugueses, resistiram por muito tempo, heroicamente; mas, faltando-lhes o sustento, e sendo tão poucos em numero, comparados com os mouros, e morto gloriosamente o conde, na entrada destes na cidade, tiveram de retirar.

Al-Mançor, em vingança da resistência tenaz que lhe haviam feito os habitantes do Porto, reduziu a cidade a um monte de ruínas.

O bravo conde, que era senhor das terras, da Feira, Porto e quase toda a província d`Entre-Douro e Minho, deixou dois filhos, já homens, herdeiros do seu extremado valor e das suas grandes riquezas, e que se chamavam D. Moninho e D. Sisnando.

Vendo estes, que nas suas terras não havia gente bastante para d`elas expulsarem os mouros, foram por mar, à Gasconha, pedir socorros, e breve de lá vieram, com uma poderosa armada, em que vinham muitos senhores franceses, mui esforçados capitães, e com eles, D. Nonego, bispo de Vendome.

984: Aportou esta armada na Foz do Douro, e desembarcaram no Porto, expulsaram os mouros, à força d`armas, e reedificaram e fortificaram a cidade.

Foram estes gascões que ordenaram, que, a toda a terra de que se expulsassem os mouros, se desse o nome de TERRA DE SANTA MARIA – denominação que hoje só conserva a Terra da Feira.

D. MONINHO VIEGAS – SEUS DESCENDENTES

D. Moninho Viegas (o Gasco) foi casado com D. Valida Tructesendes, e são estes os progenitores dos Coelhos, dos Vasconcelos (marqueses de Castelo Melhor) e de outras muitas famílias das principais deste país.

Foi seu filho D. Egas Moniz, o Gasco, que casou com D. Toda Hermingues.

Foi filho deste D. hermigio Viegas, casado com D. Ouroana.

Foi seu filho D. Moninho Hermiges, do qual foi filho o grande D. Egas Moniz, rico homem, aio e amigo de D. Afonso Henriques, e descendente em linha recta de D. Moninho Viegas, o Gasco.

O Catalogo e história dos bispos do Porto, por D. Rodrigo da Cunha, bispo da mesma diocese, diz que D. Moninho Viegas teve outro filho, chamado D. Garcia, que morreu em uma batalha, dada contra os mouros, em Terras de Santa Maria.

Diz o mesmo escritor, que o intrépido D. Mem Moniz, que morreu atravessado na porta do Norte do Castelo de S. Jorge de Lisboa, no dia 21 de Outubro de 1147, era filho de D. Moninho Hermiges e de D. Ouroana, e portanto, irmão e não filho do grande Egas Moniz.

Todos estes cavaleiros foram governadores e naturais do Porto, e bravos batalhadores, resgatando do poder dos mouros grande extensão de território ao Norte do Douro, na antiga comarca de Guimarães; e ao Sul do mesmo rio, desde Gaia até ao rio Antuan, dando a estes dois territórios a denominação de Terras de Santa Maria. Com o tempo, o território ao Norte do Douro, se veio a chamar Terra de Guimarães, e ao Sul, Terra da Feira; mas este, conservou por muito mais tempo a sua antiga denominação, pois que, ainda até 1820, em todos os documentos oficiais se chamava Terra de Santa Maria.

Por tão assinalados feitos, foram os Gascos muito estimados, e obtiveram grandes honras e privilégios (tanto para eles, como para a cidade do Porto) dos reis D. Afonso V( Este soberano, sendo ferido por uma seta em um combate, junto a Viseu, veio morrer na cidade do Porto, em 1207) e D. Fernando I, de Leão, o que tudo foi confirmado no fim do século XIV, por D. João I de Portugal, em prémio dos relevantíssimos serviços prestados pelos PORTUENSES, a favor da causa da independência da pátria.

Cuidou pois D. Moninho, na reconstrução desta cidade e sus fortificações, e o mesmo fizeram seus sucessores, cuidando ao mesmo tempo em atrair para aqui grande número de habitantes, de modo que, quando o conde D. Henrique tomou conta de Portugal, já eles não cabiam dentro dos muros da circunvalação e tinham principiado a formar extra-muros a povoação que pouco depois se veio a chamar Burgo Novo de a par do Porto, e que tanto deu que fazer aos nossos primeiros reis.

ARCO DE VANDOMA

O bispo D. Nonego havia trazido de França uma devotadíssima imagem de Nossa Senhora da Vendôme, que colocou em um nicho, sobre o arco aberto na muralha, ao Norte-Este da fortaleza, e que por isso, desde então, se ficou chamando porta de Nossa Senhora da Vendôme.

Esta porta, a que ultimamente se dava o nome de Arco da Vendome, estava no fim da rua Chã, antiga rua Chan das Eira, à entrada do largo da Sé.

A rainha D. Teresa transformou o nicho da Senhora em uma formosa edicula.

Em 1840, a Câmara do Porto, sem a mínima utilidade conhecida, entendeu na sua "alta inteligência" dever arrasar este curioso, e ainda solido monumento, porventura o único (além de alguns lanços de muros) do tempo dos Gascos, e o arco da Vandoma desapareceu para sempre; mas já então não tinha senão o arco, o oratório e pouco mais.

A porta principal da fortaleza sueva, era esta de Vandoma; tendo sobre ela, além da edicula da Senhora, duas alterosas torres, uma da cada lado da edicula, assentes sobre solidas muralhas.

É também deste tempo a fundação da igreja matriz de Santa Eulália de Vandoma, a uns 20 quilómetros do Porto.

SÉ DO PORTO

D. Moninho e seu irmão trataram imediatamente de reconstruir as antigas fortificações do Porto, construindo quartéis para as suas tropas e habitações para os cristãos que quisessem vir para aqui habitar, e edificando a igreja catedral – existindo ainda hoje, em grande parte, as obras por eles mandadas fazer nesta igreja.

A primitiva Sé era na actual igreja matriz de S. Pedro de Miragaia, mas vendo que convinha ser a igreja catedral, no centro da cidade, a fundaram no sitio actual; mas em forma de castelo, segundo o uso d`esse tempo; fazendo-se também mosteiro, para residência do bispo e seus cónegos, onde hoje é o paço episcopal.

Tomou conta da mitra, o referido D. Nonego, e para ali se transferiu com os padres franceses, que trouxe da Gasconha.

Esta posição era naquele tempo formidável; porque do Sul, servia-lhe o Douro de fosso, sendo desde o castelo (que estava construído no sitio onde hoje se vê o paço episcopal) até ao rio uns penhascos íngremes e inacessíveis. Do Oeste e Norte, também o monte era muito mais íngreme do que actualmente: porque nos sítios, das antigas, e novas ruas e ruelas; Bainharia, Ponte-Nova, Souto, Flores, Mercadores e todos os becos próximos do rio da Vila, era um profundo vale, que as areias e enxurros, acarretados no inverno pelas torrentes, foram pouco a pouco entulhando.

A rua de S. João, mandada fazer por D. João I, pelos anos de 1390, está edificada sobre arcaria de pedra, um verdadeiro túnel, por onde passa o Rio da Vila. Era tão baixo este lugar que por ele entrava um braço do Douro.

A parte mais acessível desta fortaleza, era pelo Este, mas aqui era defendida por um forte castelo, que estando muito arruinado, foi demolido, quando se deu principio ás obras do paço episcopal. Ao fundo do pátio deste, ainda existe um lanço de muralha, bem conservado, prolongando-se pelo Este, do antigo largo do Colégio até à rua das Aldas. ERA

ESTE O FAMOSO CASTELO DA PENA VENTOSA.

CASTELO DA PENA VENTOSA

Alguns escritores pretendem que a construção primitiva desta fortaleza, remonta ao ano 1204 antes de J.C., que conjuntamente com o castelo de Gaia, foi obra dos graios (gregos). Outros contentam-se em lhe dar por fundadores, os romanos – ambas são prováveis – é certo porém, que os suevos acharam tudo destruído.

Os povos do Porto, confiados nesta óptima posição, no seu castelo, cercado de robustas e altas muralhas, guarnecidas de soberbas torres; e animados pelo seu número, pois que das aldeias circunvizinhas se lhes tinham reunido muitos cristãos, opuseram aos mouros uma tenaz e heróica resistência; mas os cristãos tinham a bater-se contra Al-Mançor, chefe valorosíssimo e muito hábil, e contra soldados bravos, disciplinados, afeitos ás batalhas e ás vitórias, e além de tudo isto, muito superiores em número, pelo que tiveram de sucumbir. Os vencedores trucidaram quantos cristãos puderam agarrar; e quando não tinham mais vidas a exterminar, voltaram a sua sanha contra os edifícios, não deixando pedra sobre pedra, segundo relatam os escritores.

Só daí a dez anos (foi o tempo em que durou o domínio do feroz Al-Mançor na província do Minho, cujas povoações demoliu e incendiou, depois de as ter saqueado) é que as valentes hostes leonesas, em sucessivas e gloriosas batalhas, venceram os mouros, tendo Al-Mançor de fugir precipitadamente para Córdova, com as relíquias do seu exército.

1025: D. Nonego, ordenou outros, e vivendo todos em comunidade, sob a regra de Santo Agostinho (cruzios) e comendo no refeitório.

D. Nonego governou a diocese, quase 41 anos, desde 984 a 1025, e achando-se muito velho, convocou a clero, nobreza e povo, do Porto, e, por unanimidade, foi eleito seu sucessor, D. Sisnando Viegas, irmão de D. Moninho.

1026: D. Sisnando era versado, não só nas armas, mas também nas letras sagradas; porém, como não tinha ordens sacras, D. Nonego lhas conferiu e o sagrou bispo do Porto.

1092 ou1093: D. Afonso V de Leão, e D. Fernando I, em prémio dos serviços prestados por D. Moninho, a esta cidade, e aos cristãos dos arredores, deram-lhe, para ele e seus sucessores, o titulo de condes do Porto, titulo que durou até este ano. Ano em que o conde D. Henrique e sua mulher, a rainha D. Teresa, tomaram posse de Portugal, que o pai desta, D. Afonso VI, rei de Leão e Castela, lhes havia dado em dote.

1103: O conde D. Henrique e a sua mulher trataram de aformosear esta cidade, construindo muitos edifícios, sendo o principal, o majestoso templo da Sé, único monumento que hoje existe desse tempo. (a capela-mor, é obra do bispo D. frei Gonçalo de Morais, pelos anos de 1602).

Não se limitaram a construir vários edifícios; confirmaram também e ampliaram os antigos privilégios, que seus sucessores igualmente confirmaram.

14 de Julho de 1123: O bispo D. Hugo dá o primeiro foral ao burgo do Porto, que a rainha D. Teresa havia coutado.

1185: A partir desta data, o bispo D. Martinho Pires, não só consentiu que os cónegos vivessem em suas casas, e segundo as suas rendas, mas sim, instituiu as dignidades de: deão, chantre, mestre-escola e tesoureiro.

Extinguiu os arcediagos que havia, unindo-os à mesa episcopal e cabido.

(Depois da extinção dos arcediagos, foram criados; o arcediago do Porto, pelo bispo D. João da Azambuja, em 1398; o de Oliveira, pelo bispo D. Luís Pires, em 1455; e o da Régua, pelo bispo D. João de Azevedo, em 1492. A dignidade de arcipreste foi criada pelo bispo D. Fr. Baltazar Limpo, em 1541).

1186 (1148 J.C.): Os cónegos, viveram, desde que houve bispos no Porto, em comunidade, como outros quaisquer frades, e sob a regra de Santo Agostinho: até que, o bispo do Porto D. Hugo, dividiu as rendas em três partes; uma para a Sé; outra para ele; e outra para os cónegos, que, desde então, começaram a viver destas rendas, sob a denominação de cónegos seculares, que adoptaram.

1189: Reinando em Portugal D. Sancho I, foi feito bispo da diocese do Porto D. Martinho Rodrigues, que era tesoureiro da Sé.

Homem ambicioso, D. Martinho Rodrigues, logo que foi sagrado bispo, não quis estar pela divisão das rendas do bispado, feita pelo seu antecessor D. Martinho Pires, com o cabido; mas queria dar aos cónegos somente o vestido, casa e sustento, para viverem em comunidade como religiosos regulares.

O cabido citou o bispo, perante D. Martinho Pires, então arcebispo de Braga e o mesmo que havia feito a divisão das rendas, e este conseguiu harmonizar as partes, fazendo uma nova divisão das rendas do bispado, ficando uma terça parte para os cónegos e duas para o bispo – designando as igrejas e terras que ficavam à parte.

D. Sancho I confirmou em D. Martinho Rodrigues as grandes doações feitas ao bispo do Porto por seus predecessores; mas aumentado os privilégios e liberdades dos moradores da cidade, sendo um dos seus principais privilégios não irem à guerra, nem mesmo na companhia do rei, senão quando o reino fosse invadido pelos mouros. Investiu, porém, os bispos do Porto em tão ampla autoridade, que até os fez árbitros e juizes nas causas entre o rei e o povo da cidade.

Havendo duvidas entre este bispo e os moradores da cidade, que pretendiam isentar-se da sujeição e vassalagem episcopal, alegando que o prelado lhes quebrava o foral que D. Hugo lhes fizera, D. Sancho I sentenciou que os cidadãos e moradores do Porto eram vassalos do bispo, senhor da cidade, conforme a doação da rainha D. Teresa, avó do rei. Tão grandes privilégios, concedidos aos bispos do Porto, desagradaram ao povo que se não queria resignar a tão grande sujeição.

Os bispos, como senhores da cidade do Porto, arrecadavam os direitos sobre todas os géneros e mercadorias que entravam pela foz do Douro, e lançavam novos impostos sobre o povo.

Várias vezes se queixaram ao portuenses pela quebra dos seus antigos privilégios; mas vendo que era sempre baldadamente, o povo amotinado e furioso, acometeu o paço episcopal, arrombando as suas portas, depois de débil resistência, e invadindo-o, chegaram aos aposentos do bispo, e, depois de lhe lançarem em rosto os vexames de que eram vitimas, o prenderam no próprio paço, e assim se conservou por espaço de cinco meses, até que iludindo a vigilância dos seus guardas, conseguiu fugir, embarcando ocultamente para França e indo apresentar-se ao papa Inocêncio III, a queixar-se dos seus rebeldes vassalos.

D. Martinho, bispo de Samóra (Espanha) e Fernando, arcediago da mesma igreja, foram nomeados pelo papa seus delegados e juizes nesta causa, sentenciando afinal a excomunhão maior e a serem havidos por infames doze dos revoltosos que foram julgados mais criminosos; e além disso a restituírem à igreja o calor dos danos que lhe haviam causado. O bispo, depois, ou movido pelos rogos de alguém, ou para evitar maiores desgostos, pediu ao mesmo pontífice o perdão dos culpados. Inocêncio III passou breve ao abade e prior de Santo Tirso para serem absolvidos da excomunhão, dando-lhes uma penitência saudável.

O princípio do episcopado de D. Martinho Rodrigues foi infeliz, não só pelas desordens e tumultos com o povo, como porque nesse tempo – ainda no reinado de D. Sancho I – houve tão grandes invernadas e tão continuadas chuvas, que de todo se perderam as novidades. Depois sobreveio tão grande seca e calores tão excessivos, que causaram muitas doenças e mortes. Estas calamidades acarretaram após os terríveis flagelos da fome e da peste, que causaram uma horrível mortandade em todo o reino.

Nas guerras civis que rebentaram entre El-rei D. Diniz e seu filho, e depois entre este príncipe já rei e seu filho D. Pedro, passou o Porto por muitos trabalhos.

1200: Houve um eclipse total neste reino, que converteu em noite grande parte do dia.

Neste mesmo ano, houve uma grande fome em Portugal.

1230: O rei D. Sancho II fundou o convento de S. Domingos, cuja igreja foi destruída depois de 1834, e o edifício do mosteiro arrasado, e o chão vendido a diversos particulares, encontrando-se nesse terreno diversos prédios, que formam o lado oriental da rua Ferreira Borges, parte da rua de D. Fernando, e parte da nova rua em construção (1874) no largo de S. Domingos.

Neste ano, o mesmo soberano, fundou, fora dos muros da cidade, o convento dos frades franciscanos.

1308: O cinto das muralhas que fechava o Burgo do Porto, e que se chama vulgarmente circunvalação sueva, foi mandado construir por D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, tendo terminado a sua construção no ano de 1310. Antes deste tempo só existia a fortaleza chamada castelo.

4 de Janeiro 1322: Nas desavenças entre D. Diniz e seu filho D. Afonso, depois 4.º, lhe tomou este – entre outra povoações e castelos – o castelo de Gaia e a cidade do Porto.

Feita a paz, por intermédio de Santa Isabel, ficou D. Afonso com o Porto, Coimbra e Monte Mor Velho.

Atribui-se a isto a consideração em que foi tido o Porto, por D. Afonso 4.º, depois de rei.

1336: Reinando D. Afonso IV, foram os arrabaldes do Porto desbastados pelas tropas castelhanas, que sitiavam a cidade; mas que, afinal, tiveram de levantar o cerco, acometidas por uma divisão organizada pelo bispo D. Vasco, que, à frente dela, as derrotou.

Apesar desta acção, o bispo teve de fugir da cidade, em 1340, por se haver alvorotado o povo e a Câmara, em razão do bispo lhes exigir certos direitos.

O prelado excomungou a cidade, mas não tornou a entrar nela.

Em 1350, vagando o bispado de Lisboa, foi feito bispo desta diocese.

As causas destas desordens foram não só as exigências do bispo e os seus amplos poderes e privilégios, mas também a reforma dos pesos e medidas.

O povo debalde se queixou ao seu senhor, das novas vexações e da continuação das antigas, o prelado conservou-se inflexível. Então o povo revoltou-se, e armado cada portuense com a primeira arma a que podia lançar mão, foi o paço episcopal acometido por grande multidão de gente da cidade e das aldeias suburbanas. Os fâmulos do bispo defenderam corajosamente o paço; porém o prelado, que estava na igreja a assistir a uns ofícios fúnebres, fugiu a esconder-se em uma torre do antigo castelo – que ainda se conservava (1881) em bom estado, junto à igreja – e assim se salvou de grandes insultos e talvez mesmo da morte, porque a cólera do povo ainda mais se exacerbou com a resistência dos familiares do bispo.

Conseguindo o povo, apesar da resistência tenaz, arrombar a porta do paço, invadiram-no, assassinando dois fâmulos e espancando outros. Conhecendo que não podiam tomar a torre onde se tinham refugiado o bispo, decidiram pôr-lhe cerco, até que ele se rendesse pela fome; mas, no dia seguinte, a rogos de algumas pessoas principais da cidade, ás quais o povo respeitava, desistiram do seu projecto e abandonaram a guarda da torre.

MURALHA FERNANDINA

1336: As antigas fortificações conservaram-se, com pequenas alterações, até que D. Afonso 4.º, reparou o castelo e deu princípio ás muralhas de circunvalação, cuja obra continuou durante o reinado de D. Pedro 1.º, mas foi seu filho, D. Fernando 1.º, que lhe deu maior impulso, e a concluiu em 1376 – Quarenta anos se gastaram na construção desta grandiosa obra, hoje pouco resta , é o prémio!... do esforço de milhares de portugueses.

Eram estas muralhas de robusta cantaria, e guarnecidas de soberbas torres, tudo com ameias.

Esta circunvalação tinha muito maior âmbito do que a anterior, pois, não só compreendia a cidade antiga mas também o Burgo Novo a par do Porto.

Consta que esta grande obra, custou, só ao rei D. Fernando, 30$000 reis; quantia tão importante naquele tempo, que veio de Lisboa para o Porto, escoltada por um regimento de cavalaria e outro de infantaria.

A circunvalação chamada de D. Fernando, principiava no Postigo do Carvalho, (que depois se chamou de Santo António do Penedo, por causa de uma ermida deste santo, que ai se construiu – e por fim – Porta do Sol.

Esta porta, achando-se em estado de ruína, foi mandada demolir por D. João d`Almada e Melo, em 1774, e construída uma nova, de arquitectura romana; à qual, por ter um sol esculpido sobre a inscrição, principiou o povo a chamar Postigo ou Porta do Sol.

No tímpano desta nova porta, havia a seguinte inscrição:

SOL HUIC PORTAE

JOSEPHUS LUSITANO IMPERIO

JOANNES DE ALMADA E MELLO

PORTUCALENSE URBI FINITIMISQUE

PROVINCHS AETERNUM

JUBAR GAUDIUM PERENNE

Estas portas, foram demolidas em 1875, para se ampliar o edifício da Casa-Pia. Foi um vandalismo quase escusado, porque o edifício era bastante vasto, e o monumento (que em nada estorvava o trânsito público, porque o vão do arco era amplo) pela sua elegância, adornava o sítio, e era um padrão comemorativo do varão a quem o Porto tanto deve.

Continuemos a descrever a circunvalação do cinto de muralhas de D. Fernando.

Do Postigo do Carvalho (Outros dizem que se chamava dos Carvalhos do Monte, em razão de um souto que ali havia. Os que pretendem que se denominava do Carvalho, dizem que era em razão de um grande carvalho que estava próximo) seguia para o Norte Este, por onde hoje é o governo civil (Casa Pia) até ao local onde está o teatro de S. João. Daqui, voltando para o Norte Oeste, no sítio onde estava a capela de Nossa Senhora da Batalha, seguia até à actual rua de Cimo de Vila, onde tinha uma porta que deu o nome à rua.

(Também se chamava Porta da Batalha). Daqui, inclinando mais para o Oeste, seguia pelo lado do Sul da Calçada da Teresa e viela da Madeira, até à Porta da Rua de Carros.

Este lanço estáva perfeitamente conservado (1874), e desafiando o correr dos séculos ( se o camartelo municipal o não destruir) com suas torres e ameias. Pinho Leal em 1874, já predestinava o futuro.

Servia de vedar a cerca das religiosas do mosteiro de S. Bento da Ave Maria.

A Porta de Carros, era defendida por duas alterosas torres, uma ao Este, outra ao Oeste. (Em 1874 ainda existia a primeira) – Em 1529 caíram 360 braças (800 metros) de muralha, entre esta porta e a do Olival. D. João III mandou reedificar isto, custando cada braça 800 reis.

Note-se que do tempo de D. Fernando só aqui existia um postigo, que foi demolido em 1521, para, em seu lugar, se construir uma porta mais ampla. Tinha esta seguinte inscrição:

REGNANTE DIVO EMMANUELE

QUI PRIMUS PORTUGALIAE REGUM

AD MARE USQUE INDICUM

ET SCYPTUM LUSITANIAE

IMPERIUM PROPAGAVIT

APERTA FUIT HAEC PORTA,

SIMULQUE VIA,

QUAE HINCI SANCTI

DOMINICI TEMPLUM DUCIT

INDUSTRIA ANTONII CORREA

HUJUS PROVUNCIAE CORRECTORIS.

1521

Esta porta foi demolida pelos anos de 1827; mas, ao sítio ainda se continuou a chamar, por muitos anos Porta de Carros.

Da Porta de Carros, marchava a muralha, em linha recta, na direcção do Oeste, pelo mosteiro dos cónegos de S. João Evangelista (Lóios) – depois transformado em riquíssimos prédios da Sra. Viuva Cardoso "Pasmaceira dos Lóios" – até ao princípio do passeio público da Cordoaria, onde havia um vasto olival; e tinha aqui uma porta, por isso chamada do Olival, da qual não à vestígios mais do que o nome, que o sítio conservou. (A cidade do Porto correu demanda contra os judeus sobre 200 maravidis de moeda antiga, que lhe deviam pela casa e chão compradas pelos mesmos judeus, neste sítio. Foram condenados ao pagamento. A cidade aforou-lhe então o campo do Olival (actual jardim da Cordoaria) por 200 maravidis de 27 soldos cada um.

Daqui até ao fundo das escadas da Esnoga era a judiaria.

Os judeus e moiros podiam exercer no Porto qualquer arte ou ofício, menos a medicina).

Da porta do Olival, inclinava a linha de muralhas mais para o Sul-Oeste, pela parte do Sul da antiga Rua do Calvário, onde em 1874 ainda existiam lanços de muros e uma torre bem conservada.

Ao fundo da rua do Calvário, estava a Porta das Virtudes, que vinha a ser ao cimo da rua de Bello-Monte.

A circunvalação ia inclinando sempre para Sul-Oeste, pelo lado do Norte-Este da rua da Cordoaria Velha, onde também existia 1874, lanços de muralha, até ás Portas de Nossa Senhora da Esperança, ao cimo da rua deste nome, e junto à capela da Senhora desta invocação.

Aqui mandou o rei D. Manuel I, pelos anos de 1522, construir um baluarte, que existia em 1874; e desde o qual a muralha seguia ainda mais inclinada a Sul-Oeste, até à Porta Nova, ou Porta Nobre.

Na circunvalação de D. Fernando, havia aqui um postigo, chamado da praia, que o rei D. Manuel mandou demolir, em 1522, construindo, em seu lugar, uma porta mais ampla (por isto se chamou, Porta Nova).

D. Manuel, na reconstrução desta porta, tornou a mandar colocar sobre o arco, as armas de D. Fernando I, que estavam no postigo( tinham 13 castelos).

Em 1872, foi demolida esta porta, para se construir a nova rua da Alfândega.

Em 29 de Fevereiro de 1872, foi a pedra onde estão esculpidas as armas de rei D. Fernando, mudada para o museu Allen; e no mesmo dia também foram para o dito museu as armas do rei D. Manuel que estavam na porta do baluarte.

Também sobre esta porta se construiu uma casa para a guarda (que, quando foi demolida, servia da casa de inspecção sanitária para as "toleradas"). Sobre a porta da entrada desta casa «para a qual se subia por uma escada de pedra que principiava em Cima do Muro» (conhecia bem esta casa, o ilustre escritor) estavam as armas de Portugal, e por baixo delas, a inscrição:

GOVERNANDO AS ARMAS

D`ESTA CIDADE E SEU PARTIDO

O CORONEL, ANTONIO MONTEIRO D`ALMEIDA,

SE FEZ ESTA OBRA,

NO ANNO DE 1731

Estas armas e a inscrição, foram também, no mesmo dia, para o museu.

Também D. Manuel, e no mesmo ano 1522, mandou aqui construir um baluarte, sobre o Douro, na extremidade ocidental de Cima do Muro.

Sobre o arco da Porta Nova, estava uma ermida, dedicada a Nossa Senhora do Socorro, templo de muito luxo, pela grande devoção que o povo tinha à sua padroeira, à qual faziam uma grande festa, na 1.ª oitava da Páscoa do Espirito Santo. Teve uma grande e rica irmandade.

Por esta porta, que era uma das principais da cidade, costumavam fazer a sua entrada solene, os bispos do Porto, quando tomavam posse do seu bispado; e os governadores da cidade, quando vinham ocupar o seu emprego.

Da Porta Nova, marchava a muralha sobre a margem direita do Douro (Cima do Muro) tendo neste lanço três postigos – o dos banhos, o do Pereira e o do Carvão, ou lingueta; até ao Terreirinho, próximo da antiga alfândega, onde havia outra porta chamada Postigo do Terreirinho, ou da Alfândega. Foi demolida em 1838, formando assim uma solução de continuidade a rua de Cima do Muro. Seguia na mesma linha (de Oeste a Este) sempre sobre a margem do rio, até ao Postigo do Peixe, que no Cais da Estiva, ou da Alfândega Velha, até ao largo da Ribeira, onde havia a principal porta da cidade, chamada Porta da Ribeira, que foi demolida, por ordem de D. João d`Almada e Melo, em 1774, para alargar a praça da Ribeira.

Continuava a muralha, com a mesma direcção, sobre a margem do rio, até ao fundo das Escadas do Codeçal, e se chamava Cima do Muro da Lada, e hoje, Cima do Muro da Ribeira.

Todo este lanço, desde o sitio onde existiu a Porta Nova, até ás Escadas do Codeçal, estava em 1874 perfeitamente conservado, menos no Terreirinho e na Ribeira, onde, como fica dito, foi demolido para utilidade pública. Toda esta muralha da Ribeira, era formada sobre robustíssima arcaria, e tinha dois postigos. O caminho da Lada, ao redor do muro, foi mandado fazer pelo rei D. Fernando, quando se fez o cinto de muralhas.

Ao fundo das Escadas do Codeçal, e em frente da ponte pênsil, fazia a muralha um ângulo, onde tinha cubelo, que ainda lá estava em 1874, e continuava na direcção do Este, até à Porta do Sol, onde principia esta medição.

Este lanço estava totalmente conservado, em 1874, assim como as suas torres, tudo com suas ameias, servindo a muralha para vedar a cerca do mosteiro de religiosas franciscanas, de Santa Clara, e as torres de miradouros das mesmas freiras.

Esta muralha, toda de robusta cantaria, tinha 3.000 passos de extensão, com 30 pés de altura. Era guarnecida de parapeitos e ameias, e defendida por muitas torres quadradas, que excediam 11 pés de altura da muralha; mas as torres que defendiam as portas de Cimo de Vila e do Olival, excediam 30 pés a altura da cortina.

1339: As primeiras notícias que é possível colher nos documentos conhecidos acerca do trânsito entre as duas margens do rio Douro, remontam apenas ao começo do segundo quartel do século XIV. Com efeito, foi neste ano de 1339, que D. Afonso IV, mandou inquirir ao certo, quanto rendia a cidade e qual a parte dessa renda, que cabia ao bispo e ao cabido, -- esclarecendo um dos artigos da inquirição, que de cada uma das barcas pequenas dos moradores de Vila Nova, que andavam na passagem, colhia o senhorio da igreja; seis soldos e nove dinheiros por ano; pagando as grandes, meio maravedi.

1343: A D. Vasco Martins sucedeu na cadeira episcopal D. Pedro Afonso. Este prelado facilmente se harmonizou com o povo, mas estas pazes pouco duraram, porque houve novo conflito por causa do julgamento dos presos, primeiramente entre a Câmara e o bispo, e pouco depois entre este e o rei.

Queria o bispo que os criminosos fossem julgados pelos tribunais eclesiásticos, como vassalos do prelado, e a Câmara que eles fossem entregues ás justiças de El-rei. Deu isto causa a grandes abusos e violências de parte a parte.

O bispo D. Pedro Afonso, querendo dar um caracter puramente eclesiástico aos crimes civis, convocou um sínodo na colegiada (então mosteiro) de Cedofeita, e ali se juntaram grande número de abades, seculares e regulares, e muitos clérigos e frades. Todos resolveram unanimemente que o bispo recorresse ás censuras da igreja contra ao que a pretendessem esbulhar dos seus privilégios e regalias.

No dia seguinte foram afixadas nas portas da Sé as censuras eclesiásticas, pelas quais se lançava a excomunhão a D. Afonso IV, se dentro em quatro meses não fizesse cumprir as prerrogativas episcopais, isto é, o poder temporal dos prelados.

O infante D. Pedro (depois 1.º do nome) filho do rei, foi ao Porto, dirigindo-se logo ao paço do bispo. Então pediu-lhe que levantasse a excomunhão ao pai e que desistisse das suas pretensões absurdas, que seriam causa de continuas e graves desordens; mas tudo isto foi dito com a maior moderação, constrangendo-se quanto pode este príncipe de génio violento. Disse-lhes, por boas maneiras, que ainda que seu pai quisesse desistir dos seus direitos majestáticos, o povo do Porto jamais se sujeitaria a deixar perder os privilégios que os forais, provisões, alvarás, e uma diuturna posse lhe tinham dado.

A nada o bispo se moveu; e o príncipe, não podendo mais conter-se, rompeu nos maiores insultos e ameaças contra o prelado, dando-lhe a voz de preso e obrigando-o a recolher-se a um quarto do paço episcopal, guardado por homens armados.

O bispo, temendo a cólera de D. Pedro, enganou os guardas e conseguiu fugir de noite, montado em um veloz cavalo e na companhia de um só criado, também muito bem montado; e tanto correram, que no dia seguinte estavam na cidade galega de Tuy, 225 Quilómetros ao Norte do Porto; e dali tornou a excomungar o rei, o príncipe e a cidade do Porto. De Tuy marchou para Bayona e de lá para Avinhão (França) onde então estava o papa Clemente VI com a sua corte, e ao qual fez as mais amargas queixas contra o rei, contra o príncipe e contra os portuenses. Parece que o papa poucas providências deu, porque o bispo ali esteve desterrado, sofrendo grandes privações, em consequência do rei haver mandado confiscar todos os rendimentos da mitra.

Finalmente, a rogos do pontífice, veio o monarca a um acordo com o bispo, que por fim regressou ao reino, assentando-se em que o rei, o prelado e a Câmara nomeassem árbitros para decidirem sobre as suas contendas. Mas a Câmara exigia que das rendas da mitra sequestradas se lhe dessem trezentas vezes mil réis, e dez mil marcos de prata, como indemnização da injúria e dos danos que a cidade tinha sofrido com os interditos; e muito custou a conseguir que o senado desistisse desta sua pretensão.

1345: Funda-se o mosteiro de religiosas dominicas, de Corpus-Christi, em Vila Nova de Gaia.

7 de Janeiro 1355: Quando foi assassinada a infeliz D. Inêz de Castro, o infante D. Pedro, abrasado em desejos de vingança, moveu crua guerra a seu pai, tomando-lhe várias povoações e castelo (tal e qual como o pai havia feito ao avô).

Quis também tomar o Porto, mas os seus habitantes, auxiliados por D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga (o que construiu o cinto de muralhas denominadas vulgarmente suevas) resistiram ás tropas do infante, até serem socorridos pelo exército real.

1359 (era de 1397): D. Pedro 1.º, mandou fazer uma torre no Bicalho, e outra fronteira, ao Sul do Douro, (Gaia) para lançar uma cadeia de ferro de lado a lado, que impedisse a passagem a navios inimigos.

O povo de Gaia recusou fazer a torre no seu distrito, dizendo que a cadeia de nada podia servir, para o que, fizessem a experiência, antes de fazer a torre.

Com esta oposição, e achando-se razão aos de Gaia, não se levou a efeito a projectada obra.

1360: D. Pedro 1.º, deu nesta cidade, onde então se achava, o escândalo de querer açoutar com um azorrague, e por suas próprias mãos, em uma sala do paço real (mais tarde alfândega velha) o bispo do Porto, D. Egidio, por terem dito ao rei, que o prelado tinha amores com uma mulher casada.

1369: D. Fernando 1.º, por três vezes visitou esta cidade, sendo a primeira neste ano; pretendendo aqui celebrar o seu casamento com D. Leonor Teles de Menezes, (mulher de João Lourenço da Cunha, senhor de Pombeiro) mas, vendo o povo do Porto tão mal disposto para este casamento, como estava o de Lisboa, foi casar-se ao mosteiro de Leça do Balio.

A última vez que o rei D. Fernando esteve no Porto, foi em 1372, ano em que nasceu a infanta D. Beatriz, que veio a casar com D. João 1.º de Castela, e foi a causa de Portugal ter de sustentar dez anos de guerra com os castelhanos.

1 de Setembro de 1369: Por então, andava o nosso D. Fernando em luta com Henrique II de Castela, quando este, depois de haver atravessado o rio Minho, conquistou a cidade de Braga e foi cercar Guimarães, neste dia. O nosso monarca, alcançou notícia do sucesso quando se encontrava já em Coimbra. «E mandou logo – conta Fernão Lopes – suas cartas à cidade do Porto, que muito à pressa , fosse feita uma ponte de barcas no rio Douro, porque ele e toda a sua hoste, pudessem passar em um dia, porquanto sua vontade, era em toda guisa ir pelejar com el-rei D. Henrique, e que isso mesmo se fizessem preste os moradores do lugar, para se irem em sua companhia.»

«Os da cidade mui ledos com este recado, foram todos postos em grande trigança, para por isto em obra, uns a chegar barcas, deles a carretar madeira, outros a lançar âncoras e amarrar os cabos, de guisa que muito asinha foi feita uma grande e espaçosa ponte, lastrada de terra e de areia, tal por que folgadamente podiam ir através seis homens a cavalo...»

A ponte chegou a ser utilizada para o fim que impôs a sua construção, pois D. Fernando já estava no Porto, quando lhe chegou a notícia de ter sido levantado o cerco a Guimarães. Mas se tão ledos agiram os moradores do Porto, no cumprimento do recado de el-rei, também não devem ter demorado a desfazer aquela obra que exigia da sua parte tamanho esforço, pois bem depressa a passagem do rio continuou a ser feita nas barcas.

1385: É construído o belo claustro, de arquitectura gótica, da Sé do Porto.

2 de Fevereiro de 1386: Houve no Porto umas bodas reais, com geral regozijo dos seus habitantes, e dos povos circunvizinhos.

Foi nesse dia que D. João 1.º, na igreja da Sé, recebeu por esposa, a D. Filipa d`Alencastre, filha de João de Gand, duque de Alencastre, e filho de Duarte 3.º de Inglaterra.

Recebeu-os, D. João 3.º do nome, 37.º bispo do Porto, depois de obtida a dispensa de votos (do papa Urbano 6.º) porque o rei era professo na ordem militar de S. Bento de Aviz, e seu grão-mestre.

D. João 1.º, tinha 29 anos e D. Filipa 28. O rei saiu montado em um formoso cavalo branco, vestido de rica tela, e a rainha em um bizarro palafrém (cavalo), da mesma cor, e ela esplendidamente vestida, e ambos com coroas de ouro, ricamente esmaltadas de pedras preciosas. D. Lourenço, arcebispo de Braga, levou o palafrém de D. Filipa pela rédea.

Concorreu a estas bodas, toda a nobreza deste país, e muita da Grã-Bretanha, que acompanhava o pai da noiva.

Houve um esplendido banquete, no qual tomaram parte todos os prelados e cavaleiros das duas nações.

O condestável, D. Nuno Alvares Pereira, serviu de mestre sala, pois era tão perito para ordenar os assentos na mesa, como os esquadrões, no campo de batalha.

Por muitos dias se continuaram no Porto, e por todas as terras do reino, luzidas festas, de justas e torneios, e muitas outras demonstrações de alegria.

D. João 1.º, fez logo casa à rainha, e nomeou para seu mordomo-mór ao mestre da ordem de Cristo, D. Lopo de Sousa; para copeiro-mór, Gonçalo Vasques Coutinho; para reposteiro-mór, Fernão Lopes d`Abreu, nomeando outros muitos cavaleiros e senhoras da primeira nobreza, para o serviço da casa da rainha, à qual nomeou logo regente do reino, em quanto ele marchava com seu sogro para Castela.

O duque de Alencastre, teve de sua primeira mulher só duas filhas, D. Catarina e a nossa rainha D. Filipa. Ficando viuvo, passou a segundas núpcias, com D. Constança, filha primogénita de D. Pedro 1.º (o cruel) de Castela, e herdeira legítima do trono, por não haver filho varão.

João de Gand, pretendeu, pelo seu casamento, a coroa de Castela. Aliou-se com o genro, trazendo a Portugal uma esquadra e tropas inglesas, ás quais se juntaram as disponíveis de Portugal; porém, a maior parte dos castelhanos e leoneses, uniram-se a D. Henrique 2.º (irmão e assassino de D. Pedro 1.º, de Castela) e o duque d`Alencastre não conseguiu fazer-se aclamar rei.

D. Filipa, nasceu em 1359, e faleceu de peste, em Sacavém, a 18 de Julho de 1415.

D. João 1.º e sua mulher, residiram por muito tempo no Porto, e então mandou aqui construir vários edifícios, e fazer grandes melhoramentos, entre eles, a rua de S. João, e a rua dos Ingleses, cujo primeiro nome foi Rua Nova de S. Nicolau.

7 de Julho de 1386: D. João 1.º deu à cidade do Porto o julgado de Bouças, tirando-o a Fernando Afonso d`Aborim, a quem o rei D. Fernando o havia dado.

Depois, o mesmo D. João 1.º o deu ao condestável, D. Nuno Alvares Pereira; mas a cidade do Porto opôs-se a esta doação, e o condestável cedeu-lhe o senhorio.

1390: Por este tempo, a cidade do Porto tinha apenas três freguesias – Sé, S. Nicolau e Vitória.

Neste mesmo ano, D. João 1.º dispensou com os clérigos casados, para poderem ser metidos nos pelouros de juizes e vereadores do Porto.

Clérigos casados, não quer dizer que nesse tempo casassem os padres: casavam só os ordenados, antes de terem ordens sacras – é destes que trata a dispensa.

Casando antes de terem ordens sacras, continuavam a ser admitidos ao serviço da igreja, com as suas vestes clericais; mas perdiam muitíssimos privilégios, que lhes dava o estado de solteiros.

No tempo de D. Afonso IV, os clérigos minoristas casavam clandestinamente: depois, se queriam tomar ordens sacras, negavam o casamento contraído sem testemunhas.

Foi neste ano de 1390, que do Porto embarcaram para a Grã-Bretanha os famosos doze de Inglaterra.

Aquela famosa expedição dos doze cavaleiros, que foram a Londres combater em duelo, em desafronta da honra das damas inglesas, com outros tantos cavaleiros da mesma nação. Saiu da barra do Douro: eram naturais de Ceia alguns desses celebrados cavaleiros; os mais eram de Linhares, Gouveia, Trancoso, Melo, e Pinhel.

Em público palanque, em Londres, estando presente toda a corte, os mais nobres lordes do reino e grande multidão de povo, venceram os NOSSOS DOZE CAVALEIROS BEIRÕES, morrendo alguns destes na liça, ficando o resto feridos, e os nossos bravos vitoriosos e grandemente estimados pela corte e muito mais ainda pelas damas, que foram defender a rogos de João Gand, duque de Alencastre e sogro de El-rei D. João I. As damas, que eram também doze, haviam sido motejadas de feias por alguns senhores daquele país.

Foi por este tempo que o rei ordenou aos seus criados, que, vindo ao Porto, não pousassem na Rua das Eiras, (Rua das Eiras, ou Chan das Eiras, é a actual rua chã) nem na dos Mercadores, nem em casa de homens honrados, nem de mulheres viuvas, nem de casadas, que tivessem os maridos ausentes. – Nesses tempos, homem fora... mulher solta...

19 de Janeiro de 1391: O velho burgo cintado pela muralha sueva veio a transformar-se, com o decorrer dos tempos, numa povoação buliçosa, alacre, de ruas atulhadas de mercadores e artífices. Desceu e subiu encostas e alcandorou-se nos outeiros do arrabalde, a tal ponto que a área povoada de extra-muros era superior, nos meados deste século, àquela que a primitiva cintura delimitava. O facto veio a justificar, até, a construção duma nova muralha de amplo circuito, que ficou concluída no reinado de D. Fernando.

Como é natural, intensificou-se também o movimento do rio, quer por serem já em número elevado as embarcações que o demandavam ou dele partiam, de porões cheios, quer por ter subido o número de barcos utilizados na sua passagem, pois assim o exigiam as relações mantidas com o Sul do país. Os barqueiros cuidaram então dos seus interesses, aproveitando a maré propícia. E vieram, de caminho, os desmandos, a que foi preciso por cobro.

Foram tais desmandos a causa próxima dum agravo levado à Câmara pelos lesados. O senado deliberou sobre o caso, na vereação deste dia 19 de Janeiro, tendo ordenado um Regimento que mereceu a aprovação de João Alpoim, juiz por el-rei, e que estabelecia os seguintes preços de passagem:

«Da carga rocinal e asnal, com seu dono, com a carga e besta, 4 soldos.

Do homem e da mulher e do moço, 1 soldo.»

4 de Março de 1394: Nasce nesta cidade, o famoso Infante D. Henrique, 3.º filho de D. João I.

Nasceu no palácio real, da Rua Nova de S. Nicolau, depois alfândega velha.

É à iniciativa deste príncipe portuense que devemos as grandes descobertas feitas pelos navegadores portugueses, no século XV e seguintes.

1404: Neste ano é mudado o mosteiro de S. Francisco, para o sitio onde existiu até 1834. Foi esta mudança feita por ordem de D. João I.

Tinha sido primeiramente fundado, em 1233, fora dos muros da cidade.

A igreja luxuosamente restaurada, desde 1840, e o edifício do mosteiro foi transformado em palácio da Bolsa e tribunal do comércio.

1406: Construi-se no Porto uma casa da Câmara, de madeira. Custou 220.000 dobras de peça de pano.

14 de Agosto de 1415: D. João I, com seus três filhos – D. Duarte, que lhe sucedeu no trono – D. Pedro, duque de Coimbra (o de Alfarrobeira), e D. Henrique, duque de Viseu, (o de Sagres) e com um luzido exército, e uma grande armada, atravessa o Atlântico, e passando à África, conquista a cidade de Ceuta. – Desde então, tomou o titulo de rei de Portugal e dos Algarves, e senhor de Ceuta.

O Porto concorreu para esta gloriosa empresa, com muitos navios, tropas e munições, tudo fornecido generosa e patrioticamente pelos portuenses

Esta armada saiu do Porto para Lisboa, sob as ordens do infante D. Henrique.

Os habitantes do Porto, para que a armada fosse abundantemente provida de viveres de boa qualidade, mandaram para bordo toda a carne escolhida, reservando para se sustentarem, somente as entranhas, cabeças e miúdos das reses.

FOI DESTA CIRCUNSTÂNCIA QUE AOS PORTUENSES SE POS A ALCUNHA DE TRIPEIROS

Poucos terão como origem tão patriótica e gloriosa; a alcunha de TRIPEIROS.

MATADOURO DO PORTO

Nesse tempo, era o matadouro no sitio chamado, largo do Açougue Real, próximo e ao Oeste-Norte-Oeste da Sé.

Depois, mudou-se para as Fontaínhas, onde se construiu um edifício próprio, que, em 1873, foi ampliado, fazendo-se de dois pavimentos, sendo depois este edifício o asilo da Mendicidade.

As fressureiras estabeleceram-se em um local que ficava entre o matadouro das Fontaínhas e a porta do Carvalho, e que se chamou Viela das Tripas.

D. Francisco d`Almada melhorou bastante esta viela, impondo-lhe o nome de Rua do Sol; mas custou muito a perder a antiga denominação, e ainda em 1832, muita gente do Porto ignorava onde era a rua do Sol, por quase todos lhe chamarem viela das tripas.

1415: Foi no Porto, que se lavraram as primeiras moedas de 10 réis, que houve neste país.

CONVENTO DE SANTA CLARA

1416: D. João I, e sua mulher, a rainha D. Filipa, fundam o mosteiro de religiosas franciscanas, da invocação de Santa Clara, junto ás muralhas novas (de D. Fernando) no sitio chamado Carvalhos do Monte, e próximo ao postigo do Carvalho (ou dos Carvalhos).

Este convento chegou a Ter 12 contos de réis de renda anual; e, em 1789, tinha 99 freiras professa, e, ao todo, 300 moradores.

O mosteiro era nos seus princípios muito menos rico; porém, no decurso dos séculos XV e XVI, foram suprimidos muitos pequenos mosteiros de religiosas franciscanas, que havia por estes sítios, indo as freiras para o mosteiro de Santa Clara, do Porto, com todas as suas rendas e propriedades, o que muito aumentou as rendas do convento.

Entre os mosteiros então anexados a este de Santa Clara se contam: os de Espiunca, Mosteiro e Mosteirô (Canedo), Sardoura (Paiva) e outros mais.

Note-se que o mosteiro de Santa Clara, do Torrão, sobre a margem esquerda do Tâmega, na sua configuração com o Douro (margem direita) e que foi fundado em 1246, deve ser considerado como o primitivo convento de Santa Clara do Porto; porque D. João I e sua mulher, o mudaram para esta cidade, sendo para ali transferidas as religiosas no referido ano de 1416, com todas as suas propriedade e rendas, que ficaram pertencendo ao novo mosteiro.

O mosteiro de freiras franciscanas de Santa Clara do Torrão, foi fundado em 1264, por D. Chama Gomes, viuva de D. Rodrigo Frosio, da cidade do Porto.

As freiras de Santa Clara, do Porto, até 1500, recebiam Portagem das mercadorias que passavam pelo rio Douro. Neste ano, foi-lhes caçado o direito, e em 1504, tornaram a recupera-lo, mas só pelo que dizia respeito ás mercadorias de Entre-Ambos os Rios (Torrão) por ser couto do mosteiro.

10 de Setembro de 1417: O sino relógio da cidade, estava antigamente na porta do Olival. D. João I, nesta data, o mandou por na torre da Sé, para relógio, ficando a Câmara, o bispo e o cabido obrigados a pagarem, cada um, a terça parte das despesas. O bispo e o cabido, recusaram-se a pagar, por alguns anos, pelo que, durante este tempo, não tangeu o relógio.

O rei mandou que os dois terços se pagassem da dizima que o bispo e o cabido tinham na alfândega.

MOSTEIRO DOS LÓIOS

1425: Funda-se o mosteiro de cónegos seculares, de S. João Evangelista (Lóios) em Campanhã.

A igreja matriz da freguesia era a do mosteiro. Junto a ela havia uma albergaria, que se transformou em mosteiro, sustentado pelo bispo do Porto, D. Vasco; mas, sendo este nomeado arcebispo de Évora, ficaram os religiosos sem amparo, pelo que se recolheram ao convento de Vila de Frades (os bons homens de Vilar).

O bispo do Porto, D. João d`Azevedo, lhe fez novo mosteiro, encostado aos muros da cidade (pela parte de dentro) em um sitio então chamado Fonte da Arca, no ano de 1490, mandando-os vir de Vilar.

Neste sitio de Vilar havia uma capela de Nossa Senhora da Conceição, que era de Violante Afonso, viuva, e que a deu ao bispo com o chão adjacente, para a capela servir de igreja do novo mosteiro, e o chão, para se construir este. Na ermida disse missa D. João de Azevedo, em 6 de Novembro do dito ano de 1490, dia em que ele lançou a primeira pedra no fundamento do edifício. Era dia de S. Leonardo, eremita, cuja imagem se venerava na mesma ermida.

Concedeu o bispo, in perpetuum, 40 dias de indulgências e perdão, a todas as pessoas que visitassem a Senhora da Conceição, em todos os Sábados do ano, e mandou que o novo mosteiro tomasse a invocação da mesma Senhora.

Anexou ao mosteiro nove igrejas, para que dos frutos delas se sustentassem os religiosos; o que foi confirmado pelo papa Leão X.

A festa da padroeira, era a 18 de Dezembro, dia da Expectação do parto da Santíssima Virgem.

Teve uma rica irmandade, que consta ser a primeira que se instituiu nesta cidade.

Chegou a ser o convento de frades mais rico do Porto, tendo uma renda superior a 20.000 cruzados (8 contos de réis).

A igreja foi arrasada depois de 1834, e o seu chão, e o edifício do mosteiro, vendidos.

Tudo isto formava uma vasta e rica propriedade da Sra. Viuva Cardoso, e era a casa de maior rendimento que teve a cidade do Porto.

A frente Norte era para a praça Nova, e confronta pelo Oeste com o Largo dos Lóios, e do Este com o Largo de S. Bento (antiga Porta da rua de Carros).

BISPO D. ANTÃO

18 de Dezembro de 1439: O Pontífice, Eugênio IV, cria cardeal de São Crisogono, ao bispo do Porto, D. Antão Martins Chaves, natural desta cidade. Tinha sido deão em Évora.

Foi um varão doutíssimo e magnânimo, prudente e de grande energia.

O rei D. Duarte o mandou ao Concílio de Basileia (ou Florentino) convocado no dito ano de 1439, pelo referido papa Eugênio IV, e ao qual assistiu o imperador João Paleologo.

Tinha este concílio por objecto, a união das igrejas latina e grega.

Na companhia de D. Antão, foi o conde de Ourem, D. Afonso, sobrinho do rei.

Ambos estes portugueses se distinguiram em Itália – o bispo, pela vastidão dos seus conhecimentos, e o conde pela magnificência real com que se apresentou.

Este concílio teve principio em Basileia, e o papa rogou a D. Antão que fosse a Constantinopla pedir ao imperador que viesse a Itália, o que o nosso bispo conseguiu.

Então o concílio foi transferido para Florença, e ali se efectuou a união (por poucos anos) das duas igrejas, latina e grega.

Achando-se o hospital de Santo António dos portugueses, em Roma, em grande estado de ruína, D. Antão o reedificou desde os fundamentos, ampliando-o, de modo a ficar em estado de receber todos os doentes e peregrinos de Portugal que a ele se quisessem recolher.

Mandou riquíssimas alfaias à sua igreja do Porto. Deixou o castelo e terras de Trigonia (Itália) à Basílica lateranense, depois de Ter gastado na restauração e adornos do castelo, mais de 200.000 cruzados (80.000$000 réis).

Faleceu em 11 de Julho de 1447, cheio de anos e virtudes.

Jaze em um sumptuoso mausoléu, por ele mesmo mandado construir, pouco tempo antes da sua morte, na mesma basílica de S. João de Latrão, na nave Epístola.

SÃO PANTALEÃO

8 de Agosto de 1453: Chega a esta cidade do Porto, o corpo de S. Pantaleão.

Tinha sido médico, e foi martirizado na cidade de Nicomedia, sendo imperadores, Diocleciano e Maximiano, pelos anos de 320.

O corpo do Santo foi levado a Constantinopla, onde esteve muitos anos, tido em grande veneração; até que, sendo esta cidade tomada por Mahomet, imperador dos turcos, alguns cristãos arménios, meteram o cadáver em uma pequena embarcação, onde também se embarcaram; e, atravessando o mar do Levante e o Mediterrâneo, passaram o estreito de Gibraltar, e vieram aportar a esta cidade do Porto, impelidos pelos ventos e pelas correntes.

Foram as santas relíquias depositadas na antiga igreja de S. Pedro de Miragaia, onde estiveram, até serem trasladadas para a Sé, e a cidade do Porto elegeu S. Pantaleão por seu padroeiro, por ocasião de uma peste que assolou a cidade. (Até então, e desde o tempo do bispo D. Nonego, 1012, o padroeiro da cidade do Porto foi S. Vicente mártir).

Teve lugar esta trasladação, em 12 de Novembro (ou Dezembro) de 1453, por ordem do bispo, D. Diogo de Sousa.

Ficou, porém, na igreja de Miragaia um braço do mesmo santo.

1481: Havia barcas no rio Douro utilizadas pelo comum dos mortais, outras havia, pertencentes ás dignidades da terra ou destinadas a fins especiais. Quanto ás primeiras, os cronistas do passado, legaram-nos curiosas notícias em que se fala dos bergantins que sulcavam o rio Douro, nas horas festivas. A outro fim se destinavam as segundas, contando-se entre elas as barcas das visitas de saúde, que levavam os guarda-mór a bordo dos navios vindos da terra estranha. Uma dessas barcas prestou bons serviços pelos fins de quatrocentos, como passo a contar:

A calamidade da peste alastrava do Sul para Norte, cobrindo todo o reino.

Sucederam-se as costumadas medidas de defesa; enquanto se erguia, à roda do burgo, a cintura sanitária, os principais da terra buscaram no termo da cidade o refúgio apetecido. Neste ano de 1481, a vereação reúne em Azurara, e neste mesmo ano não foi possível celebrar as exéquias devidas pela morte de D. Afonso V, pois o bispo e o cabido haviam partido com os cidadãos.

14 de Janeiro de 1486: Localiza-se na rua do Olival, o primeiro foco pestífero, por acórdão da Câmara Municipal é mandada entaipar, pelo que passou a ser denominada a rua das Taipas, numa pública consagração de tão prestes e louvável diligência. Mas as Taipas, deixaram o mal extravasar por todo o burgo: foram criados, para o debelar, dois hospitais destinados aos empestados, um na Torre de Pedro Sem e outro em Vila Nova, no Senhor de Além, lugar então chamado de S. Nicolainho. Os enfermos eram conduzidos até lá numa barca de que era arrais um certo Pêro Vaz, auferindo este, o salário mensal de 400 réis.

 

20 de Agosto de 1488: é desta data o documento mais antigo que existe com respeito ao recolhimento das velhas da Cordoaria.

Sabe-se, porém, que foi originariamente na rua dos mercadores; depois, em 1790, mudou-se para um barracão de madeira, na extremidade ocidental da cerca do hospital de Santo António (Misericórdia).

O rei D. Manuel, por alvará de 18 de Maio de 1521, tinha mandado que este estabelecimento de caridade fosse administrado pela Misericórdia.

Em 1855, foram as velhas deste recolhimento mudadas para o novo edifício construído na rua das Fontaínhas (antiga rua do Regato). Este edifício foi também hospital dos lázaros, lázaras, e de entrevados, embora separados uns dos outros.

1498: Deste ano é o documento mais antigo que se encontra no cartório da Misericórdia do Porto, com respeito ao hospital das entrevadas, das Fontaínhas. Este documento, é um alvará do rei D. Manuel, incumbindo a Santa Casa, da administração deste hospital.

1499: A rainha D. Leonor, viuva de D. João II, e irmã do rei D. Manuel (a fundadora do hospital das Caldas da Rainha) instituiu a irmandade da Misericórdia, na capela de Nossa Senhora da Encarnação, no claustro da Sé.(À direita da capela de Atães, está uma porta, que conduz à capela de Senhora da Encarnação).

Conservou-se a irmandade nesta capela, até ao ano de 1555, em que se mudou para a rua das Flores (actual igreja da Misericórdia).

15 de Abril de 1499: Esteve a cargo da Misericórdia, à semelhança do que sucedia em Lisboa, a limpeza da cadeia, como melhor se verá do seguinte alvará régio:

« Governador amigo. Aos mordomos da confraria da Misericórdia desta cidade, temos dado cuidado da limpeza, e fazerem estar limpa a cadeia d`esta cidade, por sermos certo, que da sujidade d`ela se causa sua doença, notificasmos-vo-lo assim, para n`aquelas horas que forem onestas os mandardes entrar para isso: e cumprir assim: feito em Lisboa a quinze de abril.

« António Carneiro o fez anno de quatrocentos noventa e nove. Rey

1501: Funda-se por carta régia de D. Manuel I, de 1499, o hospital da Misericórdia do Porto, sobre as ruínas de uma antiga albergaria, denominada de Roque Amador (vulgo, Reclamador) na rua dos Caldeireiros. Deu-se a este estabelecimento a denominação de hospital de D. Lopo.

1510: Neste ano houve uma demanda entre a cidade e Fernão Brandão, sobre a Portagem de Avintes. Desistiu Brandão, dando-lhe a câmara um terreno para casas e quintal, junto à rua de S. Miguel, e postigo pegado ao muro.

14 de Agosto de 1510: Posto que não fossem destinadas à passagem do rio, tão bem merecem pública lembrança, em homenagem ao seu inventor, certas barcas que a Câmara autorizou que fossem fixadas no meio do rio Douro, acima da casa do Laranjo. A resolução consta do acordo da vereação deste dia 14 de Agosto, e serviu de galardão a Rodrigo Pereira, mestre de obras, que bem merecia tamanha mercê: inventou ele umas moagens em barcas, o que era coisa nova e proveitosa e de grande enobrecimento para a cidade do Porto, no dizer dos senhores do Senado. Bem haja o habilidoso mestre de obras, pois, ao que se vê, grandes serviços prestou à terra, com seu engenho!

1513: D. João I tinha permitido aos moradores desta cidade, no ano de 1416, que nela podiam trazer porcos: mas D. Manuel I, neste ano de 1513, anulou esse direito, impondo a multa de 500 réis, por cabeça, aos donos dos porcos encontrados na rua.

1515: Como os tanoeiros do Porto, fogueando nas ruas da Ourivesaria e Banhos, prejudicassem os vizinhos, e fossem por isso multados, conseguiram que a cidade lhes desse, neste ano, o terreno do Postigo de João Pais, que dava para o Muro, contra a rua da Ourivesaria, e ficaram foreiros à cidade.

1 de Janeiro de 1518: Por uma provisão de el-rei D. Manuel I, foi mandada criar, nesta cidade a casa chamada dos Vinte e Quatro exactamente semelhante à que existia em Lisboa.

Era composta por vinte e quatro membros eleitos pelas classes trabalhadoras e pelo juiz do povo, que o representava e por ele pugnava nas resoluções do senado da câmara.

A casa onde efectuaram as suas reuniões estava situada junto do arco de S. Sebastião, que foi outrora uma das portas da cidade do Porto.

1518: Nasce nesta cidade o venerável padre Agostinho da Trindade, cónego da Sagrada Congregação de S. João Evangelista, (Lóios). Foi varão de grande santidade, pelo que era respeitado e estimado dos maiores príncipes e senhores do seu tempo.

D. João III, e o cardeal D. Henrique, o procuravam muitas vezes, para com ele tomarem conselho. Em certa ocasião o encontrou o rei, acarretando pedra para a fábrica da nova igreja de S. João de Xabregas (o beato). D. João III, disse -- «ajudemos este bom velho»- e o ajudou a levar a padiola das pedras.

Foi confessor do padre António da Conceição (o Beato António).

Compôs um excelente Cerimonial, de que a sua congregação usou muitos anos.

Faleceu a 25 de Maio de 1603, com 85 anos de idade, e foi sepultado no convento do Beato.

Neste ano de 1518: O rei D. Manuel dá princípio à fundação do mosteiro de S. Bento da Ave Maria – de religiosas beneditinas – encostado ás muralhas da cidade, pela parte interior, e à porta de Carros.

D. João III, filho de D. Manuel, conclui a obra do mosteiro, em 1528.

Para este mosteiro vieram as freiras agostinhas, de Rio Tinto com todas as suas rendas, em 1535, mudando então para a regra de S. Bento.

No mesmo ano vieram para este mosteiro as freiras de Tuias (Canavezes) Vila Cova e Tarouquela.

Esta igreja foi incendiada em 1783, e logo reedificada. A arquitectura manuelina primitiva, era de muito maior sumptuosidade do que a última; o exterior era de péssimo gosto, por ser uma mistura da antiga e nova arquitectura.

Para este mosteiro vieram as freiras franciscanas de Monchique – desta cidade – em 1833, quando o governo liberal as mandou despejar o seu mosteiro, para o converter em arrecadação do material de guerra.

Tinha este convento, até 1834, 12 contos de réis de renda anual.

FERNANDO DE MAGALHÃES

27 de Abril de 1521: Morre o famoso Fernando de Magalhães.

Para alguns terá nascido no Porto.

Foi criado da rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e depois, do rei D. Manuel, irmão da mesma senhora.

Em 1504 foi para a Índia, com o seu primeiro vice-rei, D. Francisco de Almeida e ali deu provas de grande valor; assim como na África, onde também se distinguiu em muitos combates contra os mouros e turcos.

Requereu ao rei D. Manuel um pequeno aumento na sua moradia, e como lhe fosse recusado, deixou, deixou Portugal e se pôs ao serviço de Castela.

Quando para ali foi, já ia persuadido de que o plano de Cristóvão Colombo, de buscar pelo lado ocidental um caminho para o Oriente, se podia realizar, navegando mais ao Sul; conseguindo-se assim a posse das ilhas Molucas.

Ofereceu-se Magalhães, a Carlos V, para levar a efeito esta empresa; e o imperador aceitou este oferecimento, e lhe deu uma esquadrilha, com a qual o nosso português foi, em 10 de Agosto de 1519, ousadamente, em demanda de mares desconhecidos.

Rodeando os mares da América meridional, entre a Patagónia e a Terra do Fogo (A Terra do Fogo, é uma ilha, e a extremidade meridional da América, cuja ponta forma o Cabo de Horn, no Oceano Atlântico) descobriu o canal que comunica o Atlântico com o Mar Pacífico, ou Grande Oceano Austral, e por isso, ao mesmo canal se deu o nome, que ainda se conserva, e que todos os geógrafos lhe dão, de Estreito de Magalhães.

Dali vogou para as Molucas; mas foi morto em combate contra os habitantes das ilhas Filipinas, neste dia 27 de Abril.

Foi Sebastião del Cano que aportou ás Molucas, regressando à Espanha pelo Oriente (Oceânia) concluindo assim uma viagem de circum-navegação em volta do mundo.

1523: Nasce nesta cidade, frei António de Madureira, religioso da ordem dos pregadores. Foi prior do convento de S. Domingos, de Lisboa, e de outros da mesma ordem. Foi um varão de muito saber e virtudes. Morreu em 24 de Maio de 1638, com 115 anos de idade. Foi sepultado no mosteiro de S. Domingos de Lisboa, onde faleceu.

1530: D. João III manda construir a Torre da Marca, no sitio onde hoje se encontra o Palácio de Cristal. Foi demolida pelas balas de artilharia, do exército realista, durante o cerco do Porto (1832 a 1834) por haver aqui uma bateria liberal.

Havia neste sitio um grande pinheiro, que servia de marca para guiar os navegantes, na entrada da barra do Douro. Alguém mal intencionado, descascou, de noite, este pinheiro, que, por isso, secou; e desde então até se construir a torre que o substituiu, perderam-se muitos navios pela falta desta marca.

Em 1534, se tirou devassa, para se averiguar quem foi o descascador do pinheiro e o fez secar; mas não se pode saber.

Neste ano de 1530: se publicou uma provisão de D. João 3.º, segundo a qual, o que pescasse no lago da foz,(Cabedelo) à boca da barra, tinha um ano de degredo e perdimento de barco e redes.

1534: Por este tempo, as estalagens do Porto estavam quase todas arruadas no largo de Nossa Senhora da Batalha, e pertenciam todas a Gaspar Coutinho, que as herdara de seus pais, e as transmitiu aos seus descendentes.

1536: Deu D. João 3.º o cargo de provedor sobre as naus do Porto, a João Rodrigues de Sá, e mandou à cidade que lhe obedece-se. O Porto não obedeceu, alegando que os seus privilégios eram ofendidos. O rei, reconsiderou, e mandou-lhos guardar.

12 de Dezembro de 1539: El-rei ordena que seja atravessado o rio, de lés-a-lés, por uma forte corrente, amarrada a duas torres construídas nas margens do rio Douro. Ao que nos diz uma curiosa Sentença deste dia 12 de Dezembro, destinava-se tal corrente à defensão do Porto e Vila Nova, impedindo os navios de se aproximarem das duas povoações. Por isso, foram lança-la defronte do lugar que chamam Arrábida, como o documento precisa. E não deve ter sido essa, de resto, a primeira corrente que atravessou o rio, porque uma inscrição que existiu no postigo do Carvão, elucida-nos que em 1348 foram mandados Vedores a ver as âncoras a Gaia, para por uma cadeia e amarração.

1540: Funda-se o mosteiro da Serra do Pilar, de cónegos regulares de Santo Agostinho (cruzios). A igreja ainda está bem conservada; o edifício do mosteiro, foi muito arruinado durante o cerco do Porto (1832 a 1834) pelas balas do exército realista.

5 de Janeiro de 1542: O convento de S. Francisco faz doação a Manuel Cirne de um pedaço de terreno em que tinha existido a capela dos homiziados e que estava deserto o sítio na adro por detrás da capela do Sacramento.

1545: Pedro da Cunha Coutinho e sua mulher, D. Brites de Vilhena, fundam o convento de Monchique, de freiras franciscanas.

1546: Determinou-se neste ano, que no Porto houvesse um mestre de gramática, pago pela imposição do sal, com o ordenado de 10$000 réis anuais. O primeiro mestre foi Marcial de Gouveia.

21 de Janeiro de 1548: Quem quer pode supor que em tempos recuados, os acórdãos do município, nem sempre seriam respeitados por aqueles a quem diziam respeito. A dedução é fácil, se atendermos ao que se verifica hoje em dia. E não vá imaginar-se que ela é infundada: assim o demonstram os documentos, que, além de informarem com segurança a reconstituição dum sucesso, exibem também perante nós, uma vez ou outra, pequenos quadros animados da vida da época.

Estas considerações, surgem a propósito do assento da vereação deste dia 21 de Janeiro. De princípio, à nele uma breve exposição de certos abusos que eram contrários aos costumes antigos, e acórdãos que regulavam a passagem do rio Douro: os barqueiros desconheciam ou fingiam desconhecer semelhantes disposições...

Depois, o escrivão do auto dá conta do que era passado com os escravos e mulheres que andavam ao serviço dos barcos de passagem. Do trabalho dos primeiros, diz o assento «seguia-se muito prejuízo e nojo ás pessoas que passeavam nos barcos: os cativos podiam insulta-las sem receio duma pronta resposta traduzida no devido correctivo, pois a tal se opunha a sua condição.» Quanto ás mulheres, o auto diz apenas que elas eram fracas e que resultava desonesto o exercício de tal mester... Por serviço de Deus e bom aviamento dos que passassem o rio, tiveram os barqueiros que acordar em não mais trazerem ao seu serviço escravos cativos ou mulheres, salvo no caso de eles próprios servirem de arrais.

Disposições posteriores continuaram a regular a passagem, dando contada oscilação dos preços e dos abusos que suscitavam reclamações da parte do povo. A Câmara atendia a uns e outros com a maior solicitude, ora fixando novas tabelas, ora determinando que os barqueiros não podiam estipular "vez" para a passagem, em obediência a favoritismos; deferindo hoje um requerimento do procurador da cidade em quem eram apontados certos abusos dos donos dos barcos, para obrigar amanhã os barqueiros a assinarem um termo de responsabilidade.

15 de Janeiro de 1549: As cortes de Torres Vedras, concedem ao Porto um tribunal da casa do cível.

1555: Funda-se a igreja da Misericórdia, na rua das Flores. É templo de modestas proporções, posto que muito decente. Tinha lausprene ás terças, quintas e sextas feiras.

29 de Janeiro de 1558: É desta data o mais antigo documento que se encontra, com respeito ao hospital de lázaros e lázaras das Fontaínhas. Este documento é uma justificação de certas relíquias, enviadas a Joana Serrão, pela rainha da Boémia.

Joana Serrão, era mulher de João Domingues, cavalariço dos infantes de Castela.

Para a capela que João Domingues edificava neste hospital, é que aquela rainha mandou as relíquias.

Vê-se pois, que este hospital já existia; mas ignora-se a época da sua fundação primitiva. O novo foi construído em 1850. (Vide os anos de 1488 e 1498)

1560: O cardeal D. Henrique (depois rei) o bispo do Porto, D. Rodrigo Pinheiro e outros, fundam, na Ribeira, um colégio para os padres da Companhia de Jesus.

D. Luís Alvares de Távora, bailio de Leça, o mudou em 1577 para a rua das Aldas – depois chamada largo do Colégio – dando para esta obra, 30.000 cruzados (12 contos de réis). Foi sepultado na capela-mor da igreja.

Suprimida a ordem dos jesuítas (1759) passou a igreja, o mosteiro e todas as suas rendas, a serem propriedade da Universidade de Coimbra, que vendeu a igreja e o mosteiro, aos frades Grilos (gracianos) em 1780. Foi depois, seminário diocesano.

12 de Outubro de 1569: Faleceu na freguesia da Amora e foi sepultado na capela-mor da igreja matriz, D. Belchior Beliago, natural do Porto.

Estudou na universidade de Paris; leu na de Coimbra, humanidades, teologia e filosofia, com geral aplauso de todos os sábios do seu tempo. Foi cónego da Sé de Lisboa, e bispo titular de Fez (África) para fazer os pontificais na igreja catedral.

1569: Funda-se o mosteiro de Vale da Piedade, de religiosos franciscanos (antoninhos) da província da Soledade, ou reformados menores de S. Francisco.

Ao lugar onde se fundou este mosteiro (em frente de Miragaia, na margem esquerda do Douro) se chamava até então Vale de Amores. Deu-se-lhe este nome, porque sendo um matagal, com árvores silvestres, era o alcoice (local de prostituição) dos moradores do Porto e Gaia. Os frades é que lhe mudaram o nome para o de Vale da Piedade.

Foi incendiado pelos liberais, em 14 de Dezembro de 1832, ficando a igreja completamente destruída, apesar de todos os esforços empregados pelos realistas, para apagar o fogo. Apenas poderam salvar o Santíssimo Sacramento e algumas imagens.

Foi vendido, depois de 1834, ao Sr. António José de Castro Silva, dando-se-lhe o titulo de Barão de Vale de Amores. O Sr. Castro Silva não aceitou este titulo, em razão das recordações que sugeria; mas aceitou o titulo de visconde de Vale da Piedade, em 11 de Setembro de 1855.

1570: O rei D. Sebastião, mandou distribuir armas, do seu armazém, a todos os moradores do Porto, que as não tivessem; mas sendo eles obrigados a paga-las.

1571: O rei D. Sebastião, deu ordem para que os habitantes do Porto, se exercitassem todos no jogo das armas, aos domingos e dias santificados.

10 de Agosto de 1572: Morre D. Rodrigo Pinheiro, bispo do Funchal, e depois do Porto. Foi eminente nas letras humanas, e na filosofia e direito civil e canónico, recebendo em ambos o grau de doutor.

Falava e escrevia a língua latina, com singular elegância e propriedade.

Foi este prelado que fez a Quinta de Santa Cruz, a 9 quilómetros ao Norte do Porto, (freguesia chamada de Santa Cruz do Bispo) o sumptuoso palácio e ermidas que a enobrecem, e as muitas fontes que a regam, abundantes de excelente água. Tinha frondoso arvoredo, e eram admiráveis os seus buxos, pela grossura a que atingiam.

Foi no tempo deste prelado que os jesuítas se estabeleceram no Porto. D. Rodrigo Pinheiro tratou com a maior veneração a S. Francisco Borja, que os acompanhava.

Também este bispo fez grandes obras na Sé Catedral, e foi grande protector dos que se distinguiam pelo seu saber e virtudes.

1575: Neste ano, o rei D. Sebastião concedeu à cidade do Porto, que poderia dar o ordenado de vinte cruzados (8$000 réis) anuais, ao físico, Lopo Dias.

1577: Muda-se para o seminário o colégio dos jesuítas, pela razão seguinte:

Tornou a esta cidade, pela terceira vez, S. Francisco de Borja, sendo então comissário geral da Companhia de Jesus, em toda a Espanha. Hospedou-se no hospital da Misericórdia, onde o bispo D. Rodrigo Pinheiro, e as principais pessoas da cidade, o foram visitar, pedindo-lhe dois ou três padres da sua ordem, para confessarem e pregarem, ao que o santo facilmente acedeu; sob a condição de darem a estes padres uma pequena casa com igreja ou ermida, em que eles administrassem os sacramentos da confissão e comunhão, o que, pelos cidadãos, foi concedido com a mesma facilidade; porém, depois se arrependeram, com o fundamento de que tal pequena casa podia passar a um grande colégio, com classes de estudos, aos quais concorreriam muitas pessoas de fora da cidade, e ficaria esta oprimida com tantos hospedes.

Tendo notícia disto, Henrique Nunes de Gouveia, cidadão de grande autoridade, e grande amigo dos jesuítas, largou a casa em que morava, deixando nela levantado um altar, com o necessário para se dizer missa. Avisou a S. Francisco de Borja, que podia vir para esta casa, pois tinha a igreja feita e aposentos preparados.

O santo e os seus companheiros se introduziram de noite nesta casa, e logo na manhã do dia seguinte, dedicado a S. Lourenço (10 de Agosto de 1560 – pelo que tomou a sua invocação) disse missa o Santo, e colocou o Santíssimo Sacramento em um pequeno sacrário.

Deste modo, ficou a posse tomada, e se conservou, apesar das muitas dificuldades e diligências que se fizeram para que ela se perdesse.

Assim começou a fundação do colégio da Companhia de Jesus, nesta cidade, que neste ano de 1577 se mudou para as Aldas. (Vide o ano de 1560)

27 de Setembro de 1580: A morte do cardeal D. Henrique deixou o país, como é sabido, na maior confusão e incerteza, e dividindo os portugueses em opiniões encontradas e opostos interesses, acerca da sucessão ao trono. Entre os diversos pretendentes ao trono foi D. António, prior do Crato e filho bastardo do infante D. Luís, o primeiro que se fez aclamar. Exaltado em Santarém, recebido em Lisboa como rei, desbaratado com a sua tropa na ponte de Alcântara, pelo exército do duque de Alba, fugindo para Coimbra e ali reforçado com gente, que se lhe agregou. D. António, prior do Crato, chega a Vila Nova de Gaia, neste dia 27 à frente de uns 4.000 homens. Intimou a cidade do Porto a se render – A cidade do Porto estava já, pelo lado do usurpador, Filipe 2.º de Castela – mas não anuindo, foi atacada e tomada, com pouca resistência, pelas tropas nacionais ( esta é uma nódoa negra na história da cidade do Porto)

O general castelhano, D. Sancho de Ávila, perseguia de perto os portugueses, com tropas disciplinadas e afeitas ás guerras de Flandres e Catalunha, e além disso, muito superior em número, pelo que D. António teve de abandonar o Porto, poucos dias depois de ali ter entrado, fugindo para o Minho, e de lá para a França.

4 de Fevereiro de 1581: Filipe 2.º proíbe a circulação das moedas de D. António, mandando recolher todas, sob graves penas, à casa da moeda. Poucos portugueses, e com maior cautela, as conservaram; e é por isso que as moedas deste príncipe infeliz são raríssimas. ( Não é de admirar, pois nesse tempo, como hoje, são raros os portugueses!... Obra dos estrangeirados, que ontem como hoje, piscam os olhos aos espanhóis.)

19 de Abril de 1581: Neste ano, o usurpador ordena à Câmara do Porto, que não assistissem à eleição dos procuradores ás cortes de Tomar, os que tivessem seguido o partido do prior do Crato.

1582: D. João 1.º tinha concedido em 1416 a esta cidade, ter feira franca, no primeiro dia de cada mês, com os privilégios e franquias da feira de Trancoso.

Eram obrigados os habitantes do termo e couto, a trazerem os mantimentos à cidade.

Neste ano de 1582, Filipe 2.º concedeu à cidade feira franca, todas as semanas.

4 de Janeiro de 1583: É aberta a casa da Relação do Porto, criada por Filipe II de Castela, sendo seu primeiro governador Diogo Lopes de Sousa, um dos cinco governadores do reino pela morte do cardeal-rei.

1583: Muda-se da Porta do Olival, para a torre da Sé, o sino de correr.

Neste ano de 1583: principia a construir-se a cadeia da relação, no campo do Olival.

29 de Janeiro de 1584: Faleceu em Madrid, D. Lopo de Almeida, Legou todos os seus haveres à Santa Casa da Misericórdia do Porto, somente com o pequeno encargo anual de se vestirem cinco padres pobres, de vestidos completos, e de se lhes dar de jantar, com abundância, no dia do aniversário do seu falecimento, em honra e memória das Cinco Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi por isto que vulgarmente se chamava a este estabelecimento – Hospital de D. Lopo.

29 de Dezembro de 1585: É martirizado em Colican (Ásia) frei Paulo de Azevedo, religioso franciscano, natural desta cidade. Foi um grande ministro do Evangelho. Reduziu à fé de Jesus Cristo inumeráveis gentios, na ilha de Santa Cruz (também chamada Espanhola) e em outras terras da Índia Ocidental.

Muito tempo depois de morto, foi achado pelos espanhóis, inteiro, incorrupto, e intacto das aves e feras; e assim foi sepultado.

1589: Ao decorrer dos anos correspondia um aumento de rendimentos, pelo que não faltou quem procura-se obter o privilégio das barcas de passagem do rio Douro. Da primeira vez, neste ano de 1589, beneficiou Lopo Soares, fidalgo da Casa Real, a quem Filipe II (espanhol) fez mercê de tal privilégio. Todavia, o agraciado não chegou a arrecadar quaisquer proventos, porque a Câmara opôs-se com fundadas razões à concessão, e esta ficou sem efeito.

1590: Foram aplicados 100 cruzados, dos crescimentos das cisas, para a criação dos enjeitados, sob vigilância do provedor.

Em 1592, deram-se 100$000 réis. A misericórdia dava anualmente, 10$000 réis, para o mesmo fim

Em 1604, era eleito em câmara, um cidadão, a que se dava o nome de Pai dos meninos, para tratar da criação dos enjeitados. Depois nomeou-se um mecânico para este emprego, pago pelo senado.

NOSSA SENHORA DA BATALHA

Neste ano de 1590: se edificou a formosa capela de Nossa Senhora da Batalha, no Largo do seu nome, na freguesia de Santo Ildefonso, junto ás muralhas da circunvalação, e fora da Porta do Cimo da Vila, ou da Batalha.

Era toda de cantaria, de excelente fábrica, e fechada de abobada.

A imagem da Padroeira, com outra de Nossa Senhora dos Remédios, estavam antigamente metidas dentro de uma torre que defendia a referida porta do Cimo da Vila, sobre a qual estava a ermida; que, em razão de ficar por baixo do muro da torre, era muito prejudicada pela humidade.

Baltazar Guedes, do Porto, e outros cidadãos, lhe construíram uma nova e mais ampla capela, que foi a última, até à sua extinção. Era toda forrada de azulejos, internamente, e teve ricas alâmpadas, castiçais e outra peças, tudo de prata, para serviço dos altares, que eram três – o principal, onde estava a imagem da Padroeira – no lado direito, a já referida, de Nossa Senhora dos Remédios; e no da esquerda, a de S. José, quase de tamanho natural.

As imagens da Senhora da Batalha e a dos Remédios, são antiquíssimas, de pedra, mas de menos má escultura.

Diz-se que foram os gascões que, com a Senhora da Vandoma, trouxeram estas duas imagens; e que o titulo de Nossa Senhora da Batalha, lhe foi dado por uma batalha que houve neste sitio, contra os mouros, e na qual os cristãos ficaram vencedores, e os inimigos foram completamente derrotados.

1592: Funda-se a igreja e mosteiro de religiosos eremitas de Santo Agostinho (gracianos) de S. João Novo, no antigo largo de Nossa Senhora da Esperança (depois de S. João Novo) pegado à capela da mesma Senhora, e à muralha da cidade.

A igreja era sumptuosa e muito notável interiormente, pela sua arquitectura.

A igreja manteve-se primorosamente conservada, e o edifício do mosteiro, foi ocupado por todos os tribunais e cartórios judiciais, tanto cíveis como crimes, praça de leilões, etc.

Desde 1832, serviu por muitos anos de hospital militar.

1595: Nasce no Porto, a famosíssima D. Bernarda Ferreira de La-Cérda (cognominada a Décima Musa).

Era filha de Inácio Ferreira Leitão, chanceler-mór do reino, e de Paula de Sá Pereira.

D Bernarda teve desde os seus verdes anos muita inteligência e excessivo desejo de aprender. Chegou a ser singular em retórica, poesia, filosofia, matemática e humanidades.

Tocava magistralmente muitos instrumentos. Falava latim, francês, espanhol e italiano, com a maior facilidade e correcção; e compreendia perfeitamente o grego e hebreu. Desenhava com muito gosto e perfeição.

Aos 18 anos compôs o 1.º tomo da Hespanha libertada, e tinha 24 quando concluiu o 2.º.

É a autora do famoso livro – Saudades do Bussaco, que se publicou em 1634. Compôs também um livro de comédias, e entre elas a de Santo Eustáquio, a que deu o titulo de El Cazador del Cielo – um livro de Diálogos – outro de Poesias Várias – fez os argumentos à Malaca conquistada (de Francisco de Sá de Menezes) – além de várias poesias soltas, feitas à gloriosa restauração de Portugal, e aclamação de D. João 4.º, em 1640.

Todas estas raríssimas prendas e a sua angélica formosura, não a faziam soberba, antes era sobremodo afável, virtuosa e de grande piedade.

Foi ela que fundou o mosteiro das freiras carmelitas de Goa.

Casou com Fernão Correia de Sousa, fidalgo também ornado de grandes prendas.

Foi estimada e respeitada pelos maiores homens do seu tempo, tanto portugueses como castelhanos.

Lopo de la Veja Carpio e João Peres de Montalvão, lhe dedicaram livros.

Filipe 3.º a desejou para mestra de seus filhos; porém a nobre portuguesa recusou servir o verdugo da sua pátria. ( A honra de uma nação, mede-se na nobreza destes seus filhos)

Faleceu no dia 1 de Outubro de 1664.

Foi sepultada com seu marido, no mosteiro dos religiosos carmelitas descalços 8dos Remédios) de Lisboa.

Na sua sepultura se gravou o seguinte lacónico epitáfio:

FERNÃO CORREA DE SOUZA

DONA BERNARDA FERREIRA DE LA-CERDA

OFFERECEM AQUI, MORTOS, COTIDIANO

SACRIFICIO

E ESPERAM O DIA DA IMMORTALIDADE

NASCERÃO COM HONRA,

VIVERÃO COM APLAUSO,

MORRERÃO COM EXEMPLO.

FELICES SINGULARMENTE AMBOS

ELLE, NA SORTE DE TÃO INSIGNE MULHER

ELLA, NOS DOTES DE UMA ALMA TÃO SUBLIME

QUE, SEM IGUAL, NA IDADE PREZENTE

VENCEU A FAMA DAS PASSADAS.

SUA ERUDIÇÃO, JUIZO, ENGENHO,

E A GRANDEZA DE SEU ESPIRITO,

CANTOU COM HEROICO ESTILLO

ESPANHA LIBERTADA: SUA PIEDADE E VIRTUDE

PARA COM DEOS,

DESPREZO E ESQUECIMENTO DO MUNDO,

REPETEM COM SAUDOSA E CELESTIAL ARMONIA

OS ECCOS DA SOLEDADE DO BUÇACO

SEUS ESCRITOS, SÃO SEU RETRATO

SUAS CINZAS, NOSSO DESENGANO

FOI LAUREADA NO PARAIZO DO CÉO

NO PRIMEIRO DE OUTUBRO DE

1644.

 

1597: Vem de Paranhos para esta cidade a água de três fontes. O povo do Porto deu mil cruzados para a despesa do aqueduto.

Neste mesmo ano de 1597: os religiosos beneditinos fundam o mosteiro da sua ordem, próximo ás Portas do Olival, aplicando-lhe parte das rendas do convento de S. João de Alpendurada, da mesma ordem.

Dá-se-lhe regularmente o nome de S. Bento da Vitória, por ficar perto da igreja matriz de Nossa Senhora da Vitória.

Era o centro da antiga Judiaria.

A igreja foi construída pelos judeus, e era a sua sinagoga. Foi purificada, e reduzida a templo cristão, neste ano, e é um dos maiores e mais sumptuosos do Porto.

O mosteiro foi quartel do batalhão de caçadores n.º 9, pelos anos de 1874.

15 de Janeiro de 1598: O próprio monarca intervinha, a pedido do concelho, na regulamentação da passagem do rio Douro, fazendo publicar, por um extenso alvará, deste dia 15 de Janeiro, algumas normas especiais que implicavam direitos e deveres de parte a parte. Nas suas laudas são indicadas as penas severas a aplicar aos barqueiros, no caso de quaisquer abusos. É de louvar a pormenorização do curioso documento. Graças a ele, chegou até nós, entre outras, a notícia de que tinham passagem gratuita as moças de serviço e criados que vinham buscar miudezas à cidade para os moradores de Vila Nova e sabemos também que um barco fretado para um passeio até S. João da Foz custava 20 réis.

15 de Outubro de 1606: Nasce nesta cidade, António de Sousa de Macedo, filho de Gonçalo de Sousa de Macedo, contador-mór do reino, e de D. Margarida Moreira.

Era formado em direito, pela universidade de Coimbra.

Tendo apenas 17 anos (1623) escreveu, e foi impresso em Madrid, um livrinho de versos, que eram ao mesmo tempo, latinos, castelhanos, portugueses, de muito engenho e paciência. Eram os parabéns a Filipe 4.º, por Ter melhorado de uma doença.

Em 1628 escreveu, em espanhol, as Flores de Hespanha, excellencias de Portugal – livro que, ainda que com grandes cautelas, mostra o patriotismo do autor.

Depois escreveu, e mandou imprimir, grande número de livros de poesia, história, política e direito civil.

As suas duas últimas obras, foram o famoso in-folio que intitulou – Eva e Ave, ou Maria triumphante, obra de muito estudo e erudição, que teve imensa voga no seu tempo, da qual se fizeram diversas edições -- e o Dominio sobre a furtuna, livro também de muito merecimento.

Era desembargador dos agravos, na casa da suplicação, no 1.º de Dezembro de 1640, e foi, nessa conjuntura, um patriota decidido.

Em 1641, foi nomeado secretário da embaixada portuguesa, em Londres, e depois (1651) embaixador em Holanda.

Em ambos estes empregos, pugnou pela independência da pátria, em várias publicações de grande valor, escritas, umas em latim, outras em espanhol.

Regressando à pátria foi feito secretário de estado, no reinado de D. Afonso 6.º, do qual foi amigo fiel.

Não querendo tomar parte na revolução palaciana, que tirou a este infeliz monarca a esposa e o trono (23 de Novembro de 1667) ficou mal visto do regente, depois, D. Pedro 2.º, que o demitiu de todos os seus cargos; pelo que se retirou à vida privada.( como sempre, o patriotismo, a inteligência e a honra, são inimigos "dos palácios")

Morreu em Lisboa, no dia 1 de Novembro de 1682, e foi sepultado no mosteiro de Nossa Senhora de Jesus, da ordem terceira de S. Francisco, em um nobre jazigo, ornado de muitas e elegantes inscrições.

1608: A cidade compra a casa onde se cunhava a moeda, para nela se vender o pão.

1611: Foi construída a alameda da Porta do Olival (Cordoaria) à custa do imposto do vinho. Em frente do terreiro da relação, na muralha da cidade, se mandou abrir um postigo, no sitio onde depois, e por muitos anos, existiu um arruamento de barracas de madeira, onde se vendia carne de porco, galinhas, frutas e outros géneros.

Estas barracas foram demolidas quando se converteu o recolhimento do Anjo da Guarda, em mercado público.

A alameda era guardada por quatro homens, gratificados, cada um com 8$000 réis anuais, tirados também do imposto do vinho.

Nesta alameda se estabeleceram por muitos anos os cordoeiros, e foi por isso que se mudou o nome de campo do Olival, em campo da Cordoaria.

Também aqui existiu uma forca, onde se executavam os ladrões e facinorosos.

Só uma árvore existia em 1874 desta alameda; todas as outras foram arrancadas, para se fazer o vasto e formoso passeio público, hoje jardim da Cordoaria.

9 de Maio de 1614: Nesta Sexta-feira, entrou um herege na Sé, e, arrombando a porta do sacrário, roubou um vaso de prata dourada, com cinquenta e tantas partículas (hóstias) consagradas. Houve em todo o reino grandes testemunhos de sentimento, por este desacato.

Nunca se pode saber quem foi o criminoso.

5 de Maio de 1619: Lança-se a primeira pedra no mosteiro de religiosos carmelitas, no sitio então chamado Campo do Olival.

Foi feita esta obra à custa da Câmara e do povo da cidade.

Benzeu e lançou a primeira pedra, o bispo do Porto, D. Rodrigo da Cunha. Todas as obras ficaram concluídas em Junho de 1628.

A fachada da igreja é de grande magnificência, pela prodigalidade das esculturas, e pela elegância das estatuas que a decoram.

O interior da igreja é também de muito bom gosto, sobretudo, a capela-mor, que é de uma riqueza surpreendente. Desta igreja saía, no Domingo de passos, a sumptuosa procissão denominada do Carmo.

No edifício que defronta com a praça de Carlos Alberto (Feira das Caixas) está o rico hospital da ordem terceira do Carmo, no pavimento superior. Nos baixos, está a botica da ordem, e ricas lojas de comércio.

Unida à igreja do Carmo, está a capela dos terceiros da mesma ordem.

BALTAZAR GUEDES

1620: Nasce nesta cidade o padre Baltazar Guedes, sacerdote virtuosíssimo e muito caritativo, principalmente para com os órfãos, com dois dos quais andou por todo o reino, e das muitas esmolas que colheu, das suas missas, da herança que lhe deixou um tio, dos lucros que teve das impressões de alguns livros espirituais, de franjas, vestimentas eclesiásticas e frontais de altares que fazia, e de outras industrias licitas, fundou o Colégio de Nossa Senhora da Graça, de meninos órfãos, do Porto, em 1651; tendo de arrostar contra as oposições e até injurias das moradores da cidade, que não queriam a fundação deste estabelecimento de caridade.

Redigiu os estatutos para o bom governo do colégio; e teve a satisfação de ver sair dele, na sua vida, 39 alunos para clérigos, 212 para frades, 8 mestres de teologia, 4 doutores, 2 qualificadores do Santo Ofício, 1 bispo, de Cochim (o qual morreu em Goa, no ano de 1691).

Todos os Domingos e dias santificados fazia práticas públicas, para instrução e moralidade do povo.

Saia com os meninos pelas ruas da cidade, a pedir esmola para eles, a buscar água, que trazia ás costas. Com os órfãos ia aos hospitais varrer as enfermarias e cuidar dos pobres, repartindo com eles as esmolas que se davam aos seus pupilos.

Criou no seu aposento dois enjeitados – um de dois anos de idade, outro de nove meses (este com leite de cabra.) Com as mãos trabalhava em franjas, e com o pé embalava a criança, cuidando de ambos, como o poderia fazer uma extremosa mãe.

Á sua caridade e diligência deve a cidade do Porto a casa dos expostos.

Reedificou a igreja do hospital de S. Lázaro – instituiu três confrarias; uma de clérigos, de S. Pedro; outra de clérigos de S. Filipe Nery; e outra de seculares, da Senhora da Boa-Morte.

Escreveu, traduziu e fez imprimir alguns livrinhos úteis e devotos, e deixou outros manuscritos.

Faleceu a 6 de Outubro de 1693, com 73 anos de idade e 42 de governo do colégio das meninos órfãos, onde foi sepultado.

O senado da câmara lhe fez magníficas exéquias, com assistência de todas as ordens religiosas, ministros da relação, nobreza e grande multidão de povo. Pregou nelas o padre-mestre, Carlos de Santo António, cónego secular de S. João Evangelista, reitor do convento de Santo Eloy, do Porto. Foi tão belo este sermão, que se conservou o seu original, até 1834, na livraria do mosteiro de Xabregas, de Lisboa (Beato) que era da sua ordem.

O edifício do colégio foi depois ampliado, com majestosa vastidão, para albergar a academia politécnica – antiga academia real de marinha e comércio, da cidade do Porto.

Procissão do Corpo de Deus

1621: Na antiga procissão do Corpo de Deus, que saia no Porto, figuravam umas alegorias, que com o datar dos tempos foram suprimidas. Uma dessas alegorias denominava-se a Mourisca. O regimento da referida procissão, diz:

«Irá a mourisca que a cidade dá, e será a carreira de quarenta homens com o seu rei mouro e alfaque, e irá no fim d`ella o canto que dão as confeiteiras, o qual será de seis vozes, que cantem as cantigas com seus alaudes e pandeiros».

A «Mourisca» vinha após os «hortelãos e moradores da freguezia de Santo Ildefonso, com o seu rei, imperador, urso, carro e montaria», e acompanhavam o urso, «pelo menos oito homens com suas lanças e chuços, quatro de cada lado».

Depois da «mourisca» desfilavam «duas folias», uma do concelho de Gaia e outra de Gondomar.

A cidade pagava a cada um de oito homens, encarregados daquelas «folias».

Eram acompanhadas do meirinho e do ouvidor de cada julgado.

Uma outra alegoria que figurava também na referida procissão do Corpo de Deus, chamava-se Nau de S. Pedro.

O já citado regimento da Câmara do Porto de 1621, referindo-se a essa alegoria, diz:

«Irá a Nau de S. Pedro, com a bandeira da confraria, que acompanharão os mesmos pilotos e mareantes de Miragaia, com suas tochas; e a Nau se pintará e reformará cada anno.»

Era um símbolo dos mareantes, que como outros mestres, também tinham a sua representação no longo e numeroso cortejo, reduzido nos princípios deste século, a umas proporções minúsculas e acusando evidentemente a decadência que certos actos e cerimónias têm atingido.

Nesses bons tempos, o que faltasse sem motivo justificado, a ocupar o seu lugar na procissão ou que saísse dela antes que a mesma recolhesse, pagava de multa dois mil réis.

1628: Neste ano veio ao Porto, Francisco de Lucena por ordem de Filipe 4.º, de quem era ministro, impôs o celebre e extravagante tributo das maçarocas.

A Câmara anuiu; porém as mulheres do povo, principalmente as regateiras, percorreram em tumulto as ruas da cidade, encontraram Lucena, no largo de S. Domingos, e correram com ele, descarregando-lhe tão grandes saraivadas de pedras, que, se não se esconde-se no mosteiro de S. Domingos – depois Banco Filial do Banco de Lisboa -- certamente seria ignobilmente assassinado.

Não se julgando ainda seguro dentro do mosteiro, saltou o muro da cerca (hoje rua de Ferreira Borges) passando-se para o convento de S. Francisco, cujos padres o disfarçaram, para passar o Douro, e foi ter ao mosteiro da Serra do Pilar, de onde fugiu para Madrid, sem tornar ao Porto, por mais que o bispo (D. João de Valadares) e o senado, lhe dissessem que já estava tudo pacificado, e a tropa em armas.

O usurpador, a rogo de muitos fidalgos portugueses, perdoou ás amotinadas.

1631: Nasce nesta cidade, o arcebispo de Lisboa, D. Luís de Sousa, filho do 2.º conde de Miranda, Diogo Lopes de Sousa.

1633: Institui-se no Porto a ordem dos terceiros de S. Francisco, na igreja dos religiosos da mesma ordem.

Os terceiros fundaram capela própria, no terreno da actual, lançando-se-lhe a primeira pedra, no dia 1 de Fevereiro de 1643.

Esta capela, foi reformada duas vezes – sendo a última, a actual, que foi construída desde os fundamentos, em 1792; sendo sagrada em 19 de Maio de 1805.

Em 1779, foi instituído o lausprene ás quartas feiras.

Em 1734, se fundou o hospital desta ordem.

Em 1765, se construiu a enfermaria dos entrevados.

Em 1766, se estabeleceu a enfermaria dos incuráveis.

O rendimento desta ordem, era em 1874 de 11.842$160 réis – sendo – rendimento certo, 7.142$160 réis – eventual, 4.700$000 réis.

O hospital era na rua da Ferraria, confrontando pelo Sul-Este com a nova rua de D. Fernando.

Já antes deste hospital havia aqui um albergue para 12 entrevados ou cegos, que fossem irmãos.

Tinha escolas de instrução primária (de ambos os sexos) A capela tem uma elegantíssima fachada, ornada com as estatuas da Fé, Esperança e Caridade; e no interior está com grande magnificência, sendo um dos templos mais elegantes e formosos do reino.

São notáveis as catacumbas, onde se sepultavam os irmãos, cujas ossadas foram removidas para o cemitério do Prado do Repouso, em uma divisão especial.

25 de Setembro de 1639: Lança-se a primeira pedra no hospital dos entrevados, na rua do Cimo da Vila.

1640: Feita em Lisboa a gloriosa aclamação de D. João 4.º, o grito de LIBERDADE repercutiu em todo o reino. As províncias do Norte foram as primeiras que sacudiram o jugo dos opressores, e o Porto em breve derrubou das suas fortalezas a bandeira dos leões, alçando em seu lugar a das QUINAS, símbolo da nossa independência.

O povo da cidade concorreu com soldados, navios e munições de toda a qualidade, para a luta homérica que se ia principiar.

Teve o Porto a ventura de não ver, no espaço de 27 anos, que tantos durou a guerra, aproximar-se o inimigo dos seus muros.

A mesma felicidade teve, nas guerras do século seguinte, entre Portugal e Espanha.

15 de Abril de 1646: Instituição do hospital de Santo António (Misericórdia) cujos estatutos foram aprovados, por alvará de D. João 4.º, em 17 de Maio do mesmo ano.

27 de Dezembro de 1647: Morre em Madrid Diogo Lopes de Sousa, 2.º conde de Miranda.

Militou com grande distinção, nas guerras de Flandres. Foi governador das armas e regedor das justiças da cidade do Porto, onde mandou construir o palácio da relação, e fez cassar muitos abusos, tanto no militar como no político, que se davam nesta cidade.

Foi homem de muito zelo e energia, fazendo aprontar em brevíssimo tempo, neste porto, 11 naus, para a feliz restauração da Baia, que estava em poder dos holandeses.

Os holandeses tinham-nos tomado a Baia, em 1624, mas logo no ano seguinte foram dali expulsos pelos portugueses.

Em 1632, foi feito presidente do conselho da fazenda, de Filipe IV.

Era um bom genealógico e muito erudito nas histórias sagrada e profana, sobre o que deixou escritos de muito merecimento.

Foi depositado no convento das freiras trinas descalças daquela cidade, e depois, transferido para o mosteiro de Santa Catarina de Ribamar, de Lisboa (Oeiras) – e, por fim, para o sumptuoso mausoléu, que seu filho – o cardeal, D. Luís de Sousa capelão-mor e arcebispo de Lisboa, lhe fez erigir, no real mosteiro da Batalha.

1651: A rainha D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, passando pelo campo do Olival em – 14 de Novembro de 1150 – caiu do palafrém em que montava, sem ter a menor lesão, o que atribuiu à protecção da Santíssima Virgem, de quem era muito devota.

Em memória deste acontecimento que a rainha julgou milagroso, mandou aqui edificar uma ermida, da invocação de Nossa Senhora da Graça, na qual deixou uma imagem (de jaspe) da Virgem, que sempre a acompanhava, estava essa imagem numa urna, no trono da igreja.

O padre Baltazar Guedes, natural da freguesia de S. Nicolau, desta cidade (vide o ano de 1620) fundou neste ano de 1651, o colégio para meninos órfãos desvalidos, contíguo a esta ermida, que lhe ficou pertencendo; Lançando a primeira pedra do colégio, em 21 de Novembro deste ano de 1651.

Seu irmão, Pantaleão da Cruz, mudo de nascimento, foi ao Brasil mais de uma vez solicitar meios para esta obra, e de lá trouxe ricas madeiras e algum dinheiro.

As ordens religiosas iam a este colégio procurar estudantes prendados em musica, para os seus mosteiros. Estimavam muito os indivíduos que tinham aqui sido educados, e muitos deles vieram a ocupar altos cargos nas religiões a que foram pertencer, chegando alguns a ser bispos.

(Neste número entra D. José de Jesus Maria Pinto, bispo de Lamego feito em 1821, que tinha sido cónego regrante de Santo Agostinho (Cruzio).

Em 18 de Abril de 1848, faleceu Domingos Pereira de Carvalho (o Romano) professor de desenho histórico da academia portuense de belas artes, que foi criado neste colégio; e também foram alunos dele o padre João de Carvalho Peixoto, 1.º cantor da Sé de Lamego – Libanio Constantino Alves do Vale, cirurgião-mor do exército, que morreu em Lisboa, em 2 de Setembro de 1850 com 51 anos de idade – João Guedes, cónego da Sé de Lamego e examinador sinodal do bispo, que faleceu em 1869.

Tinha o colégio sete patrimónios, para se ordenarem de ordens sacras os órfãos de melhor comportamento.

Depois da invasão francesa, em 1809, chegou este colégio a tão grande pobreza, que duas vezes na semana saiam os meninos a pedir esmola pela cidade, para se sustentarem; mas em 1817, já tinham o preciso, sem necessitarem deste recurso.

Em 1874, tinha rendas próprias, para sustentar mais de 40 meninos; porém, desde 1834, pouquíssimos órfãos deste estabelecimento se têm feito notáveis pelas letras ou pelas virtudes; devido, em grande parte, à péssima escolha dos reitores; pois só um dos patrimónios está provido desde essa época, estando os outros vagos.

Este colégio é administrado pela Câmara Municipal, à qual o reitor dá contas todos os anos, em cumprimento do régio alvará de 30 de Janeiro de 1651, outorgado por D. João IV.

1660: Fundou-se à custa da Câmara e do povo do Porto, a igreja e mosteiro dos congregados, junto à porta de Carros. É um templo sumptuosíssimo, que pertenceu à congregação de S. Filipe Nery.

É nesta igreja que se fazia a riquíssima solenidade do Satabat Mater.

Os altares de Nossa Senhora das Dores e de Jesus Maria José, são verdadeiramente admiráveis.

Estão nesta igreja os corpos de S. Clemente, S. Severino e Santo Eugênio.

É de abobada de estuque, de um trabalho primorosíssimo.

O edifício do mosteiro e tudo quanto lhe pertencia (incluía o célebre monte dos Congregados) foram vendidos depois de 1834. O que foi mosteiro, está transformado em boas moradas de casas particulares. O monte dos Congregados, parte foi vendido, e parte, acha-se cortado pelas ruas da Alegria e da Duquesa de Bragança.

A rua de Sá da Bandeira, também foi aberta em terreno que foi destes padres.

Um beco que ia, da Rua de Sá da Bandeira, para a rua do bispo depois de Dom Pedro, ainda conserva a denominação de viela dos Congregados. (Vide ano 1620)

1661: Sendo regente do reino a rainha D. Luísa de Gusmão, na menoridade de D. Afonso VI, seu filho – deu-se ordem a todos os magistrados, para que não despachassem requerimento algum, que não fosse escrito em papel selado.

Em 4 de Maio deste ano, logo pela manhã, e foram tumultuosamente a casa dos seus procuradores, para que estes pedissem ao senado da Câmara, que suplicasse ao rei a revogação deste tributo.

A Câmara, porém, não só os desatendeu mas até prendeu os procuradores – o que ainda mais enfureceu o povo, que gritava pelas ruas – Viva El-rei, e morram os traidores.

Foram aos arcos de S. Domingos, a casa do tesoureiro da cidade, apedrejando-lhe as janelas e obrigando-o a lançar à rua e ali queimaram todo o papel selado que lá encontraram; e queimariam também a casa se lhe não acudissem os frades de S. Domingos. Depois, queriam também o papel selado que estava em casa do recoveiro, na rua Nova.

A casa do juiz da alfândega foi também arrombada, e despedaçados todos os seus móveis.

Obrigaram o corregedor da cidade a entregar-lhes a provisão régia que criou este tributo.

Nesta conjuntura, os cónegos da Sé lembraram-se de sair, com o SS. Sacramento, em procissão, a ver se aplacavam a fúria do povo, mas nada conseguiram; e só terminou o tumulto com a soltura dos procuradores do povo.

A força militar do Minho, marchou contra a cidade, onde entrou a 17 de Outubro, era composta por quatro mil infantes e quinhentos cavalos, sob as ordens do conde do Prado, o tributo foi então imposto sem resistência.

Tirou-se devassa, não resultando outro castigo aos sublevados, senão serem condenados – a açoites, um mulato da Ribeira, e um marujo a cinco anos de degredo, para o Brasil.

1664: Morre no seu mosteiro de Benfica, Francisco de Sá e Menezes, natural da cidade do Porto, e foi sepultado neste mosteiro.

Foi comendador da ordem de Cristo, e depois de viuvo, se fez religioso beneditino, sob o nome de frei Francisco de Jesus.

É autor da Malaca conquistada, um dos melhores poemas históricos portugueses.

1672: No Campo do Olival, e junto ao colégio dos meninos órfãos de Nossa Senhora da Graça, D. Helena Pereira da Maia, funda neste ano o recolhimento do Anjo da Guarda, para dez donzelas órfãs, pobres, filhas de pais nobres desta cidade.

Foi demolido depois de 1834, e no lugar que ocupava, foi instalado o mercado, vulgarmente chamado praça do Anjo.

1679: Funda-se o mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, de cónegos seculares de S. João Evangelista (Lóios) na freguesia de Santa Eulália, de Oliveira do Douro, na margem esquerda do rio Douro.

1 de Outubro de 1685: Funda-se no Porto, a roda dos expostos, na rua dos Caldeireiros, contígua ao hospital de D. Lopo. Mudou-se depois para a rua dos Fogueteiros e por fim, para o largo da Cordoaria.

Era administrado pela Câmara Municipal.

1704: Funda-se a igreja e o mosteiro de religiosas carmelitas descalças, da invocação de S. José e Santa Teresa, no sitio então chamado lugar do Calvário. Ficava próximo, ao Norte, do recolhimento do Anjo da Guarda – e também próximo ao Noroeste do colégio da Graça.

Já nada existe da igreja, e muito pouco do mosteiro. Tudo foi demolido depois de 1834, sendo depois, estação telegráfica.

Em 1865 veio para aqui a repartição da polícia civil.

11 de Agosto de 1714: Por um assento da relação do Porto, se ordena que a forca, que estava em Mijavelhas seja mudada para o cais da Ribeira.

A fonte de Mijavelhas, era no largo do Poço das Patas (hoje campo de 24 de Agosto.) Fazia-se aqui uma boa feira de gado bovino, em todas as terças feiras e sábados; e por isso se chamava vulgarmente – Campo da Feira do Gado.

A água da fonte de Mijavelhas era das melhores do Porto. Junto à fonte havia lavadouros públicos. Parece que antigamente a todo este campo se dava o nome de Mija-Velhas.

13 de Janeiro de 1721: Pelas 7 horas desta noite, incendeia-se um presépio que havia sido armado numa propriedade das imediações da rua Chã, em consequência de um foguete que fora lançado na rua. A propriedade ardeu por completo, assim como o prédio imediato onde habitava o licenciado Felix Moreira, que perdeu a sua valiosa livraria. Morreram oito pessoas e entre elas o Dr. Cristóvão Gomes de Azevedo, desembargador dos agravos da Relação.

1 de Novembro de 1721: Junto à igreja de S. Nicolau, pariu Maria Teresa, mulher de Jerónimo Francisco, ourives, três crianças, vivas, de um parto, as quais foram baptizadas no dia seguinte, com os nomes de Josefa, Teresa e Ana. Passados dez dias pariu quarta criança.

É mais uma prova da possibilidade da superfetação.

1722: Funda o recolhimento das órfãs, no largo de S. Lázaro (hoje jardim) o padre Manuel dos Passos Castro, tesoureiro da colegiada de Cedofeita.

Era administrada pela mesa da Misericórdia.

A capela deste recolhimento, que é grande e bonita, é da invocação da Nossa Senhora da Esperança.

14 de Junho de 1725: Toma-se assento acerca das ruas por onde haviam de passar os padecentes, as quais eram – Ferraria de Cima, Caldeireiros, Flores, S. Domingos, e S. João.

28 de Dezembro de 1727: Houve nesta cidade e no rio, repentinamente um grande temporal, de vento e chuva, chegando o Douro até à porta travessa da igreja de S. Pedro de Miragaia, chegando-se de Cima do Muro com as mãos à água. Os prejuízos em edifícios, mobílias, fazendas e embarcações, subiu a alguns milhões de cruzados.

A corrente do Douro levou pela barra fora dois navios portugueses, que estavam com carga de fazendas para a Baía (Brasil), e alguns ingleses; além de muitos barcos miúdos – que tudo se despedaçou contra os rochedos da costa.

Morreram cento e tantas pessoas afogadas.

Caiu, em várias partes, a muralha da cidade.

1730: Funda-se, no campo da Cordoaria, o hospício dos religiosos franciscanos, de Santo António de Vale da Piedade, denominado – hospício de Santo António da Cordoaria – e depois – capela dos Trinos, da Cordoaria.

A capela foi vendida depois de 1834, e foi depois uma padaria (mantendo as formas da ermida). O edifício transformou-se em roda dos expostos.

Próximos, ficavam os antigos celeiros públicos, depois transformados em quartel da 1.ª companhia da guarda real da polícia do Porto, e de alguma cavalaria do mesmo corpo.

Este quartel foi reduzido a cinzas, por um incêndio, no dia 19 de Março de 1832. Morreram nele sete pessoas e quinze cavalos.

1732: Assenta-se na Sé o altar do Santíssimo Sacramento, com sua banqueta, tudo de prata, e de primoroso trabalho.

Para escapar à rapacidade das hordas do general francês Soult, diz-se que os cónegos o mandaram cobrir com algumas camadas de gesso.

Neste ano de 1732, principia, no alto da calçada da Natividade a construção da igreja dos Clérigos, e em 1748, se principia a obra da torre dos Clérigos, que foi concluída em 1763, sendo seu arquitecto, Nicolau Maroni, italiano.

Esta torre é a mais alta do reino, e das mais elegantes e notáveis da Europa; excedendo muito, em altura, as de Hamburgo, Bolonha, Ultrech, Riga e Bristol.

É toda de cantaria lavrada, e de solidíssima construção, assente em uma rocha, pelo que tem resistido a todos os temporais e convulsões do globo; apenas em 1834, um forte temporal destruiu uma pequena parte desta torre, que foi pouco depois consertada. Em 1862, uma faísca eléctrica lançou por terra o globo e a cruz, que logo foi reposta no seu lugar, sendo depois colocado um condutor.

A sua altura, desde o nível da rua até à base do globo de metal, que a coroa, é de 75 metros. Vê-se do mar, a 60 quilómetros de distancia, tendo servido, por isso, de guia aos navegantes que demandavam a barra do Porto.

Tem oito campanários, com os seus competentes sinos, pesando todos 7990,372 quilogramas.

A igreja foi sagrada em 12 de Dezembro de 1779, por D. frei João Rafael de Mendonça, bispo do Porto. É isenta da jurisdição paroquial.

A tribuna é toda de belíssimo mármore, e custou mais de 50.000 cruzados (20 contos de réis).

Sobre a porta lateral do Norte, tem a seguinte inscrição:

HOC MIRUM ASSUMPTAE, QUOD

VIRGINIS ARA TUETUR

LARGA MANUS CLERI SURGERE FECIT OPUS

AMPLA DEAE SEDES PETROQUE

ATQUE AUCTA PHILIPPO

QUIDINI TRIGENINO NUMINE DIGNA COLI?

O culto divino é desempenhado por sacerdotes aprovados em cantochão e cerimónias eclesiásticas.

Para este fim possui a igreja preciosos ornamentos, e dois órgãos. As missas nos dias solenes e de guarda, dizem-se até ao meio dia.

Está aqui depositado o corpo de Santo Inocêncio, mártir; e sobre o alto da tribuna, está erguida a rica imagem de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da igreja.

A administração da igreja dos Clérigos, está incumbida a uma corporação de clérigos e seculares, que são os que tratam da conservação da igreja e das despesas que se fazem com o antigo hospital dos clérigos pobres.

Da irmandade dos clérigos tem feito parte muitos prelados, entre eles, D. Tomás de Almeida (da casa dos marqueses do Lavradio e condes dos Arcos e de Avintes) primeiro patriarca de Lisboa, e D. frei José Maria da Fonseca Évora, bispo do Porto.

13 de Julho de 1736: Institui-se a ordem terceira de Nossa Senhora do Carmo. Foi seu primeiro irmão, Tomás António de Sousa Cirne, que pagou 800 réis pela sua entrada.

Em 26 de Julho de 1737, foi eleita a primeira mesa desta ordem, sendo feito prior o dito Cirne, e priora, D. Leonor Francisca d`Alpocinda e Silva.

Em 29 de Agosto de 1756, foi lançada a primeira pedra da sua igreja, por mão do seu prior, D. João da Silva Ferreira, bispo de Tanger (África) deão de Vila Viçosa, e governador apostólico do bispado do Porto.

Em 1770, querendo a irmandade (a exemplo da mesma ordem, em Lisboa) sair com a sua procissão, requereu ao prelado diocesano, que lhe deferiu, sendo este despacho confirmado pelo papa Clemente XIV. A primeira procissão saiu em 1772.

O mesmo pontífice, a requerimento da irmandade, e por breve de 9 de Agosto de 1774, instituiu nesta igreja o sagrado lausprene, em todos os Domingos do ano.

Em 6 de Abril de 1791, se principiou a edificação do hospital da ordem; e, em 8 de Fevereiro de 1801, teve lugar a sua abertura pública.

O rendimento anual desta ordem em 1874, era; 18.000$000 réis; pois o certo é de 3.933$475 réis, e o eventual, regulava por 14.000$000 réis.

14 de Outubro de 1737: Morre no convento das religiosas franciscanas, de Santa Clara, desta cidade, a madre, Maria Vitória, natural da mesma cidade, com 136 anos de idade, pois nascera em 1601. Era de muita pequena estatura. Depois de ter cem anos, lhe caíram cinco dentes e lhe tornaram a nascer outros, e os conservou todos, e os cabelos sempre pretos; e o seu juízo perfeito, até morrer; sendo sempre, até pouco antes do seu falecimento, rígida observante das obrigações do seu estado.

Viveu no reinado de seis monarcas – Filipes 3.º e 4.º -- D. João 4.º -- D. Afonso 6.º -- D. Pedro 2.º -- e D. João 5.º.

1738: Funda-se o hospício do Senhor de Além. (A capela tinha sido fundada em 1140.) É sobre a margem esquerda do Douro, ao fundo da Serra do Pilar.

Em 5 de Março de 1739, tomaram posse da capela e do hospício, cinco frades carmelitas calçados, os quais estavam sempre no confessionário, desde o nascer do sol até ao meio dia.

Ainda existe a capela. O hospício foi vendido depois de 1834, e é hoje (1874) uma fábrica de louça de faiança.

Como a capela ficava apenas a uns dois metros acima do nível do rio, e por isso era muitas vezes invadida pelas cheias, foi removida mais para cima (1877 )onde as enchentes a não possam atingir.

23 de Agosto de 1740: Nasce no Porto, D. frei Joaquim de Santa Clara Brandão, arcebispo de Évora.

Era cónego beneditino e doutor em teologia, pela universidade de Coimbra.

Professara no mosteiro de Tibães, sendo geral frei António de Santa Clara.

Em 24 de Maio de 1766, tomou ordens de presbítero, em Coimbra, conferidas pelo bispo desta cidade, D. Miguel d`Anunciação.

Em 17 de Julho de 1771, tomou grau de bacharel em teologia – e capelo em 1778, quando já exercia o magistério.

D. Maria 1.ª, por alvará de 17 de Fevereiro de 1790, o nomeia pregador da real capela da Bemposta (Lisboa.)

Por carta régia, de 29 de Dezembro de 1793, o príncipe regente (depois de D. João 6.º) o nomeia lente catedrático de exegética – e, em 15 de Março de 1806, lente de prima, em teologia.

Foi D. frei Joaquim de Santa Clara, o que primeiro pregou, nas exéquias do primeiro marquês de Pombal, na vila do seu título, quase forçado pela autoridade de D. Francisco de Lemos de Faria Coutinho, bispo de Coimbra e conde de Arganil, que devia a mitra ao marquês, e que veio de Coimbra para esta vila, com muitos clérigos e com a música da real capela da universidade e da Sé, logo que soube da morte do que fora seu protector.

Este sermão desagradou à corte de Roma, e o papa, Pio VII, pôs muita dúvida antes de o confirmar arcebispo de Évora.

Em Dezembro de 1814, foi eleito arcebispo; mas, tal foi a resistência da cúria para a sua confirmação, que só tomou posse da mitra em 3 de Outubro de 1816, tendo sido sagrado em 21 de Setembro deste ano.

Fez a sua entrada solene em Évora, a 6 de Novembro de 1816, e nesta cidade faleceu (desgostoso com a corte e com a cúria romana) em 11 de Janeiro de 1818.

Jaze no cruzeiro da Sé de Évora, em sepultura rasa, com esta inscrição:

D. F.JOACHIMUS. S. CLARA. BRANDÃO.

EX. BENEDICTINA. FAMILIA

IN CONIMBRICENSE. CATHEDRAE

AD. VITAM SPLENDOR.

OCTOGENARIUS

HUJOS. METROPOLIS. ANTISTES.

VIRTUTIBUS PLENUS.

AD. ANNUM. RAPTUS.

HIC. SITUS. EST.

Publicou algumas obras – entre elas – o Plano e o Regulamento dos estudos para a congregação de S. Bento.

Fez algumas tentativas poéticas, já originais, já traduzidas do grego e do latim; mas deu melhores provas de orador sagrado, do que de poeta harmonioso.

Foi seu vigário geral, D. António Maurício Ribeiro, bispo de Bugia.

1744: Nasce nesta cidade, Tomás António Gonzaga, filho de João Bernardo Gonzaga (brasileiro) que depois de ser ouvidor do Porto, foi nomeado, em 1749, desembargador da relação da Baía – então capital do Brasil – para onde o acompanhou seu filho.

Tomás António Gonzaga veio para o reino, e formou-se em direito, na universidade de Coimbra.

Foi feito ouvidor de Vila Rica-d`Ouro Preto (Minas Gerais, Brasil.)

Unindo-se a alguns revolucionários, e animado pela recente emancipação dos Estados Unidos da América, tomou parte em uma conspiração, que tinha por fim tornar em república independente a província de Minas Gerais.

Foi por isso preso, julgado e condenado a degredo perpétuo, para as Pedras d`Angôche (África) mas pôde obter comutação da sentença, em degredo por dez anos em Moçambique; para onde partiu em 1792, e ali casou e viveu 15 anos, e morreu em 1809.

Teve, em solteiro, amores com D. Maria Joaquina Doroteia Seixas Brandão, de Vila Rica, e estes amores lhe inspiraram essa formosa colecção de liras a que deu o título de Marília de dirceu, livro tão estimado e geralmente conhecido em Portugal e no Brasil, e que lhe deu a imortalidade.

9 de Janeiro de 1744: Uma segunda tentativa de obter o privilégio, das barcas de passagem do rio Douro, foi tentada neste dia: o secretário de Estado Pedro da Mata e Silva, assinava uma carta, em que era ordenado à câmara do Porto, que desse toda a ajuda a Bento de Moura Portugal, que vinha a esta cidade, por ordem de S. M., a uma diligência do seu serviço, como havia de declarar no Senado. Essa declaração conste duma carta enviada à Câmara pelo interessado e que foi apreciada na vereação do dia 14 de Fevereiro seguinte, perante numerosa e variada representação da cidade, assim descriminada no assento: a maior parte da nobreza, cidadãos, homens de negócios e mais pessoas do povo. Esclarecia a mesma carta, que havia chegado ao conhecimento de S. M. a notícia de que na passagem do rio Douro, entre o Porto e Vila Nova, «precisam todas as carruagens apear-se, embarcando-se com trabalho e com muito mais os carros carregados.» pelo que «mandou se fizessem três barcas pela mesma forma da de Sacavém a fim de que em cada uma delas possa entrar toda a sorte de carruagens sem se apear, e se possa ir nelas com segurança». Esta diligência havia sido confiada ao expositor. Pretendia este, que fosse construído um novo cais defronte do postigo da Forca, especialmente destinado ás barcas reais. Seriam também, amarradas nesse lugar ou noutro mais conveniente as prisões das referidas barcas.

26 de Fevereiro de 1744: No decorrer duma diligência efectuada na Ribeira, junto do lugar assinalado para o estabelecimento das novas barcas, foram prestados alguns esclarecimentos pelo interessado. Ao fim, concordaram os senhores da Câmara e com eles os demais representantes da cidade que tal melhoramento, longe de trazer benefícios, acarretava antes sérios prejuízos. E levaram tal facto ao conhecimento do monarca.

A esta representação, datada deste dia 26 de Fevereiro, respondeu sua majestade que, tendo mandado examiná-la como devido cuidado, se não reconheceram os inconvenientes nela apontados, pelo que havia por bem que as barcas se estabelecessem sem mais demora, para servir-se delas quem espontaneamente quisesse. Foi por diante o projecto? Nada sabemos a tal respeito, dada a omissão dos documentos. Mas não será ousado concluir que também o novo agraciado não chegou a usufruir as regalias do privilégio concedido...

Uma das razões alegadas pela Câmara, em nome da cidade, contra o estabelecimento destas barcas de passagem, baseava-se no facto de os calabres de amarração das mesmas causarem embaraço aos navios que fossem crenar à outra banda do rio. Outros eram os tempos!

1754: No inverno deste ano, houve tanta chuva, que o Douro, subindo muito do seu nível ordinário, alagou e arrasou grandes e ricos armazéns de vinho, em Vila Nova de Gaia. O mais prejudicado, entre os proprietários de armazéns, foi D. José Vicente de Andrade Beleza, fidalgo da casa real, mestre de campo do terço de infantaria do Porto, e administrador dos vínculos de Valdigem e S. Lourenço, e vulgarmente chamado – morgado do Terreirinho, por morar no lugar deste nome, junto à igreja de Santa marinha, matriz de Vila Nova de Gaia.

Foi seu neto e sucessor nos morgados, António Beleza de Andrade, oficial do exército realista, que, estando a servir de major do regimento de infantaria n.º 12, foi prisioneiro na batalha da Asseiceira, em 16 de Maio de 1834, e solto, em Lisboa – segundo o estipulado na convenção de Évora-Monte – em 11 de Junho do mesmo ano.

Era homem de bem, e o maior proprietário de Vila Nova de Gaia. Suicidou-se em Matosinhos, em 1870, deixando quatro filhas e dois filhos.

7 de Janeiro de 1755: O missionário apostólico, padre Angelo de Sequeira, natural do Brasil, e muito devoto de Nossa Senhora da Lapa, lança a primeira pedra de uma capela, dedicada àquela Senhora, no sítio do Sério, à raiz de um monte, por onde passava a estrada para, Vila Nova de Famalicão, Braga, Guimarães, Caminha, etc.

O terreno lhe foi dado por um devoto da Senhora, e a capela foi feita com o produto das esmolas do povo.

O virtuoso missionário pôs tão grande diligência nesta construção, que já a 20 (13 dias!) estava a ermida coberta.

Tinha 80 palmos de comprimento e 40 de largura.

Os portuenses começaram logo a Ter tão grande devoção a Nossa Senhora da Lapa, que, fidalgos e fidalgas, dos principais da cidade, mulheres de ministros, clérigos, frades, burgueses e povo, tudo concorreu, não só com esmolas e alfaias, para adorno do templo, mas até com o seu trabalho, conduzindo os preciosos materiais.

O coronel, governador das armas, marchou com os regimentos da guarnição para o lugar da obra, e todos nela tomaram parte, sendo ele o primeiro que lhes deu o exemplo.

Unido à igreja se construiu um confessionário público, onde os pecadores iam de noite fazer as suas confissões gerais, sem serem conhecidos.

Fez-se ali também uma roda, para por ela se restituir o dinheiro, ou objectos de ouro e prata, ou outras quaisquer coisas que tinham sido roubadas, sem se poderem reconhecer os restituidores.

Ainda junto ao confessionário se fez uma espécie de albergaria, para nela se recolherem os penitentes que ali quisessem ficar.

Ornamentou-se a capela com grande magnificência, e logo ao vigésimo dia nela se disse missa, com acompanhamento de órgão próprio.

A imagem da padroeira saiu da igreja do mosteiro de freiras de Santa Clara, do Postigo do Sol, em magnífica procissão (a 10 de Março do mesmo ano) à frente de mais três andores, com S. João Marcos, S. Francisco, e Santa Clara.

Deu-se à padroeira o titulo de Nossa Senhora da Lapa das Confissões.

O magnífico templo que hoje existe, com privilégio de capela-real, não é a capela do padre Angelo; mas uma ampla e formosa igreja, cuja construção principiou no começo do século XIX, continuando ainda as obras exteriores em 1874.

Ainda que de singela arquitectura, é de muita elegância, e o seu interior está ornado com magnificência.

Na capela-mor desta igreja está o coração do Sr. D. Pedro, duque de Bragança, por ele legado à cidade do Porto.

Sobre a porta principal da igreja, se lê a seguinte inscrição:

OMNIA PER MANUS MARIAE.

Tem uma rica irmandade, e junto à igreja estáva o liceu de Nossa Senhora da Lapa, com alunos internos e externos.

Também próximo ao templo, e ao Noroeste dele, está o magnífico cemitério público da Lapa – e ao Sudoeste a alameda do mesmo nome.

14 de Maio de 1755: O papa Benedito XIV, instituiu a ordem terceira da Santíssima Trindade, do Porto; logo depois da supressão (do mesmo pontífice) da ordem terceira de S. Domingos, em 15 de Abril do mesmo ano, que se tinha fundado nesta cidade, em 1671. A bula de Benedito (ou Bento) XIV, foi aprovada por provisão régia de D. Maria 1.ª, a 15 de Março de 1781.

A capela provisória da Santíssima Trindade, no largo hoje chamado praça da Trindade, e antigamente largo do Laranjal, era mais ao Noroeste da actual igreja, na esquina que fazia frente para a travessa de Liceiras.

Foi principiada em 14 de Abril de 1804, e concluída no fim de Outubro do Mesmo ano.

Depois de construída a igreja, transformou-se a capela em cemitério dos irmãos, até à proibição dos cemitérios das ordens terceiras, em 1868.

Em 17 de Abril de 1803, o bispo do Porto, D. António de S. José e Castro, lançou a primeira pedra na nova igreja da Santíssima Trindade; e, em 29 de Maio de 1814, se abriu à veneração pública.

O regulamento temporal da ordem, são os Estatutos, aprovados em sessão da mesa, junta e definitório, em 2 de Janeiro de 1830; e foram aprovados pelo bispo desta diocese, D. João de Magalhães e Avelar, em 8 de Maio do mesmo ano.

O liceu desta ordem ,foi instituído em 23 de Novembro de 1857; e autorizado por alvará do ministério do reino de 20 de Abril de 1861.

Consta das escolas de instrução primária e secundária, piano, canto e prendas, próprias do sexo feminino. Em 1871, era frequentado por 106 meninos e 97 meninas, filhos dos irmãos pobres; mas recebia também estranhos à ordem, mediante a recompensa que se convenciona.

Tem um bom hospital, cuja fundação principiou em 6 de Junho de 1852 – e uma botica anexa.

Tanto a igreja e hospital como todos os melhoramentos da ordem, muito devem ao Sr. José António de Sousa Basto, feito visconde da Trindade, em 10 de Novembro de 1852.

Seu filho, o Sr. José António de Sousa Basto Júnior (visconde de Trindade ,José) recebeu este titulo, em 5 de Junho de 1863.

A igreja da Santíssima Trindade é actualmente a mais bela do Porto, não só pela sua elegância e belíssima escultura exterior, e pela sua formosa torre dos sinos, com seu carrilhão (o primeiro que houve nesta cidade) como pela sumptuosidade do seu interior, e pela beleza das imagens que adornam os altares.

Tem lausprene em todos os Domingos do ano, instituído em 1814.

A capela-mor foi principiada em 1852.

A procissão da Santíssima Trindade, que saía no Domingo próprio, era, sem contestação, a mais sumptuosa do reino; apesar de ter só cinco andores, que são – o da Santíssima Trindade, o de S. João da Mata (fundador da ordem), o de S. Felix de Valois, o de Santa Isabel, rainha de Portugal, e o de Nossa Senhora das Dores.

Era inexcedível a riqueza destas imagens e dos seus andores. Duvidava-se que na Europa católica, desse tempo, houvesse outros que os excedessem em beleza e majestade.

1 de Novembro de 1755: Horrível terramoto, que causou grandes prejuízos e muitas perdas de vidas, principalmente em Lisboa e no Algarve. No Porto também fez bastantes estragos; porém muito menos do que em Lisboa.

4 de Fevereiro de 1757: O marquês do Pombal cria a Companhia geral de Agricultura e Comércio das Vinhas do Alto Douro, um dos melhores estabelecimentos da Europa.

No mesmo ano e no dia indicado, os ingleses promovem no Porto uma sublevação contra a dita Companhia. O governo manda tropas de Lisboa, que sufocam a revolta.

Vem ao Porto uma alçada, que condena (no dia 12 de Outubro) 283 pessoas a diferentes penas (forca, açoites, galés, confiscação de bens, e degredo) e 17 crianças a palmatoadas.

Os grandes privilégios dados a esta Companhia por D. José 1.º (ou pelo marquês de Pombal) principalmente o que lhe dava o exclusivo de vender na cidade e quatro léguas em redondo, todo o vinho (maduro) que consumisse o povo, desagradou aos taberneiros, que, demais a mais, influídos por alguns ingleses, negociantes de vinho, agregaram a si muita gente das classes baixas, tanto homens como mulheres, e se reuniram no largo da Cordoaria, na manhã de 4 de Fevereiro deste ano, e dali se dirigiram ao largo de S. Domingos, onde morava o juiz do povo, ao qual, ainda que doente, obrigaram a entrar em uma cadeirinha, levando-o a casa do chanceler e regedor da justiça – gritando pelas ruas – Viva o povo, e morra a Companhia!

Os sinos da Sé e da Misericórdia tocaram a rebate, e o chanceler, instado pelo povo, e, temendo maiores desgraças, teve de declarar livre a venda do vinho de ramo.

Neste comenos, da casa do procurador da companhia partiram dois tiros de bacamarte, contra alguns dos amotinados. O povo, ainda mais exacerbado com este facto, arrombou as portas da casa do procurador, e invadindo-a, esmigalhou todos os móveis, calcando aos pés tudo o que era da companhia.

Pelas três horas da tarde todo o povo se tinha pacificado.

Esta revolta, cujos autores sofreram castigos muito mais severos do que o caso merecia, deu assunto ao Ilustríssimo escritor Arnaldo Gama, para o seu brilhante romance histórico –Um motim há cem anos.

23 de Maio de 1757: Nasce nesta cidade, o padre João Pedro Ribeiro, apelidado, com justiça, o pai da diplomacia, porque, na verdade, foi ele o fundador deste ciência em Portugal.

Era doutor formado em cânones, pela universidade de Coimbra, e foi lente de diplomática, na mesma universidade, e sócio da Academia real das Ciências de Lisboa.

Estudou com afinco a história da civilização portuguesa, indicando aos sábios futuros a senda a seguir para estudos mais profundos.

Deixou grande número de Memórias e Opúsculos de muito valor, concernentes a várias questões históricas.

As suas obras estão consignadas nas Dissertações cronológicas e criticas, sobre a historia civil e eclesiástica de Portugal.

Faleceu também nesta cidade, a 4 de Janeiro de 1839, com quase 82 anos de idade.

1757: Neste ano, é transferido para as escadas do Codeçal, o Recolhimento do Patrocínio da Mãe de Deus – Vulgarmente do Ferro. Tinha sido primitivamente fundado na rua Escura, com esmolas do Povo.

8 de Janeiro de 1759: O regimento de infantaria de Chaves, que chega a esta cidade para coadjuvar a força da sua guarnição, por ocasião do aumento do território do Governo das Armas, é mandado aquartelar, por Boletos, fora dos muros da cidade, até à conclusão do seu Quartel próprio.

11 de Janeiro de 1765: João de Almada e Melo, Pai do celebre corregedor Almada e Mendonça, é nomeado governador da Relação do Porto – o general tinha a seu cargo o governo das Justiças e das Armas.

1766: Nasce neste cidade o famoso pintor Francisco Vieira, geralmente conhecido por Vieira Portuense – para o distinguir do seu homónimo – Vieira Lusitano.

Seu pai era também um pintor distinto, e foi o que lhe deu as primeiras lições.

A Companhia dos vinhos do Alto Douro, deu-lhe uma pensão, para ele ir estudar a Roma, para onde partiu em 1789, e ali foi seu mestre Domingos Conti.

Esteve em Parma, em 1791, regressando a Roma em 1794, e em 1797, marchou para a Alemanha.

Regressando a Roma, tomou amizade com o famoso gravador Bartolozzi, que lhe gravou muitos dos seus trabalhos.

Em Roma fez pinturas de grande merecimento, entre elas – Viriato, O Descimento da Cruz, e Nossa Senhora da Piedade, obras que lhe granjearam uma fama imortal.

Casou em Londres, com uma italiana, parente de Bartolozzi, em 1802; e neste mesmo ano foi nomeado director da academia do Porto, e, ainda nesse mesmo ano, foi chamado a Lisboa, para, juntamente com Domingos António de Sequeira, exercer o cargo de primeiro pintor da corte.

Uma grave moléstia de peito, causada pelo seu assíduo trabalho, o obriga a ir para a Ilha da Madeira; mas, longe de achar lenitivo aos seus padecimentos, ali faleceu em 1805.

15 de Julho de 1770: Lança-se a primeira pedra do Hospital de Santo António (Misericórdia) na parte ocidental do passeio da Cordoaria.

(Mas só em 19 de Agosto de 1799 é que foram transferidos para ele os primeiros enfermos (mulheres) do antigo hospital de D. Lopo.)

Este edifício, ao tempo, excedia em grandeza todos os do seu género em Portugal, e que, não tinha rival em toda a Europa, honrado a cidade do Porto, que empreendeu obra de tanto esplendor e utilidade.

Como curiosidade, ao tempo do projecto, contava-se assim:

Deve ter uma forma quadrangular. As suas duas principais fachadas, uma a Este e a outra a Oeste, terão de comprimento 174 metros. Os lados, de Norte e Sul, terão 179 metros ficando com 706 metros de circunferência.

No centro terá um vasto pátio, cercado de galerias, e no meio dele à de ser a igreja, que, se for conforme o risco, será magnífica, e a todos os respeitos digna do resto do edifício.

O hospital é de três andares. Terá 159 salas e salões – 142 enfermarias – 97 latrinas – 20.609 portas e janelas – 28 estatuas de 4 metros de altura cada uma – 176 colunas (a maior parte delas, de 9 metros) – 100 pirâmides – 5.586 balaústres – 56 escadas principais – e 3.000 degraus (além dos subterrâneos.)

As paredes fundamentais chegam a ter em partes, 11 metros de grosso.

O Sr. Desembargador, António Roberto de Oliveira Lopes Branco, sendo prior da Misericórdia, cinco anos sucessivos, deu grande impulso a estas obras: honra seja a este prestante cidadão, que, não se poupando a fadigas, sacrifícios e desgostos, tomou uma parte tão activa neste melhoramento.

A fachada principal Este estáva concluída em 1877. O lado do Norte, que deita para o largo antigamente chamado do Duque de Beja, ainda em construção no ano de 1877, nele se tinha trabalhado, com afinco, nos últimos seis anos.

O mesmo desembargador, fez publicar um Regulamento, para o hospital, que é um documento honradíssimo da sua energia, solicitude e inteligência.

O rendimento da Misericórdia em 1877, era de: 84.806$690 réis – sendo 71.806$690 réis o rendimento certo – e 13.000$000 réis o eventual.

8 de Janeiro de 1775: Começou a ser reedificada, a cadeia da Relação do Porto.

1775: O padre Geraldo Ferreira funda a capela e a irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade.

Depois, e pouco a pouco, se foram fazendo as enfermarias para os irmãos, e para os particulares que ali se quiserem tratar, por uma recompensa convencionada.

Tinha três enfermarias para homens e três para mulheres.

Tinha 12 quartos particulares, e uma magnifica sala para operações.

Dava uma aula gratuita de primeiras letras, para os dois sexos, que era frequentada por umas 200 crianças.

1777: A igreja do mosteiro de S. Domingos, é completamente devorada por um terrível incêndio; mas foi logo reedificada pelos religiosos.

O mosteiro primitivo tinha sido fundado em 1239.

Durante o cerco do Porto (1833) foi outra vez incendiado, e nunca mais se reedificou.

A cerca e parte do edifício do mosteiro, foram, em 1867, vendidos a diferentes particulares, e no resto do edifício foi instalada, a Caixa Filial do Banco de Lisboa.

1780: Funda-se o hospício de religiosos carmelitas calçados, da invocação de S. Francisco de Paula, em Lordelo. Foi feito à custa das esmolas do povo. Foi vendido depois de 1834, sendo depois propriedade particular.

1783: Funda-se a igreja dos menores (antoninhos) da província da Conceição. Depois de 1834, foi a igreja arrasada; e só dela ficou a sumptuosa capela-mor, de formosa cantaria, mas destelhada e profanada.

O edifício do mosteiro, foi ocupado pelo ateneu portuense, academia das belas artes, museu, e biblioteca pública.

O museu da academia das belas artes, fundado em 1835, tem bastantes objectos de valor, entre eles a espada de D. Afonso Henriques.

A espada, que é de ferro, e sem valor artístico, escapou e veio para aqui, da igreja de Santa Cruz de Coimbra; mas a bainha, que tinha guarnições de prata, foi roubada, assim como a caixa, que era de muito valor; sendo substituída por outra que nada vale.

22 de Fevereiro de 1785: Houve uma grande cheia no Douro, acompanhada de um horrível ciclone do Oeste, ao qual se seguiram mais alguns menos violentos, que causaram grandes estragos nesta cidade.

Estavam então no rio 85 navios portugueses e 33 estrangeiros; muitos dos quais foram arrojados pela barra fora, ou despedaçados contra as rochas das margens.

As águas do Douro alagaram 18 ruas e mais de 1.000 casas.

14 de Junho de 1789: Um galego assassinou sua ama, que era de Braga. Foi logo preso, e no dia 31 do mesmo mês foi logo enforcado, no lugar do delito.

Armou-se a forca na noite de 30, à entrada da rua nova da Neta (viela da neta) do lado do Oeste, onde desembocava a rua do Bonjardim. A cabeça e as mãos do galego ficaram pregadas na forca.

4 de Fevereiro de 1799: Nesta cidade na rua do Calvário, em uma boa casa, que teve os números 35, 37 e 39 – onde esteve instalado o consulado inglês – e que era então da freguesia de Santo Ildefonso, e que depois passou a fazer parte da freguesia de Miragaia – nasceu o famoso poeta, João Baptista da Silva Leitão d`Almeida Garrett, depois feito visconde d`Almeida Garrett.

Era filho de António Bernardo da Silva Garrett, e de D. Ana Augusta d`Almeida Leitão.

Formou-se em direito, na universidade de Coimbra; tornando-se já ali conhecido pelas suas mimosas poesias.

Foi nomeado oficial da secretaria do reino, pelos liberais, em 1820.

Emigrou para a Inglaterra depois da restauração de 1823, e dali foi para França, onde escreveu a Dona Branca e Camões, que o deram a conhecer como elegante escritor.

Tornou para Inglaterra, onde publicou a Adosinda.

Tomou parte nas guerras civis de 1832 a 1834, pelo partido liberal (apesar da sua família seguir toda, opiniões realistas.)

Em 1834, foi encarregado de negócios na Bélgica.

Regressando ao reino, continuou a publicar diferentes obras, todas de grande merecimento.

Foi deputado, e um dos melhores oradores parlamentares – se não o melhor. Foi feito ministro em 1851.

Morreu em Lisboa, a 9 de Dezembro de 1854, na rua de Santa Isabel.

Na casa onde faleceu, colocou-se uma inscrição comemorativa deste facto.

Foi um dos mais elegantes e mimosos escritores portugueses do século XIX, e quer em prosa, quer em verso, as suas obras onde ser lidas sempre com o maior interesse; e o Porto, terá sempre um justificado orgulho de ser a pátria deste ilustre cidadão.

Em 1877, custava a compreender como a cidade do Porto, sempre tão zelosa das suas glórias, ainda não se lembrasse de erigir uma estátua a este seu filho, que tanto a honra e enobrece.

Contentou-se em mandar colocar na frente da casa em que nasceu, uma lápide, de mármore, com a seguinte inscrição:

CASA ONDE NASCEU, AOS 4 DE FEVEREIRO

DE 1799, JOÃO BAPTISTA DA SILVA

LEITÃO D`ALMEIDA GARRETT.

MANDOU GRAVAR À MEMORIA DO

GRANDE POETA

A CAMARA MUNICIPAL D`ESTA CIDADE,

EM 1864.

E, em um dos medalhões, pintados no tecto do teatro de S. João, um busto, que se sabe ser dele, por dizer – Garrett.

Mais brio tiveram os lisboetas, que, em 1868, lhe colocaram um busto de mármore, no teatro normal. (Este busto, estava sobre um pedestal (de tábuas!) no peristilo do teatro, mas foi dali tirado, não se sabendo o que dele fizeram.

Além da Dona Branca e da Adosinda escreveu e publicou – o Romanceiro, o Alfageme de Santarém, o arco de Sant`Anna, o frei Luiz de Sousa, o Auto de Gil Vicente, D. Filipa de Vilhena, a Sobrinha do Marquês, as Folhas Caídas, e as Viagens na Minha Terra – obras de géneros diversos, mas todas de inexcedível elegância.

Não se livrou, porém, do ridículo contágio do século. Depois de ter cruelmente fustigado os barões e viscondes de fresca data (sobre tudo, nas Viagens na Minha Terra) deixou-se também fazer-se visconde de si mesmo -- Mas, sequer ao menos, nem assim morreu o nome do divino Garrett (como muitos o denominam) o que de certo aconteceria se aceitasse o título de alguma aldeola, rua, Quinta, santo, ribeiro, etc. – Este pecado, porém, foi o único que cometeu contra o bom senso; e a posteridade lhe perdoará, em atenção aos imensos serviços que fez ás letras pátrias.

9 de Agosto de 1799: Entram os primeiros enfermos em o novo hospital da Misericórdia, da Cordoaria. (Vide o ano de 1770)

1799: Neste ano foi criado; o tribunal do Proto-medicato, o papel-moeda e o papel-selado.

30 de Novembro de 1801: Nasce nesta cidade, José Ferreira Pinto Basto, que faleceu na sua Quinta da Fója, em 26 de Junho de 1875.

15 de Agosto de 1806: A comunicação entre a cidade do Porto e Vila Nova de Gaia, fazia-se antigamente por meio de barcas, de construção adequada ao transporte das diversas mercadorias.

O primeiro projecto duma semelhante obra deve-se ao Corregedor Francisco de Almada e Mendonça, o grande Almada a quem o Porto tanto deve. E se ele não levou por diante o seu intento foi apenas por Ter concebido uma empresa mais grandiosa, qual era a construção duma ponte de pedra que ligasse a Porta do Sol à Serra do Pilar. O respectivo projecto chegou a ser delineado pelo engenheiro Luís Ferreira da Cruz Amarante.

A instâncias das autoridades da cidade do Porto, o governo mandou construir uma ponte de madeira sobre barcas, ligadas com amarras de ferro; e abriu-se ao trânsito público a 15 de Agosto de 1806, dia de Nossa Senhora do Pilar, que se venera e festeja no templo da Serra do Pilar.

Esta ponte, porém, a 29 de Março de 1809, por ocasião da entrada do general Soult, no Porto, partiu-se e submergiu-se em parte no Douro, com 4.000 indivíduos que fugiam da cidade. Os primeiros que poderam então alcançar a praia de Vila Nova, tinham deixado abertos os alçapões da ponte, para evitar a perseguição dos franceses, e os que lhes sucederam, ignoravam essa circunstância.

Por isso todos os anos, a 29 de Março saia em procissão a irmandade de S. José das Taipas, e acompanhada de muitos padres, se dirigia àquele local, para sufragar pelas Almas da Ponte.

Restaurada pelos franceses, foi também por eles destruída, por meio duma explosão de barris de pólvora, no dia 12 de Maio, quando abandonaram a cidade. No dia seguinte, a Câmara mandava-a reparar com urgência e tão depressa correu a obra que ficou concluída no prazo de 48 horas.

Mais tarde, em 1830, pensaram os senhores do Senado em mudá-la para defronte da Rua Nova de S. João, o que propuseram ao Governador das Justiças. Tal desejo deu origem a séria controvérsia, arrastando-se a discussão durante anos.

Apesar da controvérsia construiu-se outra de melhor plano, e com mais solidez do que a velha; mas, em consequência das cheias periódicas do Douro, todos os anos tinha de ser desarmada mais de uma vez, para se evitar que a corrente a levasse; e aí ficava interrompida a comunicação entre as duas margens do rio.

Para evitar este mal, lembrou-se o governo de mandar construir uma ponte pênsil.

PONTE PÊNSIL

Em 1837 fez o governo um contrato com o Sr. Claranges Lucotte, para uma empresa de construção da estrada de Lisboa ao Porto, e de uma ponte sobre o rio Douro, na cidade do Porto, segundo o sistema de suspensão em ferro, etc. E esse contrato, aprovado por carta de lei de 7 de Abril, foi ratificado por escritura de 5 de Maio do mesmo ano.

A empresa Clarenges Lucotte & C.ª, apresentou para as obras da ponte dois projectos, dos quais nenhum foi levado à execução. O primeiro desses projectos, elaborado pelos engenheiros Mellet e Bigot, adaptava-se ao prolongamento da rua de S. João, do Porto, e à rua direita de Vila Nova de Gaia.

Como sempre tem sucedido, não faltou o protesto da massa anónima, naquela manifestação de derrotismo – a critica é fácil... – que era filha da ideia nova desse tempo e que passou a traduzir uma característica da gente lusa. Assim, em 1839 foi recebido na Câmara um parecer subscrito por um Amigo do Bem Público, no qual se demonstrava quanto era prejudicial a construção dum pé-direito – ou pegão, como hoje se diria – que se projectava firmar a meio do rio, para servir de apoio ao tabuleiro da ponte. O remate desse protesto é um desabafo de bom patriota.

Livre-nos Deus de coisas estrangeiradas, que todas têm concorrido para a ruína dos portugueses! – Escrevia O Amigo do Bem Público.

Ouvido sobre o assunto o inspector geral das obras públicas do reino, Luís da Silveira Mousinho de Albuquerque, concordou em que a ponte seria construída pelo lado superior do local, onde estava a ponte das barcas, uns 80 metros.

A 2 de Maio de 1841, foi lançada a primeira pedra; em 4 de Janeiro de 1843, fez-se a primeira experiência com pipas cheias de água, enfileiradas aos lados, experiência que durou dezasseis horas, sem que se notasse a mais pequena alteração; inesperadamente a 17 de Fevereiro desse mesmo ano, foi a ponte aberta definitivamente ao serviço público.

Uma cheia imprevista foi a causa próxima de tal facto, como se lê, em notícia com a data desse dia, no Periódico dos Pobres. A notícia é assim redigida:

«O Rio Douro promete grande cheia, hoje pouco deu por maré: a Ponte das Barcas tirou-se, e segundo nos conste pela última vez; a Ponte Pênsil já se acha aberta ao trânsito público.»

Nem mais uma palavra: em poucas linhas, o público da época ficou a saber que já podia servir-se da ponte.

Durante o dia, eram em subido número as pessoas que atravessavam a Ponte Pênsil, segundo as notícias do tempo.

Mas desde o anoitecer ao cantarolar dos galos, contavam-se pelos dedos as pessoas que pagavam os cinco réis da tabela. Só o faziam os passageiros do combóio correio e, uma vez por outra, quem se aventurava a demorar na cidade até acabar o espectáculo favorito.

Quem vinha do Sul corria algumas léguas estiradas ao longo da costa, usufruía o raro privilégio de poder admirar um poente sobre o mar e acabava por ser assaltado por um bando de gaiatos sujos que se agarravam ás malas, tão depressa rangiam os freios do combóio na estação de Vila Nova. Era ai o termo da viagem pela via férrea.

Disputava-se depois um lugar na diligência, acomodando-se cada um como podia entre as malas, os sacos e os caixotes. Os cavalos escorregavam ao longo duma ladeira, atravessava-se a ponte mal alumiada por lampiões mortiços – e entrava-se na cidade aos solavancos. Era finda a viagem, salvo para aqueles a quem estava ainda reservada a aventura duma caçada ao percevejo, em qualquer das hospedarias baratas. Foi isso o que sucedeu, por exemplo, a Lady Jackson, autora da A Formosa Lusitânia. Esta senhora procurou defender-se de tal inimigo por um processo assaz recomendável, numa terra como a nossa: bebeu nada menos de meia garrafa de vinho do Porto. Aí vai o comentário de Camilo à margem de tal confissão: Costumes ingleses; nova receita contra percevejos.

Lembremos agora, aquela noite em que a ponte pênsil era mais utilizada, no decorrer de todo o ano, ou seja, por altura da romaria à Senhora do Pilar.

Nesse dia de festa, muitas famílias do Porto, iam visitar os seus conhecidos de além-rio.

Partiam de tarde, bem jantadas, e demoravam-se por Vila Nova até altas horas. A expressão, nesse tempo, correspondia ás nove da noite, -- que era a hora do chá. Conversava-se ainda um pouco e, por fim, vinha o criado, de marmeleiro rijo para o que desse e viesse. Feitas as despedidas, lá ia o criado à frente, de lampião aceso, muito solicitado por todos para lhe alumiar o caminho. Conta esse mestre das letras, Alberto Pimentel que «a passagem na ponte, de cuja segurança se desconfiava, não era agradável. As amarras rangiam. Em baixo o Douro parecia um mostro negro, à espera de vítimas. E os arcos da Ribeira, escuros, cheios de sombras, só mortiçamente alumiados no sítio onde estavam os painéis das almas, entristeciam a gente ainda mais.

Quando uma pessoa chegava à rua de S. João, melhor iluminada, não cabia na pele de contente – comenta um cronista.

"Um pensamento egoísta passava pelo espírito de todos:

" Desta me vi eu livre !".»

Descrição da ponte a quando da sua inauguração:

Eleva-se 10 metros sobre o rio, tem de comprimento 170,14 metros e de largura 6 metros com passeios aos lados, de largura de 1 metro cada um; e descansa sobre quatro obeliscos de pedra, de 18 metros de altura, dois de cada lado.

Sobre estes obeliscos, ligados superiormente por uma lâmina de ferro, na qual se lê: «D. Maria II – 1842», e tudo também com pequenas lâminas de ferro fundido, os nomes dos engenheiros e dos empresários, são coroados por capiteis de ordem dórica, em que descansam acrotérios sustentando esferas de bronze de 1,1 metro de diâmetro.

O pavimento da ponte está suspenso de oito amarras, quatro por banda, feitas com duzentos e vinte fios de ferro cada uma. Os fios não são torcidos, estendem-se inteiros de lado a lado, reunidos em forma cilíndrica, por ligaduras também de fio de ferro muito rijo. E essas amarras, passando por cima dos obeliscos, vão entrar em poços abertos verticalmente na rocha viva, com a profundidade de 8 metros do lado da cidade do Porto e de 14 metros do lado de Gaia. Cada amarra pesa seis mil quilogramas.

As guardas dos lados são feitas de troncos quadrados de carvalho, de 1,50 metro de comprimento, dispostas em cruz e solidamente pregadas ao solho da ponte.

Como a construção da ponte foi feita por uma companhia, esta recebia os rendimentos da ponte, que resultam do preço da passagem dos transportes, veículos, etc.

Os preços eram; 5 réis cada pessoa; 20 réis cada cavalo; e 200 réis cada carruagem. (De noite era o dobro.)

O contrato terminou em 1876, tomando o governo conta da ponte.

1807: O comércio, a agricultura, a industria e as artes, prosperavam no Porto e seus arredores, e a actividade e amor ao trabalho, dos seus habitantes, a tinham tornado uma cidade florescente; mas a ambição, a prepotência e a má fé de Napoleão I, lançaram Portugal em um abismo de desgraças.

Bonaparte, e Carlos 4.º, de Espanha, exigem que Portugal feche os seus portos aos ingleses; que lhes sequestre as suas propriedades, e os prenda. O governo do príncipe regente (depois D. João 6.º) consente na primeira condição, porém, recusa anuir à segunda e terceira.

Napoleão e Carlos 4.º, assinam em 27 de Outubro, o tratado secreto, de Fontainebleu, pelo qual excluíam do trono português a casa de Bragança, e Portugal, do mapa das nações.

Junot, com 30.000 franceses, e 15.000 espanhóis, invade Portugal, sem prévia declaração de guerra, e sob o pretexto de nos virem libertar do jugo britânico; mas só com o fim de nos reduzirem à nulidade, e de se apoderarem da família real.

Junot chega à vila de Abrantes, a 24 de Novembro, e o príncipe regente, tendo notícia deste escandaloso atentado contra o direito das nações, e tendo o seu exército em péssimo estado de organização e força, toma a triste resolução de fugir para o Brasil, com toda a corte, abandonando os portugueses ás atrocidades inauditas das hordas napoleonicas, e de seus lacaios espanhóis. Em 26, nomeia uma coisa a que chamou conselho da regência, para governar o reino durante a sua ausência. Este conselho, que era composto de cinco membros, tomou conta do governo, logo no mesmo dia 26; mas, apenas governou três dias; porque Junot, logo que chega, principia a legislar em nome de Bonaparte, sem fazer caso dos governadores.

A 27, embarca toda a família real e a corte, e a 29, sai a barra de Lisboa – entrando nesta cidade, e logo no dia 28, Junot e os seus esfarrapados e descalços soldados; de modo que o príncipe regente e os seus companheiros na fuga ignóbil, assistiram de bordo, à entrada triunfal dos soldados de Bonaparte.

A esquadra que levou esta gente para o Brasil, constava de oito naus de guerra e várias outras embarcações de menor lote, que chegaram ao Rio de Janeiro, em cuja baía quase todas apodreceram.

Em 13 de Dezembro, entra no Porto o capitão-general da Galiza, Francisco Taranco, com os 15.000 espanhóis que vinham a acompanhar os franceses, neste mesmo dia é arriada a bandeira portuguesa em todos os castelos e estabelecimentos públicos, sendo substituída pelo ignóbil Dindon (Dindon – Peru -- era o nome que, por escárnio, se dava à águia de Napoleão.)

Logo a 19 de Dezembro, e por ordem de Junot, são sequestradas todas as propriedades, móveis e imóveis, dos ingleses.

A 22 do mesmo mês de Dezembro, é licenciado o exército português.

1 de Fevereiro de 1808: Junot organiza em Portugal uma regência em nome de Bonaparte, que se intitula – Imperador dos franceses, rei de Itália e protector da confederação do Reno, etc., etc.

Junot fez-se presidente de tal regência da qual nomeou vogais, quatro chamados portugueses -- o conde da Ega, Francisco Rafael de Castro, o conde de S. Paio, e Pedro de Melo Breyner.

Esta regência, estreia-se, logo no dia 1 de Fevereiro, publicando o decreto de Napoleão, que impõe a Portugal um tributo de 100 milhões de francos (16.000 contos de réis – ou 40 milhões de cruzados.)

O exército português é desarmado e mandado para França.

Vários fidalgos são intimados para irem também para França, e bastantes para lá marcharam espontaneamente a prestar homenagem a Napoleão!

Como se vê, sempre ouve portugueses que de portugueses, só tinham o nome.

Bonaparte prende à traição o rei espanhol Carlos 4.º, e a sua família; pelo que, os lacaios espanhóis se levantam contra os franceses, e Francisco Taranco, com a sua divisão, abandona o Porto em 6 de Junho, e marcha para Castela, a unir-se ás tropas do seu país.

Logo a 18 de Junho, os portuenses secundam o grito de liberdade dado pelos TRANSMONTANOS, aclamando a autonomia e independência de Portugal, a rainha, D. Maria I, e o príncipe regente, tomando armas contra os invasores da sua pátria.

Os Perus de Bonaparte são arriados das nossas fortalezas, e as sagradas QUINAS de Portugal flutuam de novo, por quase todo o país.

A 19 de Junho, forma-se no Porto a Junta Suprema do Governo do Reino.

O exército português reorganiza-se. Os ingleses vêm em nosso auxílio, e a convenção de Cintra (a 30 de Agosto) obriga a sair de Portugal o ímpio Junot e as suas hordas de bestas, carregados de roubos, e deixando este país completamente desbastado.

1809: Quase sete meses esteve Portugal livre da opressão, rapacidade e tiranias dos escravos de Napoleão; mas este, desesperado pelo mau sucesso das suas armas, na Península Ibérica; manda Soult ( que ele havia intitulado duque de Dalmacia) sobre Portugal, com um exército de 30.000 homens.

Soult, depois de Ter derrotado na Galiza, o exército anglo-espanhol, e tomado Corunha, a 20 de Janeiro, fazendo embarcar os ingleses (que perderam o seu general Moore) ocupa a cidade de Tui, em 20 de Fevereiro. Atravessa o rio Minho, em frente da nossa praça de Valença, e ocupa Braga, a 20 de Março.

O Porto estava defendido por 24.000 homens, comandados pelo seu bispo; mas a maior parte desta gente consistia em milicianos, ordenanças, guerrilheiros e voluntários, todos sem instrução militar, e quase todos indisciplinados. Também havia 200 bocas de fogo, mas pessimamente servidas. A cidade estava cercada por uma linha de trincheiras, com alguns redutos, mas tudo feito à pressa, e, por consequência, de quase nenhum valor para a defesa; jamais, contra tropas acostumadas à guerra, bravas e rigorosamente disciplinadas.

Soult apresenta-se à frente da cidade, e dá o primeiro ataque no dia 27 de Março, sendo rechaçado. O mesmo lhe acontece no dia seguinte; mas, no dia 29, a falta de armas, a má direcção da defesa, e sobretudo, a falta de munições em muitos pontos, obriga os defensores da cidade a abandonarem as trincheiras, e a retirarem em desordem, para a margem esquerda do Douro, levantando o alçapão da ponte de barcas que dava ingresso à cidade.

A maior parte da população do Porto, abandonou a cidade, seguindo o caminho da tropa; mas, na precipitação da fuga, e ignorando que a ponte estava cortada, caiu ao rio um grande número de pessoas, de todos os sexos e idades, que se calcula em mais de 4.000.

Quarenta e cinco dias estiveram os franceses senhores do Porto, durante os quais, roubaram tudo a quanto poderam lançar as garras, tanto nas igrejas e mosteiros, como em outros edifícios públicos e particulares.

O exército português, apoiado pelos ingleses, ás ordens de Sir Arthur Wellesley (depois lorde Wellington) marcha sobre o Porto, de onde expulsa os franceses, em 12 de Maio.

Os aliados perseguem o inimigo, com tanto arrojo, que a 17 de Maio, se viu Portugal, pela Segunda vez, livre de esta praga terrível, que nos deixou até 26 de Agosto de 1810.

Foi neste ano de 1809: que D. Francisca Paula da Conceição Grelho e Sousa, mulher do Dr. José Teixeira de Sousa, fundou o recolhimento de Nossa Senhora das Dores e S. José, das meninas desamparadas, do Postigo do Sol.

19 de Fevereiro de 1810: O príncipe regente, assina, no Rio de Janeiro, dois tratados de paz, aliança e comércio, com a Grã-Bretanha, que feriram mortalmente o comércio e a industria de todo o país, em geral, e do Porto em particular.

Neste ano de 1810: O general francês Massena invade Portugal, pelo Riba-Coa (Beira-Baixa) com um exército de 120.000 homens, e nos toma a praça de Almeida, cujas fortificações tinham voado, com a explosão do paiol da pólvora, em 27 de Agosto.

Estes invasores tiveram várias escaramuças com as nossas tropas; mas, em 26, 27 e 28 de Setembro deste ano de 1810, foram os franceses derrotados nas gloriosas batalhas do Bussaco; e, depois de várias alternativas – quase sempre desastrosas para o inimigo – é Massena, e os seus, expulsos de Portugal, para sempre; entrando em território espanhol, a 4 de Abril.

Nesta campanha teve o Porto a ventura de escapar ás crueldades dos abutres, porque a guerra se localizou nas províncias do Sul.

12 de Janeiro de 1811: D. João VI concede o tratamento de senhoria ao chanceler da Relação e da casa civil do Porto.

1816: Principia a abertura da rua que vai da rua do Rosário à alameda de Massarelos. Chamou-se, até 1832, rua de D. Miguel Primeiro, e depois rua da Restauração.

1817: D. António de Amorim, manda construir, na Praça Nova, depois de D. Pedro, e hoje da Liberdade (ainda hoje à gente que diz -- o cavalo da Praça Nova) os paços do senado da Câmara do Porto.

Era um edifício bastante modesto, para a segunda capital do reino. «Tem sobre o tímpano a estatua, de pedra, de um guerreiro, representando o Porto. Tem na mão direita uma lança, e a esquerda descansa sobre um escudo, com as armas da cidade.»

Em 1868 a Câmara comprou uma grande casa, imediata, para ampliar o edifício; mas, em 1874, ainda não tinham principiado as obras.

No seu cartório, à documentos originais do século XIII.

O seu livro das vereações, da era 1424 de César (1390 de Cristo) é de papel de algodão – o primeiro que se fabricou em Portugal, desta matéria.

2 de Maio de 1819: Abre-se o testamento de mão comum, feito por Francisco António Rebellier e por sua mulher Inácia Maria, e por esse testamento é fundado o recolhimento de Nossa Senhora das Dores, das viuvas pobres, depois chamado – do Camarão, por ficar no largo deste nome.

Os testadores lhe deram regimento; e entregaram a sua administração, à Santa Casa da Misericórdia – e, se esta não quisesse aceitar – à ordem terceira de S. Francisco; depois, à ordem terceira do Carmo – e depois, à do Terço e Caridade.

Principiou este recolhimento, da seguinte maneira:

Os fundadores, com dinheiro seu, e com esmolas que solicitaram, instituíram, em 1807, na viela então chamada das Oliveiras – e depois – de Nossa Senhora das Dores (em atenção à padroeira da capela) um recolhimento, para viuvas, velhas e desamparadas, que não tivessem abrigo. Construíram um dormitório, com 16 camas – uma sala, para refeitório – e uma capela, para se dizer missa ás recolhidas.

Em 27 de Maio de 1843, João Pereira Baptista Vieira Soares, então administrador do bairro de Santa Catarina, deu novo regimento a este instituto; mas, por alvará do governador civil, de 14 de Outubro de 1867, foi novamente entregue a administração do recolhimento à Santa Casa.

As Velhas do Camarão foram transferidas para o novo edifício, construído modernamente na rua dantes chamada – do Regato, e depois das Fontaínhas. Onde estavam também as velhas da Cordoaria, as entrevadas, os lázaros e as lázaras; mas tudo em casas separadas uma das outras por paredes divisórias.

O edifício do antigo recolhimento, era ao fundo do largo do Camarão, e à entrada da viela de Nossa Senhora das Dores. Ficava na retaguarda do recolhimento das órfãs de S. Lázaro, e próximo do passeio público do mesmo nome.

Em 1872, alguns especuladores, tomaram-no de aluguer à Santa Casa, para nele estabelecerem uma casa de bailes populares; porém, o governador civil, não lhes deu a indispensável licença, e continuou, portanto, a ficar desabitado.

Em 1877, continuava abandonado.

REVOLUÇÃO DE 1820

24 de Agosto de 1820: Tem lugar no Porto a revolta que aclama a (futura) constituição, por isso chamada de 1820.

A guarnição militar da cidade constava dos – regimentos de artilharia n.º 4, dos de infantaria n.º 6 e 18, da guarda real da polícia do Porto (que eram três companhias de infantaria e uma de cavalaria) e dos regimentos de milícias do Porto e da Maia.

Estes corpos reuniram-se no vasto Campo de Santo Ovídio (ao qual, desde 1834, por este facto, se deu o nome de Campo da Regeneração) – Ainda hoje à muita gente que lhe chama Campo.

Formaram aqui, pelas cinco horas da manhã, e, depois de aclamarem a constituição, que se havia de fazer, ouviram missa, que lhes disse o capelão do regimento de artilharia n.º 4, em altar, levantado no centro do campo.

Ao erguer a sagrada hóstia, todos juraram, com grande entusiasmo, defender a constituição proclamada, ao som de uma salva de 21 tiros de artilharia.

Os cidadãos que promoveram esta revolução, foram:

Manuel Fernandes Tomás, desembargador da relação do Porto.

José Ferreira Borges, advogado.

José da Silva Carvalho; juiz dos órfãos do Porto.

João Ferreira Viana, negociante.

Estes quatro indivíduos, tinham formado a associação de 22 de Janeiro de 1818, já com o fim de proclamarem uma constituição. Depois, se lhes reuniram mais:

Duarte Leça, proprietário; em 10 de Fevereiro de 1818.

José Maria Lopes Carneiro, proprietário; no mesmo dia.

José Gonçalves Santos Silva, negociante; em 3 de Maio do mesmo ano.

José Pereira de Menezes, advogado; em 6 de Julho do mesmo ano.

Francisco Gomes da Silva, médico do exército; em 26 de Maio de 1820.

João da Cunha Sotomaior, desembargador da relação do Porto; no mesmo dia, mês e ano.

José de Melo e Castro de Abreu, coronel de milícias do Porto; em 5 de Junho do mesmo ano.

José António Xavier de Araújo; em 22 do mesmo mês e ano.

Bernardo Correia de Castro Sepulveda, coronel do regimento de infantaria n.º 18; no mesmo dia.

Domingos António Gil de Figueiredo Sarmento, tenente coronel de infantaria n.º 6; no mesmo dia.

José Pereira da Silva Leite Berrêdo, tenente coronel da guarda real da polícia do Porto; no mesmo dia.

José de Sousa Pimentel de Faria, major do regimento de milícias do Porto; no mesmo dia.

José Pedro Cardoso da Silva, major do regimento de milícias da Maia; no mesmo dia.

Tiburcio Joaquim Barreto Feio, ajudante do regimento de milícias da Maia; no mesmo dia.

Forma-se no Porto uma comissão, denominada Governo provisório, composta dos seguintes indivíduos:

António da Silveira Pinto da Fonseca, coronel de milícias – presidente.

Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, coronel de infantaria – vice-presidente.

MEMBROS

Bernardo Correia de Castro Sepulveda, coronel de infantaria.

Manuel Fernandes Tomás, desembargador da relação do Porto.

João da Cunha Sotomaior, idem.

João Pedro de Andrade Brederode, deão da Sé do Porto.

Pedro Leite de Melo, fidalgo da casa real.

Francisco de Sousa Cirne de Madureira, idem.

Frei Francisco de Sousa, monge beneditino.

Francisco José de Barros Lima, negociante.

José Manuel de Sousa Ferreira Castro, proprietário.

Roque Ribeiro Abranches Castelo Branco, proprietário.

José Joaquim Ferreira de Moura, bacharel em direito.

SECRETÁRIOS

José da Silva Carvalho.

José Ferreira Borges.

Francisco Gomes da Silva.

Os militares que nas províncias anuíram logo à revolução, foram:

Gaspar Teixeira de Magalhães e Lacerda, (depois visconde do Peso da Régua), marechal, e governador das armas da província do Minho.

António Lobo Teixeira de Barros, coronel de infantaria n.º 9.

Francisco António Pamplona Moniz, coronel de caçadores n.º 11.

António Barreto Pinto Feio, tenente coronel das milícias de Feira.

As tropas da guarnição do Porto, assim como as do Minho, e Trás-os-Montes, anuem à revolução.

Pede-se a convocação das cortes, o regresso de D. João 6.º (que ainda se mantinha no Rio de Janeiro com a sua família) e a expulsão dos oficiais ingleses, do exército português.

A regência do reino (em Lisboa) nomeada pelo rei – proclama ao povo, contra a revolução do Porto, e dá algumas outras providências.

As tropas revoltadas marcham sobre Lisboa. A regência, manda o conde de Barbacena, com uma divisão, contra aquelas, mas não passou de Leiria; porque, tendo lugar a revolução, em Lisboa, a 15 de Setembro, no sentido da do Porto, as tropas do governo são mandadas recolher à capital.

A regência é dissolvida, organizando-se em seu lugar uma Junta do governo do reino.

São convocadas as cortes dos Três Estados do reino.

O Governo provisório, do Porto, pretende dominar exclusivamente a situação: mas, por fim, veio a um acordo com a Junta do governo, de Lisboa, e, no dia 1 de Outubro, de ambos estes corpos, se escolheram indivíduos para a formação da Junta provisional do governo supremo do reino.

Esta junta ficou composta de homens animados de bons desejos, e bons patriotas, mas não estavam à altura da missão espinhosa de que os encarregaram.

O conde de Palmela (depois marquês, e por fim duque do mesmo titulo) que foi por muitos anos a alma do partido Liberal – dizia desta junta:

«O que distingue esta revolução, como a mais asnática de que se conserva memória, é o não ter objecto algum, e limitar-se a tirar do governo três ou quatro homens medíocres que nele se achavam, para os substituir por outros que tais, ou ainda piores.»

Todo o exército português anuiu de bom grado a esta resolução, para não ser governado por oficiais estrangeiros; pois que, desde o tempo do marechal Beresford, quase todos os oficiais superiores do nosso exército eram ingleses. – Todos os generais do nosso exército, todos os comandantes dos corpos, e grande número de oficiais, eram ingleses. Os portugueses, ou estavam em comissões, ou ás ordens dos ingleses, ou em outros quaisquer empregos, sob especiosos motivos, que os separassem do exército.

A maior parte do povo português, como o governo continuava a ser monárquico, na dinastia de Bragança – como os Três Estados eram convocados, segundo a antiga prática – como a religião católica apostólica romana, continuava a ser do estado – e, como esta revolução não teve perseguições, mortes e atrocidades, apêndice desgraçado de quase todas as convulsões políticas – anuiu facilmente à mudança de coisas: apenas alguns nobres se recusavam a prestar juramento à constituição; mas dos titulares, que estavam em Portugal, só a não quiseram jurar, os condes de Palmela (citado acima) e de Linhares.

O marechal Beresford, vai ao Rio de Janeiro, na esperança de D. João 6.º anular todos os actos praticados pela junta provisória do governo supremo do reino; mas é intimado pelo governo para não desembarcar; pelo que se dirige a Londres, sem voltar a Portugal.

Os oficiais ingleses são excluídos do exército nacional.

O governo (a junta) adoptando como norma a constituição espanhola de 1812, muda de programa, e em vez das cortes dos Três Estados, que havia prometido, ordena que se convoquem cortes gerais extraordinárias e constituintes – as quais se abrem, em Lisboa, a 26 de Janeiro de 1821, assumindo poderes soberanos e denominando-se – Soberano e augusto congresso nacional; e, logo a 31, publicou um decreto para que o poder executivo fosse exercido pela Regência do reino, em nome do rei, o Sr. D. João 6.º.

O rei, os príncipes e a corte, juraram, no Rio de Janeiro (26 de Janeiro de 1821) a constituição que as cortes ainda hão de fazer, em Lisboa.

No mesmo dia, o rei declara que regressa.

As cortes mandam jurar as bases da constituição, em 29 de Março; mas o patriarca recusa-se a prestar este juramento, pelo que é desterrado para o Bussaco, e de lá para França. – Este patriarca, era D. frei Patrício da Silva, nascido na casa do Camarnal, da aldeia dos Pinheiros, freguesia de Marrazes, província de Leiria.

Foi o 7.º cardeal patriarca de Lisboa.

21 de Abril de 1821: Teve lugar, no Rio de Janeiro, a revolução que pedia uma constituição semelhante à espanhola, de 1812.

Esta revolta foi principiada pela tropa portuguesa, do comando do brigadeiro Carreti.

D. João 6.º anuiu a esta revolta; mas, logo no dia seguinte (22 de Abril) à uma contra revolução, que anulou tudo o que se fizera na véspera. O rei anui a isto! (Estava por tudo o marido de Carlota Joaquina.)

Neste mesmo dia, o rei entrega o governo do Brasil ao Sr. D. Pedro, com o titulo de príncipe regente, lugar tenente del-rei, no governo provisório do reino do Brasil – enquanto se não publicasse a constituição.

Nomeia, também nesse dia, um ministério, para governar com o príncipe; e, logo a 25, embarca com a família real (menos o Sr. D. Pedro e sua família) e no dia 26 se faz de vela para Portugal, chegando a Lisboa a 3 de Julho.

As cortes proíbem o desembarque de alguns indivíduos do séquito do rei, sendo um deles o conde de Palmela. – A 10 de Julho, permitiu-se o desembarque destes indivíduos, sob a condição de irem residir a 20 léguas de Lisboa.

Logo no dia imediato (4 de Julho) o rei, perante as cortes, ratifica o juramento de fidelidade à constituição (que ainda estava por fazer!) e tomando conta do governo (de poder moderador) dissolve a regência e forma novo ministério.

15 de Setembro de 1821: O rei D. João 6.º e os infantes vão ao Rossio, lançar a primeira pedra no monumento constitucional.

A província de S. Tomé e Príncipe, tinha proclamado as bases da constituição, em 9 de Julho; e a cidade de Goa, faz a mesma proclamação, a 16 de Outubro.

O Sr. D. Pedro, tendo grandes desinteligência com o general, Jorge de Avilez, pede no dia 21 de Setembro, licença ao rei e ás cortes, para regressar ao reino, demitindo-se da regência do Brasil.

29 de Setembro de 1821: As cortes dissolvem a regência do Brasil, mandando que o príncipe recolha ao reino, e nomeando, em lugar da regência, governos provisórios.

9 de Novembro de 1821: As cortes anulam as promoções que o rei havia feito no exército, em 21 de Julho.

24 de Novembro de 1821: Mandam-se tropas a reforçar as do Brasil.

9 de Dezembro de 1821: São mandados generais, para o governo das armas das diferentes províncias brasileiras.

Nesse mesmo dia 9 de Dezembro, recebe o Sr. D. Pedro o decreto das cortes, que o manda recolher ao reino, e no dia seguinte, o príncipe escreve a seu pai, dizendo que «ia cumprir as ordens do soberano congresso» e entregar o governo do Brasil.

9 de Janeiro de 1822: O Sr. D. Pedro muda de parecer, declarando que fica no Brasil, apesar das insistências de Jorge de Avilez, para que ele cumprisse as ordens do rei e das cortes.

11 de Janeiro de 1822: Os brasileiros opõem-se à saída do príncipe, havendo grandes tumultos e desgraças no Rio de Janeiro.

O Sr. D. Pedro arma os brasileiros contra as tropas portuguesas, e manda intimar Jorge de Avilez para ir com as suas tropas para a Praia Grande, e dali os obriga a marcharem para o reino, o que fizeram a 15 de Janeiro.

Jorge de Avilez portou-se, nesta conjuntura, como um português leal; mas faltou-lhe a energia, porque, com 4.000 homens do general Lecor, com os três batalhões que estavam no Rio de Janeiro, com um que estava na Baia, e com outro que estava em Pernambuco – tinha forças mais que suficientes para conter em respeito os brasileiros.

6 de Março de 1822: As peças de ouro, que até então valiam 6$400 réis, passam a valer 7$500 réis.

3 de Junho de 1822: As províncias brasileiras, do Pará, Maranhão, Pernambuco, Baia, Mato grosso, S. Pedro do Sul e outras, tinham recebido os governadores nomeados pelas cortes liberais portuguesas; porém o Senhor D. Pedro, convoca uma assembleia constituinte para o Brasil, em oposição à do Reino Unido, de Portugal, Brasil e Algarve.

24 de Junho de 1822: As cortes decretam e o rei sanciona o decreto, que dá por nulos todos os actos do governo brasileiro; determinando que o Sr. D. Pedro recolha a Lisboa, sob pena de incorrer nas penas prescritas na constituição, para o rei ou seu sucessor, que sair do reino, sem autorização das cortes.

1 de Agosto de 1822: O Sr. D. Pedro, em desforra ao decreto de 24 de Junho, declara inimigas as tropas portuguesas, mandando ás autoridades brasileiras, «que lhes façam guerra de extermínio.»

6 de Agosto de 1822: O Sr. D. Pedro faz ás nações um manifesto contra Portugal, no qual era atrozmente caluniada e insultada a nação portuguesa.

As cortes publicam decretos sobre decretos, contra o Sr. D. Pedro e os seus partidários – do que eles não fazem caso nenhum – e alguns deputados falam com maior severidade contra o príncipe.

Setembro de 1822: Chega ao Rio de Janeiro a brigada portuguesa que ia render a de Avilez (que já tinha sido expulsa). O Sr. D. Pedro, não lhe permitiu o desembarque; porém, mandou convidar as praças de pré, para ficarem no Brasil, sob promessa de lhes dar em pouco tempo as suas baixas, e terrenos para cultivarem.

Anuíram 590 a este convite, mas, sabendo que o Sr. D. Pedro queria separar o Brasil de Portugal, arrependeram-se de terem aceitado. Então disseram-lhes que o intendente estava autorizado a passar-lhes guias para o reino, pelo que eles foram todos para a porta daquele magistrado, à espera das suas guias.

30 de Setembro de 1822: Foi neste dia que o Sr. D. Pedro, mandou reunir as tropas brasileiras, e chibatar cruelmente, e na sua presença, os 590 portugueses arrependidos, morrendo muitos neste suplício.

12 de Outubro de 1822: O Sr. D. Pedro aclama a independência do Brasil, e toma o titulo de imperador constitucional, e defensor perpetuo do Brasil, e a Senhora Dona Maria Glória, o de princesa imperial, e é declarada, pela constituição brasileira, herdeira presuntiva da coroa do império; pelo que deixou o seu titulo de princesa da Beira.

2 de Dezembro de 1822: A Senhora Dona Maria Glória, com o nascimento do príncipe D. Pedro (depois II) muda o titulo para princesa do Grão Pará.

17 de Dezembro de 1822: As cortes portuguesas continuavam a legislar para o Brasil, como se ainda fosse uma colónia portuguesa, e neste dia, decretam uma regência para o Brasil.

O Sr. D. Pedro, despica-se, decretando carta de corso contra o pavilhão português, e contra as propriedades, públicas e particulares dos portugueses, no Brasil e seus mares.

As cortes declaram rebeldes as províncias brasileiras que obedeciam ao governo do Sr. D. Pedro.

Janeiro de 1823: O Maranhão e outras províncias brasileiras, juram a constituição portuguesa e recusam receber ordens do Rio de Janeiro.

O general francês Labatour, ao serviço do Sr. D. Pedro, manda fuzilar os soldados portugueses, e muitos paisanos, chibatar outros, e encheu as enxovias brasileiras de portugueses, fazendo-os sofrer a fome e outras crueldades. O povo é que pagava os desmandos dos poderosos.

7 de Janeiro de 1823: O governo português manda uma esquadra, composta da nau D. João VI, três fragatas de guerra, e 22 vasos de diferentes lotações(brigues, escunas, charruas e navios de transporte) com 12.000 homens de desembarque, para reconquistar o Brasil.

Esta divisão embarcou em Lisboa, mas em razão do temporal medonho e grande enchente que então houve, só pôde sair a barra no dia 15, chegando à Baia a 2 de Abril.

3 de Maio de 1823: As tropas brasileiras atacam a cidade da Baia, sendo rechaçadas, com grandes perdas, pelas tropas portuguesas aí desembarcadas.

3 de Junho de 1823: Novo ataque das tropas brasileiras, sendo novamente rechaçadas.

2 de Julho de 1823: Os chefes da expedição (Madeira e João Felix) desembarcada na Baia, não recebendo reforços nem mantimentos da metrópole, e ainda menos do Brasil, decidem, em conselho, retirar para Portugal, o que se faz neste dia.

A divisão portuguesa sofreu grandes privações na Baia, passando a farinha de pão e carne seca.

Cada libra de carne de vaca, custava 800 réis; de toucinho, 480; de farinha de pau, 400; de arroz, 400. Uma galinha custava 4$800 e 5$000 réis; um ovo, 100; uma libra de pão 600.

A nau Cão, a fragata Dona Maria da Glória, e outros vasos de guerra brasileiros, perseguiram a nossa esquadra, durante os primeiros dias de viagem, e até ás alturas das Ilhas de Cabo Verde, chegando a aprisionar alguns navios mercantes, que abandonaram, depois de os terem desmastreado. Não aprisionaram nenhum de guerra.

2 de Setembro de 1823: A nossa esquadra fugida da Baia, começa a entrar – de 2 até 13 – no porto de Lisboa.

Os generais de mar e terra, são metidos em conselho de guerra, por abandonarem a Baia, tendo forças muito superiores ás do inimigo e muito melhor armadas e disciplinadas.

17 de Setembro de 1823: Chega ao Rio de Janeiro uma deputação, enviada por D. João VI, com cartas ao Sr. D. Pedro, a ver se o reduzia à obediência. Esta deputação saiu de Lisboa, a bordo do brigue de guerra, Voador, no dia 30 de Julho; mas o Sr. D. Pedro não quis receber, nem abrir as cartas de seu pai, e o Voador foi julgado boa presa, e ficou no Rio de Janeiro. O conde de Rio Maior e os outros membros da deputação, a muito custo, poderam conseguir não serem julgados prisioneiros de guerra, e regressaram ao reino, em um paquete mercante.

Dezembro de 1823: As tropas portuguesas que estavam no Maranhão, regressam também a Portugal.

4 de Janeiro de 1824: Morre na cidade do Porto a insigne poetisa D. Catarina de Souza, viscondessa de Balsemão.

Denominavam-na, pelo seu grande talento poético, "Sapho Portugueza".

21 de Novembro de 1825: D. João VI reconhece a independência do Brasil (reservando apenas para si o titulo de imperador, durante a sua vida) por carta de lei – sem prévia autorização das cortes gerais! -- Continuava a desonra de Portugal.

10 de Março de 1826: Morre "OFICIALMENTE" em Lisboa, D. João VI.

A 6 deste mês se tinha publicado um decreto do "MESMO MONARCA", nomeando uma regência, presidida pela Sr.ª infanta D. Isabel Maria, para governar o reino, «até que o seu legítimo sucessor dê as convenientes providências.»

Esta regência era composta (além da infanta) – do cardeal patriarca de Lisboa D. frei Patrício da Silva, do duque de Cadaval, do marquês de Valada, e do conde dos Arcos.

A Sr.ª D. Isabel Maria, em vista da indiferença dos membros da regência, arroga a si o governo exclusivo do reino, sem os consultar.

24 de Abril de 1826: Chega ao Rio de Janeiro a mando da Sr.ª D. Isabel Maria, uma deputação composta do duque de Lafões, do arcebispo de Lacedemonia, e do desembargador Francisco Eleutério de Faria e Melo, a dar parte ao Sr. D. Pedro I, do falecimento de seu pai.

25 de Abril de 1826: O Sr. D. Pedro ao saber desta notícia, declara-se logo rei de Portugal, sob o nome de D. João IV.

29 de Abril de 1826: O Sr. D. Pedro outorga à nação portuguesa uma carta constitucional.

A carta constitucional foi redigida, (copiada das constituições francesa, inglesa e espanhola) por um brasileiro chamado Francisco Gomes, este brasileiro tinha por alcunha O CHALAÇA.

3 de Maio de 1826: O Sr. D Pedro abdica (condicionalmente) a coroa de Portugal, na Sr.ª Dona Maria da Glória, com o nome de Dona Maria II.

11 de Julho de 1826: O Sr. D. Pedro é aclamado rei de Portugal, sob o nome de D. Pedro IV, e proclamada a carta constitucional da monarquia portuguesa.

26 de Julho de 1826: Na cidade de Bragança o povo e o regimento de infantaria n.º 24, aclamam o Sr. Infante, D. Miguel, como rei de Portugal, sob o nome de D. Miguel I.

30 de Julho de 1826: Chega a Lisboa o Inglês Stuard, trazendo a carta constitucional, é também portador do decreto que confirma a regência em sua irmã – da notícia da abdicação do imperador, em sua filha; e de que ele ordenava o casamento desta com o Sr. D. Miguel.

A regente dúvida proclamar a carta, sem autorização dos Três Estados.

O general Saldanha, governador das armas do Porto, insta e ameaça, para que a carta seja proclamada.

31 de Julho de 1826: Dona Isabel Maria, regente do reino, em nome do Sr. D. Pedro IV, manda prestar juramento à carta – em Lisboa!

O povo de Vila Viçosa, o regimento de cavalaria n.º 2, ali estacionado, e parte do regimento de milícias de Vila Viçosa, tendo à sua frente, o brigadeiro António Tavares Maggessi, aclamam também o Sr. D. Miguel, como rei legítimo de Portugal.

O regimento de infantaria n.º 17, de quartel em Extremoz, e um parque de artilharia n.º 3, que também ali se achava, prestam de manhã o juramento da carta, e de tarde aclamam o Sr. D. Miguel como rei legítimo.

12 de Setembro de 1826: O brigadeiro Bernardo da Silveira, à frente do regimento de infantaria n.º 11, aclama o Sr. D. Miguel, na praça de Almeida.

5 de Outubro de 1826: O marquês de Chaves, com as tropas do seu comando, e o povo de Vila Real de Trás-os-Montes, fazem a aclamação do Sr. D. Miguel.

8 de Outubro de 1826: O marquês de Angeja era governador das armas do Algarve, e tinha o seu quartel na cidade de Tavira, que era a praça do regimento de infantaria n.º 14.

Este corpo, comandado pelo seu major Bernardino Coelho Soares de Moura, -- Era brigadeiro em 1834. A junta do Porto o fez marechal de campo e barão de Freiamunde -- e o regimento de milícias de Tavira, aclamam também o Sr. D. Miguel, naquela cidade. O marquês de Angeja foi convidado por Soares de Moura, mas não quis anuir à revolta.

Neste dia, pelas 11 horas da noite, na praça de Castro Marim, o batalhão de caçadores n.º 4, comandado pelo seu tenente coronel, José da Rosa e Sousa, faz a mesma aclamação, e marcha, na manhã do dia seguinte, para Tavira, a unir-se ao regimento n.º 14.

Em 1824, infantaria 14 estava em Lisboa, e caçadores n.º 4 foi de guarnição para Tavira, onde esteve desde 25 de Julho desse ano, até 14 de Abril de 1825.

O regimento 14, era, na sua quase totalidade, composto de gente de Tavira e seu termo. Os caçadores, durante os oito meses e 20 dias que estiveram nesta cidade, atraíram contra si o ódio implacável do regimento (por causa de mulheres) e andavam estes dois corpos a ferro e fogo; mas a 9 de Julho, fizeram as pazes, e se tornaram amigos, e companheiros inseparáveis.

9 de Julho de 1826: Os dois corpos de 1.ª linha, as ditas milícias, e o povo da cidade de Tavira, fizeram a aclamação do Sr. D. Miguel, com as maiores demonstrações de regozijo.

Logo neste dia, marcham estas forças para Faro, contando que se lhes reuniria o regimento de artilharia n.º 2, que ali tinha a sua praça; mas este corpo, entrincheirou as avenidas da cidade, onde postou as suas peças, na intenção de resistir; porém, à aproximação dos realistas, evacuou a cidade, onde estes entraram, fizeram a aclamação, e ali se conservaram até ao dia 11.

11 de Julho de 1826: Neste dia, marcham para a praça de Albufeira, na esperança de se lhes reunir o regimento de infantaria n.º 2; porém este fugiu à aproximação dos realistas de Tavira.

20 de Outubro de 1826: José da Rosa e Sousa Soares de Moura, vendo que a maior parte das tropas do Algarve se conservavam obedientes ao governo de Lisboa, resolveram retirar para a Espanha, e entraram na cidade de Ayamonte.

21 de Outubro de 1826: O governo de Lisboa, manda o batalhão de caçadores n.º 7 reforçar a divisão de Trás-os-Montes; porém este corpo, chegando a Vila Pouca de Aguiar, revolta-se também, aclamando o Sr. D. Miguel.

Aos corpos completos que tinham feito a revolta realista, se uniram, em muitas localidades, vários contingentes de todas as armas; e também generais, magistrados, capitães-mores, e oficiais de milícias e ordenanças.

Os realistas, contando com a protecção do governo espanhol, logo que se revoltavam, entravam em Espanha, para ali, a seu salvo, fazerem as junções que julgavam necessárias.

As forças realistas do Algarve, Alentejo, Beira Baixa e Trás-os-Montes, faziam já um número respeitável; pelo que o governo de Lisboa pede à Inglaterra uma divisão auxiliar, e o governo britânico manda imediatamente pôr em pé de guerra, para vir em socorro dos liberais portugueses, uma divisão de 10.000 homens escolhidos, prontos a embarcarem à próxima ordem.

29 de Outubro de 1826: O Sr. D. Pedro, manda o barão de Vila Seca a Viena de Áustria, para exigir que o Sr. D. Miguel prestasse juramento à carta constitucional, e para que autorizasse o pedido de dispensa, para o seu casamento com sua sobrinha, a Sr.ª Dona Maria da Glória.

O Sr. D. Miguel anuiu a tudo, e prestou o juramento exigido, e os esponsais se celebraram em Viena, neste dia 29 de outubro.

4 de Dezembro de 1826: As forças realistas do Algarve, entram em Portugal, por Barrancos (Alentejo.)

6 de Dezembro de 1826: Entram em Mourão tropas realistas, juntando-se aí ao brigadeiro Maggessi, que tinha sido nomeado general do Alentejo e Algarve, pelo marquês de Chaves.

Este general trazia consigo os regimentos de infantaria 17 (2.º de Elvas) de cavalaria n.º 2, 90 praças de cavalaria n.º 7, que tinha aprisionado em Vila Viçosa, e vários contingentes de diversos corpos, que se lhe tinham reunido.

Ao mesmo tempo, o marquês de Chaves entra por Trás-os-Montes, onde a maior parte das tropas, e quase toda a população, se pronunciam pelo Sr. D. Miguel.

10 de Dezembro de 1826: A brigada de Maggessi, ao sair da praça de Arronches é atacada pelo conde de Vila Flor, com forças muito superiores, principalmente em artilharia, que foi a única arma que fez fogo.

Os realistas retiram, sem perderem um só homem, para Espanha, onde entram, no mesmo dia, pela Cortiçada.

18 de Dezembro de 1826: Neste dia a brigada de Maggessi, entra em Portugal, por Val Verde, próximo ao Sabugal.

As forças do marquês de Chaves, e dos viscondes da Várzea e Molelos, avançam para a Beira.

24 de Dezembro de 1826: Uma divisão inglesa, comandada pelo general Clinton, entra em Lisboa, em auxílio dos liberais.

2 de Janeiro de 1827: Na ponte da Cabra (perto de Vila Mendo, na Beira Baixa) houve duas acções entre os realistas do Maggessi e os liberais de Claudino. Aqueles retiram para Infias, com algumas perdas.

9 de Janeiro de 1827: Dá-se o titulo de guarda-mór ao guarda da Câmara Municipal

9 de Janeiro de 1827: Tendo as forças de Maggessi feito a sua junção com as do marquês de Chaves, na Serra da Estrela, marcham para Coruche, (da Beira Baixa) onde são atacados pela divisão de Vila Flor, a qual depois de três horas de fogo, obriga a retirar os realistas, para Trancoso, fazendo-lhes alguns prisioneiros.

Felizmente, os mortos e feridos, de ambos os lados, foram em número diminuto.

Ainda então o ódio entre os dois partidos não era tão encarniçado como o foi depois.

14 de Janeiro de 1827: Os realistas depois de derrotados em Coruche, retiram para Espanha, por Val de la Mula (Estremadura espanhola), deixando em Almeida a sua guarnição, que, vendo-se abandonada, se entrega aos liberais.

17 de Janeiro de 1827: O marquês de Chaves, pernoita com as suas tropas, em Villas Buenas, neste dia torna a entrar em Portugal, por Freixo de Espada à Cinta.

As tropas liberais marcham para Trás-os-Montes e Minho.

Os realistas, marcham sobre o Porto, por Braga.

A divisão inglesa marcha para o Norte, chegando a Coimbra.

7 de Março de 1827: Os realistas, desanimados com o auxílio inglês, e temendo ainda a vinda de outras divisões britânicas, são batidos em vários recontros, vendo-se obrigados a entrar mais uma vez em Espanha, por Vilarinho, Abelano e Santa Ana, sendo desarmados, no dia 8 em Samil.

Desta vez, não tornaram a fazer novas entradas em Portugal, e foram divididos em diversos depósitos, e internados em várias províncias de Espanha, de onde só regressaram em Julho e Agosto de 1828.

29 de Abril de 1827: Nem com a retirada das tropas do marquês de Chaves, para Espanha, gozou Portugal pleno sossego.

O regimento de artilharia n.º 3, e um batalhão de infantaria n.º 8, de guarnição à praça de Elvas, unidos a muito povo da cidade, aclamam o Sr. D. Miguel, neste dia 29.

O general Caula, ataca os revoltosos, com forças muito superiores, e, depois de muito fogo de fuzilaria, cargas de cavalaria e descargas de metralha, domina a revolta, fazendo grande número de mortos e feridos, e ficando o resto (muito poucos) prisioneiros.

3 de Julho de 1827: O Sr. D. Pedro, nomeia o Sr. D. Miguel deu lugar tenente em Portugal.

Antes tinha convidado o seu irmão, a ir ao Rio de Janeiro; mas este, temendo alguma traição, não vai.

Não se entende muito bem isto! Desde 3 de Maio de 1826, que a Sr.ª D. Maria II era rainha de Portugal, pela abdicação expontânea de seu pai, que, desde então, não era mais do que imperador do Brasil. Não se pode saber quais seriam as atribuições do Sr. D. Miguel, como lugar tenente, em Portugal, de um monarca estrangeiro.

A regente, demite de ministro da guerra, o general Saldanha; o que dá origem a tumultos em Lisboa. O conde de Vila Flor os domina pela força.

6 de Dezembro de 1827: O Sr. D. Miguel sai neste dia de Viena; chega a Paris no dia 20; e a Londres no dia 30.

9 de Fevereiro de 1828: O Sr. D. Miguel embarca em Portsmouth (Inglaterra.), com destino a Portugal.

22 de Fevereiro de 1828: O Sr. D. Miguel desembarca em Lisboa e, em sessão real extraordinária, presta o juramento prescrito na carta constitucional, a 26 deste mês, tomando posse do governo, nesse mesmo dia, e nomeando novo ministério, que ficou assim constituído:

Ministro assistente ao despacho – Duque do Cadaval.

Reino – o desembargador, José António de Oliveira Leite de Barros (depois feito conde de Basto, pelo Sr. D. Miguel.)

Marinha e Ultramar – interinamente – o mesmo doutor, Leite de Barros.

Justiça – Luís de Paula Furtado de Castro do Rio de Mendonça.

Fazenda – conde da Lousã, D. Diogo.

Guerra – conde de Vila Real.

Estrangeiros – interinamente, este conde.

A 3 de Março: o Sr. D. Miguel recompõe o ministério, entrando para a Guerra – o conde de Rio Pardo.

Estrangeiros – (efectivo) o conde de Vila Real.

No mesmo dia 3 de Março: reforma o conselho de estado, sendo nomeados para ele; o marquês de Borba, D. Francisco Alexandre Lobo (bispo de Viseu) e o principal Freire.

13 de Março de 1828: São dissolvidas as cortes, e é nomeada uma comissão, para propor uma nova lei de eleições, segundo a carta, mas guardando os usos e costumes da nação portuguesa.

O conde de Vila Real, sai do ministério, e é substituído pelo visconde de Santarém.

Em 29 e 30 de Março e 25 de Abril, embarcam para a Grã-Bretanha as tropas inglesas, que sob o comando do general Clinton, tinham vindo, em 1826, para Portugal, em defesa da carta e da regência da Sr.ª infanta, D. Isabel Maria.

25 de Abril de 1828: O Sr. D. Miguel deixou de assinar os actos, em nome de seu irmão.

14 de Maio de 1828: Os regimentos do comércio, atiradores e artilheiros nacionais de Lisboa, são dissolvidos.

REVOLUÇÃO DE 1828

16 de Maio de 1828: Teve lugar na cidade do Porto a revolta militar. Uma das causas dela, foram as desligações de muitos oficiais do exército liberal, feitas pelo conde do Rio Pardo, ministro da guerra.

Os revoltosos nomeiam uma – JUNTA PROVISÓRIA, DO PORTO, EM NOME DO SR. D. PEDRO IV.

Alguns corpos das províncias do Norte, anuem à revolução do Porto, e a junta organiza alguns batalhões.

O governo realista, reúne tropas, chama ás armas todas as praças que tinham recebido baixa desde 1820, e cria 52 batalhões de voluntários realistas.

26 de Maio de 1828: Um batalhão do regimento de infantaria n.º 20, que estava de guarnição em Tavira, anui à revolução do Porto, proclamando a carta constitucional.

27 de Maio de 1828: Junta-se à revolução do Porto, em Almeida, o regimento de infantaria n.º 15.

Neste dia 27: o general Palmeirim consegue que as praças de pré, do batalhão revolucionado, de infantaria n.º 2, abandonando os oficiais, torne a entrar na obediência do governo do infante regente.

Neste mesmo dia 27: na cidade de Angra (Ilha Terceira) as autoridades, o batalhão de caçadores n.º 5 e o povo, aclamam rei de Portugal, o Sr. D. Miguel.

As tropas liberais deixam uma pequena guarnição no Porto, e avançam para Lisboa, fazendo a aclamação da carta, em Coimbra, Condeixa-Nova, Soure, e Pombal, parando nesta última vila.

As tropas realistas (Toda a tropa que ficou obediente ao governo do Sr. D. Miguel, fazia parte do exército liberal até Fevereiro deste ano. O exército realista (as tropas do marquês de Chaves) ainda estava emigrado, desde o dia 7 de Março de 1827, dia em que entravam em Espanha, por Vilarinho; regressando a Portugal, somente em Agosto deste ano de 1828.

O exército (a divisão) do general Silveira (marquês de Chaves e conde de Amarante) compunha-se dos batalhões de caçadores 1, 4 e 7 – e dos regimentos de infantaria 5, 7 (quase todo) 11, 14, 17, 19 (parte) e 24 -- cavalaria 4 (parte) 9 e 12. – Além destes corpos, havia contingentes de quase todos os outros, com os quais, o marquês formou batalhões provisórios. Não havia regimento completo de artilharia; mas, umas poucas de baterias, formadas dos que tinham anuído, de todos os regimentos.

As milícias foram mandadas para as suas casas.) saem da capital, em busca dos liberais, e chegam a Leiria e Tomar.

Toda a costa, desde o Porto até à Figueira da Foz, estava ocupada pelos liberais; porém, no interior, apenas tinham o terreno que pisavam, além da praça de Almeida, que também tinha guarnição liberal.

Nas províncias do Minho e Trás-os-Montes, estava tudo pelo partido do Sr. D. Miguel.

O general das armas, do partido do Porto, era Gabriel António Franco de Castro; das armas do Minho, D. Álvaro da Costa e Sousa de Macedo (depois, conde da Madeira); das armas de Trás-os-Montes, Gaspar Teixeira (visconde do Peso da Régua); das armas da Beira Alta, Agostinho Luís da Fonseca; das armas da Beira Baixa, o visconde de S. João da Pesqueira.

Havia ainda uma divisão ligeira, no Minho, e Trás-os-Montes, comandada pelo visconde de Santa Marta.

As tropas do Sul, denominadas exército de operações, estavam sob as ordens do general Álvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Póvoas, que comandava a vanguarda. A 1.ª divisão, era comandada pelo visconde de Souzel – a 2.ª, pelo conde de Alhandra – a 3.ª, pelo visconde de S. João da Pesqueira – e a 4.ª, pelo visconde do Peso da Régua.

Note-se que no exército realista, só havia então, de 1.ª linha – infantaria n.º 8, 12 e 16 – um batalhão de infantaria n.º 9, parte do 21, e o regimento n.º 22 – cavalaria n.º 6 e parte do n.º 9, além dos contingentes – parte de caçadores n.º 6, o batalhão n.º 8, e o 1.º e 2.º de provisórios (os chamados, das baixas).

A maior parte, pois, das tropas realistas, se compunha de milícias e voluntários realistas, organizados à pressa.

O marquês de Palmela, os condes da Taipa, e de Vila Flor, os generais Saldanha, Stubbs, e outros, que estavam emigrados em Inglaterra, desembarcam em Matosinhos e chegam ao Porto, em auxílio dos liberais.

O batalhão de caçadores n.º 5, conhecido por liberal, na restauração, fora mandado para a Ilha Terceira, em 1823, como deportado. Depois de fazer a aclamação do Sr. D. Miguel, a 27 de Maio, deste ano de 1828 (como já disse) reconsiderou, e a 22 de Junho, aclama a carta constitucional. Algumas das autoridades que assinaram o auto de 27 de Maio, assinaram o 22 de Julho.

A Ilha da Madeira aclama também a carta constitucional.

O exército liberal, sabendo da aproximação do realista, retira do Pombal, e ocupa Condeixa-Nova e Coimbra.

As avançadas dos dois partidos encontram-se na vila de Ega, onde à uma escaramuça, no dia 23 de Junho.

24 de Junho de 1828: Na madrugada deste dia, o general Póvoas ataca os liberais, junto a Sernache, e estes retiram até à Cruz dos Moronços, onde houve um renhido combate.

Os liberais retiram para Coimbra, onde se conservam até à noite de 25, fugindo então precipitadamente, em direcção ao Porto, abandonando muita da sua artilharia, armamento e munições de guerra.

Mas não deixaram os presos por crimes políticos (realistas) que levaram consigo, ferindo e matando alguns pelo caminho. Entre o número dos mortos, conta-se o padre Raimundo, velho septuagenário, que assassinaram na Mealhada. Também maltrataram muitos dos habitantes das povoações por onde passaram.

26 de Junho de 1828: Na madrugada deste dia; entra em Coimbra o exército realista, mas sai logo em perseguição dos liberais.

Os generais, Saldanha, Stubbs e o conde de Vila Flor, tomam o comando das tropas liberais.

O general Póvoas avança para o Norte. Os liberais fazem-se fortes nas formidáveis posições do Marnel e Ponte do Vouga, depois de terem recebido reforços, do Porto. Póvoas os ataca, nos dias 28 e 29 de Junho. Os liberais sustentam o ataque do primeiro dia, mas, no segundo, são desalojados das suas terríveis posições, e retiram, tomando novas posições em Grijó, de onde também foram desalojados, tendo de fugir para o Porto, ficando o seu domínio reduzido a esta cidade e arredores, e à praça de Almeida, que de nada lhes servia, porque nunca poderam conseguir pôr-se em comunicação com ela, que estava cercada por forças contrárias.

2 de Julho de 1828: Na noite deste dia; Saldanha, Palmela, Vila Flor, Taipa, Stubbs, os membros da junta revolucionária, e outros cabeças da revolta, metem-se a bordo do vapor inglês Belfast, e fogem para Londres, abandonando as tropas que tinham instigado para se revoltarem.

Tal e qual como alguns oficiais da guarnição cartista do castelo de Viana do Minho, em Maio de 1847 – como Sá da Bandeira (14 de Junho do mesmo ano) em Setúbal, abandonando os seus soldados e fugindo para um navio inglês – e, finalmente, como o marechal Saldanha, em Abril de 1854, abandonando os batalhões de caçadores 1 e 5, parte de infantaria 7 e alguns soldados de cavalaria, nas serras da Beira, e fugindo para a Galiza, por Lóbidos.

O exército liberal, abandonado pelos seus chefes, sai do Porto, na mesma noite, de 2 para 3 de Julho, em direcção à Galiza.

3 de Julho de 1828: O senado da Câmara do Porto, manda participar ao general Póvoas, que a cidade estava abandonada pelos liberais. Os realistas a ocupam logo no mesmo dia 3, à vista do Belfast, que ainda não tinha saído a barra.

É digno de notar-se que – sendo as forças realistas compostas, na sua máxima parte, de tropas irregulares, observaram, na entrada e ocupação do Porto, a mais rigorosa disciplina, não havendo o mais leve desaguisado.

É por isso que a cidade, grata ao cavalheiroso comportamento do general Póvoas, lhe fez uma verdadeira ovação quando ele aqui entrou, a unir-se ás forças da junta, no princípio de Junho de 1847.

Os realistas (deixando guarnição no Porto) marcharam para a província do Minho, em perseguição das tropas fugitivas, que marchavam na maior desordem, como era de esperar de soldados sem chefes; e, demais, já acossados pelas tropas realistas do Minho.

Todo o batalhão de caçadores n.º 6, comandado só por sargentos, e grande número de praças de pré de outros corpos, apresentam-se aos realistas.

A guarnição da praça de Almeida, que tinha aclamado o Sr. D. Miguel, em Março, aclama o Sr. D. Pedro, em 27 de Maio. Vendo perdidas as suas esperanças de triunfo, com a fuga dos seus generais, e com a retirada das tropas de junta, torna a aclamar o Sr. D. Miguel, em 6 de Junho; porém, o general realista, Agostinho Luís da Fonseca, comandante das forças sitiantes, rejeitou esta segunda aclamação, admitindo-lhe somente o render-se à discrição, para lhe aproveitar o indulto de 18 de Junho; o que teve lugar a 16 de Julho. O governador da praça, era o brigadeiro Mira.

5 de Julho de 1828: Duas fragatas brasileiras conduzem do Rio de Janeiro, com destino a Lisboa, Maria da Glória, princesa do Grão Pará (depois, rainha D. Maria II) para casar com seu tio, o Sr. D. Miguel I.

Os navios arribaram a Gibraltar a 2 de Setembro, onde estavam alguns emigrados liberais, que conseguiram mudar o rumo, e o destino da princesa, indo para Londres, onde estavam os mais importantes personagens do partido liberal, em vez de vir para Lisboa.

Foi uma grande desgraça para Portugal, causada, não pela inocente criança (tinha nascido a 4 de Abril de 1819, e tinha então nove anos e cinco meses) Maria da Glória, nem por seu pai, nem por seu tio; mas por quem desejava a guerra civil, que foi origem de tantos infortúnios.

Se tivesse sido efectuado o casamento desta criança com seu tio, findava o pretexto principal da guerra fratricida, e não se mancharia a história nacional com as atrocidades cometidas por ambos os partidos, desde 1828, até... Só Deus sabe!

9 de Julho de 1828: As tropas liberais, depois de perderem mais de 5.000 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros, desde o combate da Cruz dos Morouços, passam a Portela do Homem, e entram na Galiza, por Lóbios.

10 de Julho de 1828: O general Baia (visconde de S. João da Pesqueira) mandou os seus ajudantes de ordens, com ofícios, ás autoridades espanholas, para que lhes fossem entregues todas as armas, munições e mais objectos militares dos fugitivos; mas, tendo grande parte destes inutilizado as suas armas, chegaram estas a Portugal em péssimo estado.

Ainda da Galiza, muitos oficiais e soldados liberais regressaram à pátria, para gozarem o indulto; porém, os mais comprometidos, embarcaram para as ilhas da Madeira e Terceira, e para França ou Inglaterra.

14 de Julho de 1828: O tristemente célebre José António de Oliveira Leite de Barros (futuro conde de Basto) ministro do reino, do Sr. D. Miguel, nomeia uma alçada, para o Porto, com a incumbência de julgar os liberais mais comprometidos na revolta de 16 de Maio.

Mas todos os mais decretos desse tempo (dois de 18 e dois de 28 de Agosto) com respeito a alçadas, em todo o reino, foram referendados pelo ministro dos negócios eclesiásticos e de justiça, Luís de Paula Furtado de Castro do Rio de Mendonça.

Leite de Barros, era um homem sanguinário. Sendo auditor-geral do exército, na guerra da Península, por pouco não o fuzilou todo.

O Sr. D. Miguel nunca se devia lembrar de semelhante indivíduo para tal emprego.

De mais a mais, os indivíduos que mais se tinham distinguido na revolta de Maio, estavam em países estrangeiros, fora do alcance das vinganças dos seus inimigos.

22 de Agosto de 1828: O coronel (depois tenente general) José António de Azevedo e Lemos, desembarca na Ilha da Madeira, que faz entrar na obediência ao partido realista.

O coronel Luís Godinho Valdêz, governador liberal da ilha, fugiu para bordo de um navio inglês, indo depois reunir-se ás tropas liberais da Ilha Terceira. Também chegou depois ao posto de tenente general.

23 de Agosto de 1828: O Sr. D. Miguel I, concede bandeiras de distinção ao batalhão de caçadores n.º 8 (depois, regimento de caçadores da Beira Baixa, um dos corpos mais bravos e disciplinados do exército realista.)

Quando em 1834, o governo do Sr. D. Miguel I decretou que, dos quatro regimentos de caçadores, se formassem 12 batalhões, -- formou este regimento três batalhões – sendo a 1.ª, 3.ª e 5.ª companhias (com bandeiras, estado-maior e música) para formar caçadores n.º 3 – 2.ª, 4.ª e 6-ª, caçadores n.º 4 – 7.ª e 8.ª, caçadores n.º 11. ( Pinho Leal pertencia à 5.ª companhia, ficou pertencendo a caçadores n.º 3, até 16 de Maio de 1834, dia em que ficou ferido e prisioneiro na batalha da Aceisseira.)

Juntamente ao batalhão de caçadores n.º 8, é concedido ao regimento de milícias de Aveiro, bandeiras de distinção, pelo seu valor, nas acções da Cruz dos Morouços, Marnel e Ponte do Vouga.

A bandeira dos caçadores tinha a legenda seguinte, extraída dos Lusíadas:

VENCEREI, NÃO SÓ ESTES ADVERSÁRIOS, MAS QUANTOS AO MEU REI FOREM CONTRÁRIOS.

A das milícias, dizia (também versos de Camões):

E VEREIS QUAL É MAIS EXCELENTE, SE SER DO MUNDO REI, SE DE TAL GENTE.

Foi também em Agosto deste ano, que a tropa realista, emigrada em Espanha (a divisão do marquês de Chaves) regressou a Portugal, tomando o lugar que lhe competia no exército.

Os liberais da Ilha Terceira; e os emigrados que se lhes reúnem, formam ali o: GOVERNO PROVISÓRIO, EM NOME DA SR.ª D. MARIA II.

Mas, a população da ilha, sendo, na sua máxima parte realista, armou guerrilhas contra os liberais; o que deu causa ás maiores atrocidades destes, que chibatavam e assassinavam muitos paisanos, e lhes sequestravam as suas fazendas.

27 de Setembro de 1828: O Sr. D. Pedro I, imperador do Brasil, e o seu governo, declaram ao encarregado dos negócios de Portugal, no Rio de Janeiro, para o fazer ciente ao ministro dos negócios estrangeiros da sua nação, que «apesar das mudanças ultimamente ocorridas em Portugal, as relações comerciais e de mútuo interesse para ambos os países, continuavam, sem interrupção alguma, e que o mesmo encarregado seria admitido para tratar na corte brasileira, de tudo quanto pertencesse àquelas relações, que subsistiriam na conformidade do tratado de 29 de Agosto de 1825».

7 de Maio de 1829: Dia que marca uma das páginas mais negras da nossa história.

Os juizes da alçada, de execranda memória, por acordo de 9 de Abril deste ano, haviam condenado dez liberais à pena de morte, na forca – o que se executou na Praça Nova – sendo-lhes depois cortadas as cabeças, que foram expostas, nesta cidade do Porto, na Feira, em Aveiro, e em Coimbra; treze a degredo para a África e a Índia; quatro de mais baixa condição, condenados a açoites, que sofreram a 16 de Junho.

Pasme-se! Algumas das testemunhas que mais depuseram contra estas infelizes vitimas, se fizeram, depois de 1834, encarniçados liberais, e foram os mais cruéis perseguidores dos realistas.

Os dez desgraçados que neste dia de eterno horror, pagaram com a vida as suas convicções políticas, e, a RAIVA particular daqueles, que sempre viveram com a inveja na alma negra.

Foram os seguintes:

Bernardo Francisco Pinheiro, capitão de ordenanças, natural do lugar das Airas, freguesia de S. Jorge, no concelho da Feira.

Clemente da Silva Melo Soares e Freitas, juiz de Fora da Feira, natural de Aveiro.

Francisco Manuel Gravito da Veiga Lima, desembargador da casa da Suplicação.

Francisco Silvério de Carvalho, fiscal dos tabacos, natural de Aveiro.

Joaquim Manuel da Fonseca Lobo. Tenente coronel do batalhão de caçadores n.º 11, natural do Porto. Este homem nunca foi liberal. Quando caiu a constituição, em 1823, era major de caçadores n.º 4; e tendo, no alto mar, e a bordo do Grão Canoa (onde vinha o batalhão) recebido a notícia – por uma escuna portuguesa – da aclamação de D. João 6.º, como rei absoluto, dá voz de prisão ao tenente coronel José Júlio de Carvalho (que, em 1829, foi julgado como ausente, sentenciado à morte, como se declara na relação competente.) e faz a aclamação, mandando calcar aos pés dos soldados, os laços azuis e brancos e substitui-los pelos azuis e encarnados.

Foi uma pura comédia. A bordo não havia outros laços, nem sola para se fazerem. Os laços liberais, depois de calcados aos pés e desonrados, se recolheram em baldes, e foram levados ao porão, onde a cor branca foi coberta com uma camada de roxo, e, assim, com a CASACA VIRADA, tornaram a ser colocados nas barretinas!

Tanto se não julgava cúmplice, que nem quis fugir para Inglaterra, nem emigrar para a Galiza, com o seu batalhão, e se deixou ficar no Porto, onde foi preso, a 15 de Dezembro de 1828.

Constou-se que este desgraçado, declarara no oratório, que não morria por liberal, mas que merecia a morte, por ter cometido dois assassínios; e é certo que, estando caçadores 4 em Castro Marim (1822) apareceu morto um soldado grave, do batalhão, e estando ele em Tavira (1824) se achou assassinado um oficial inferior, de infantaria 14, e ambas estas mortes foram atribuídas a Fonseca Lobo, por causa de namoros.

José António de Oliveira da Silva Barros, empregado do tabaco, natural do Porto.

José Maria Martiniano da Fonseca, bacharel em direito, natural da Ilha da Madeira.

Manuel Luís Nogueira, juiz de fora de Aveiro, natural do Porto.

Vitorio Teles de Medeiros, tenente coronel do regimento de milícias da Lousã, natural da freguesia de Ceira, concelho de Coimbra.

António Bernardo de Brito e Cunha, contador da real fazenda, natural do Porto.

Ainda, em 9 de Outubro deste ano de 1829: foram enforcados, na Praça Nova, do Porto, dois infelizes – foram eles:

Clemente de Morais Sarmento, sargento de caçadores n.º 10, natural de Aveiro.

João Ferreira da Silva Júnior, filho família, natural de Albergaria Velha.

Todas as sentenças destas 12 vítimas da ganância política e monetária – declaravam que «ficavam exautorados e privados de todas as honras, privilégios e dignidades de que gozavam, e condenados a que, com baraço e pregão, fossem levados pelas ruas públicas do Porto, até ao largo da Praça Nova, e na forca que na mesma se havia de levantar, morressem enforcados, sendo-lhes depois cortadas as cabeças, para se afixarem em um alto poste, nos lugares do delito».

Foram também condenados à confiscação de todos os seus bens.

A sentença é de 9 de Julho de 1830: Foi condenado, na confiscação de todos os seus bens, e em degredo perpétuo, para o presídio de Quelimane (Moçambique), com pena de morte, se voltasse ao reino; dando primeiro três voltas em redor da forca, levantada na Praça Nova (o que se cumpriu em 25 de Setembro do mesmo ano.)

Tiago António Xavier de Azevedo, proprietário, natural da freguesia de Guiães, concelho de Vila Real.

FORAM AÇOITADOS:

João António Teixeira Torga, trabalhador, natural de Sanfins, concelho de Alijó.

A sentença é do mesmo dia 9 de Julho de 1830: Em cumprimento dela, foi condenado em degredo perpétuo, para a Ilha de S. Tomé (África) com pena de morte, se voltasse a este reino; sendo primeiramente açoitado pelas ruas públicas da cidade do Porto, e dando três voltas à roda da forca, levantada na Praça Nova, e confiscação de todos os seus bens.

Foi açoitado e deu as voltas em redor da forca, em 25 de Setembro de 1830.

Luís Luzano, natural da praça de Valença.

A sentença é de 9 de Abril de 1829: em cumprimento dela, foi a vítima exautorada, sendo privada de todas as honras, privilégios e dignidades se que gozava; e condenada a que, com baraço e pregão, fosse levada pelas ruas públicas da cidade do Porto, ao largo da Praça Nova, onde, na forca, que ali se havia de levantar, morre-se enforcado, sendo-lhe depois cortada a cabeça, para ser exposta, por três dias, em um alto poste, no lugar do delito; e, além disto, na confiscação e perdimento de todos os seus bens.

Esta sentença lhe foi intimada a 4 de Maio, e subiu logo ao oratório. No dia 6, por via de embargos, foi-lhe comutada aquela pena, na de açoites, pelas ruas públicas do Porto, e em trabalhos de galés, por toda a vida.

Foi açoitado no dia 16 de Junho do mesmo ano de 1829.

Policarpo José da Silva Pessoa, negociante, natural da freguesia de Lanhelas, concelho de Caminha.

A sentença é de 25 de Novembro de 1829: foi condenado a ser açoitado pelas ruas públicas do Porto, e, depois, ir degredado por toda a vida, para Caconda (África) com pena de morte, se voltasse ao reino, e na confiscação e perdimento de todos os seus bens.

Foi açoitado em 3 de Agosto de 1830.

Samuel Safarty, negociante, natural de Marrocos e residente no Porto.

A sentença é de 9 de Abril de 1829: foi condenado a ser açoitado pelas ruas públicas do Porto, em trabalhos nas galés, por toda a vida, e na confiscação e perdimento de todos os seus bens.

Foi açoitado em 16 de Junho do mesmo ano.

ASSISTIRAM ÁS EXECUÇÕES DE 7 DE MAIO DE 1829

Francisco António de Abreu e Lima, corregedor de Aveiro, natural da cidade de Viana.

A sentença é de 9 de Abril, do dito ano: foi condenado na exautoração, e privado de todas as honras, privilégios dignidades de que gozava, e a que, com baraço e pregão, fosse levado pelas ruas públicas, do Porto, até ao largo da Praça Nova, e na forca, que ai se havia de levantar, morresse enforcado; sendo-lhe depois cortada a cabeça, para se afixar em um alto poste, no lugar do delito. Foi mais condenado na confiscação e perdimento de todos os seus bens.

Foi-lhe intimada a sentença em 4 de Maio, e subiu logo ao oratório.

Em 6, por via de embargos, foi aliviado da pena de morte, e condenado a ir assistir ás execuções que se haviam de fazer no dia 7; sendo depois degredado por toda a vida, para o presídio das Pedras Negras (África) com pena de morte, se voltasse ao reino.

Foi assistir ás execuções do dia 7.

José Ferreira Pestana, ajudante do observatório, natural de Coimbra.

A sentença é de 9 de Abril: foi condenado a assistir ás execuções de 7 de Maio, e, depois, degredado por toda a vida, para Angola, com pena de morte se voltasse ao reino, e no confisco e perdimento de todos os seus bens.

Foi assistir ás execuções do dia 7.

Manuel José Peixoto, cirurgião, natural de Oliveira de Azeméis.

A sentença é de 9 de Abril: teve uma condenação igual à antecedente, menos o degredo; foi para uma das possessões do Estado da Índia.

Assistiu ás execuções do dia 7.

Vitorino José da Silva Teixeira de Queiroz, capitão do regimento de milícias de Penafiel, natural de Baião.

A sentença é de 9 de Abril: teve condenação igual ás antecedentes, somente o degredo; foi para Benguela.

Assistiu ás execuções do dia 7.

ASSISTIRAM ÁS EXECUÇÕES DE 9 DE OUTUBRO DE 1829

Adriano Augusto da Silva Pereira, estudante, natural de Monção, morador em Valença do Minho.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829: teve uma condenação igual ás antecedentes, sendo o degredo perpetuo para uma das possessões do Estado da Índia.

Assistiu ás duas execuções do dito dia 9

José de Sousa Bandeira, escrivão do cível, natural de Guimarães. – Depois de 1834, foi escrivão de uma das varas do Porto, e tornou-se celebre, como redactor do Artilheiro, do Periódico dos Pobres, e, por fim, como proprietário e redactor do Braz Tizana, jornais todos publicados no Porto.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829: foi condenado a assistir ás duas referidas execuções, e ir depois degredado por toda a vida para o presídio de Pungo Adongo (África) com pena de morte, se voltasse a este reino; e na confiscação e perdimento de todos os seus bens.

Assistiu ás duas execuções do dia 9.

FOI CONDENADO A DAR TRÊS VOLTAS À RODA DA FORCA

Jerónimo Dias de Azevedo, académico, natural de Podentes, concelho de Penela, comarca de Lousã.

A sentença é de 9 de Julho de 1829: foi condenado na confiscação de todos os seus bens, e em degredo perpetuo para Benguela, com pena de morte se voltasse ao reino; dando primeiramente três voltas em redor da forca da Praça Nova.

No dia 25 de Setembro do dito ano, seu as voltas em redor da forca.

FOI CONDENADO A ASSISTIR A UMA EXECUÇÃO ( MAS NÃO ASSISTIU)

Manuel Teixeira Leonil, bacharel em leis, natural de Lamego.

A sentença é do dia 1 de Junho de 1829: foi condenado a ir, com baraço e pregão, assistir à execução de um liberal, que havia de ser enforcado na Praça Nova, por sentença exarada no mesmo processo; e, depois, ir degredado por toda a vida, para o presídio de Caconda com pena de morte, se voltasse a este reino, e na confiscação de todos os seus bens.

Não assistiu à execução, porque o infeliz que havia de ser enforcado, embargou, conseguindo que a pena lhe fosse comutada em degredo perpetuo, para a África.

Note-se que muito poucas sentenças de degredo se cumpriram, estando os presos nas cadeias, de onde saíram, à medida que as terras onde estavam presos foram ocupadas por forças liberais.

LIBERAIS QUE FORAM SENTENCIADOS À MORTE, E CUJA PENA SE NÃO CUMPRIU, POR ESTAREM AUSENTES DO REINO.

Marquês de Palmela, natural de Lisboa.

A sentença é de 21 de Agosto de 1829: (foi seu defensor e curador nomeado, o bacharel Francisco Alves de Matos.) Foi exautorado e privado de todas as honras, privilégios e dignidades de que gozava neste reino, do qual o haviam por desnaturalizado; foi condenado a que, com baraço e pregão, fosse conduzido pelas públicas ruas do Porto, até à Praça Nova, e ai, em um alto cadafalso, morresse de morte natural, de garrote. E, depois de lhe ser decepada a cabeça, que seria pregada em um alto poste, na estrada de Matosinhos (onde tinha desembarcado) ficando exposta, até que o tempo a consumisse – fosse o corpo, e o cadafalso, reduzidos, pelo fogo, a cinzas, que seriam lançadas ao mar, para que dele e de sua memória, não houvesse mais notícia; e, além disto, na confiscação e perdimento de todos os seus bens. E, porque se achava ausente, foi pronunciado, e havido por banido, e se mandou ás justiças, que apelidassem contra ele toda a terra, para ser preso, ou para que, todo e qualquer do povo o poderia matar livremente, sabendo que era o próprio banido, e não sendo seu inimigo.

Conde de Sampaio (Manuel.)

A sentença é da mesma data da antecedente, e teve o mesmo defensor, e a mesma condenação.

Conde da Taipa.

Teve o mesmo defensor, e a mesma sentença, datada do mesmo dia.

Conde de Vila Flor.

A sentença é da mesma data, e teve o mesmo defensor e igual condenação.

D. Filipe de Sousa Holstein.

A sentença é da mesma data, teve o mesmo defensor e igual condenação.

João Carlos de Saldanha de Oliveira Daun (depois duque de Saldanha.)

A mesma condenação, por sentença de igual dia, e com o mesmo defensor.

Alexandre Marcelino de Maia e Brito, tenente coronel do regimento de infantaria n.º 6.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829: e foi seu defensor o bacharel, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva.

Teve a mesma condenação, menos a cabeça espetada no poste de estrada de Matosinhos.

Alexandre Tomás de Morais Sarmento, desembargador da relação do Porto, e natural desta cidade.

A sentença é de 25 de Novembro de 1829, e foi seu defensor, o bacharel, António Ciro Pinto Osório.

Teve a mesma condenação do antecedente.

António Correia Leitão, major do regimento de infantaria n.º 18.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829, e foi seu defensor, o bacharel, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva.

Teve idêntica condenação.

António da Costa e Silva, major do regimento de artilharia n.º 4.

Sentença da mesma data, o mesmo defensor e a mesma condenação do antecedente.

António Hipólito da Costa, tenente general.

A sentença é de 25 de Novembro de 1829.

Foi seu defensor, o bacharel, António Ciro Pinto Osório.

A condenação antecedente.

António José da Silva Paulete, coronel de engenharia.

A sentença é da mesma data, com o mesmo defensor, e a condenação antecedente.

Barão de Rendufe, natural do Porto.

A sentença é de 21 de Agosto de 1829: defensor, Francisco Alves de Matos; a mesma condenação, sendo-lhe, de mais a mais, a cabeça espetada em um alto poste, na estrada de Matosinhos, onde estaria até que o tempo a consumisse.

O barão de Rendufe, desforrou-se desta condenação, in mentem, na sessão da câmara dos deputados, de 28 de Março de 1834, mandando para a mesa uma proposta, com dois artigos:

1.º -- Para fazer aplicar ao Sr. D. Miguel I, as penas da Ord. Do L. 5.º, tit. 6.º. como traidor à nação.

2.º -- Que o mesmo senhor, fosse desde logo privado da prestação de sessenta contos anuais, estipulados na convenção de Évora Monte. (prestação que nunca houve tenção de dar-lhe, pois, até o ministro, Agostinho José Freire, disse em plenas cortes, que nunca houve intenção de se cumprirem as estipulações de tal convenção.)

Cândido José Xavier, tenente coronel de caçadores.

A sentença é da mesma data antecedente, e teve o mesmo advogado, e a mesma condenação.

Cristiano Nicolau Kopek, negociante, natural do Porto.

A sentença é de 25 de Novembro do mesmo ano: defensor, António Ciro Pinto Osório

Teve a mesma sentença, menos o ter a cabeça exposta na estrada.

Duarte Guilherme Ferreira, coronel de artilharia n.º 4.

A sentença é de 18 de Setembro do mesmo ano: defensor, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva.

Igual condenação.

Francisco da Gama Lobo Botelho, coronel do regimento de cavalaria n.º 12.

A sentença é da mesma data; teve igual defensor, e condenação idêntica.

Francisco José Pereira, coronel d infantaria n.º 6.

A sentença é da mesma data; teve o mesmo defensor e igual condenação.

Francisco de Paula de Azeredo, marechal de campo, natural de Lamego. (Foi depois primeiro conde de Samodães.)

A sentença é de 21 de Agosto do mesmo ano: defensor, Francisco Alves de Matos; idêntica condenação, acrescentando mais Ter a cabeça em um poste, na estrada de Matosinhos, onde desembarcara, até que o tempo a consumisse.

Francisco de S. Paio, tenente do exército.

Sentença da mesma data, e teve o mesmo defensor: igual condenação; mas a morte não seria de garrote, porém na forca, que se havia de levantar na Praça Nova.

Francisco Saraiva da Costa Refoios, brigadeiro, natural da Guarda.

A sentença é de 17 de Dezembro de 1830: teve igual condenação, menos a exposição da cabeça.

Francisco Zacarias Ferreira de Araújo

A sentença é de 21 de Agosto de 1829, e foi seu defensor, Francisco Alves de Matos: a mesma condenação, e mais com exposição da cabeça, na estrada de Matosinhos. (mas morria enforcado.)

Henrique da Silva da Fonseca, coronel de infantaria n.º 18.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829: defensor, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva; a mesma condenação, menos a exposição da cabeça; mas morreria garrotado.

João da Costa Xavier, capitão do exército.

A sentença é de 21 de Agosto do mesmo ano: defensor, Francisco Alves de Matos; a mesma condenação, acrescentando a exposição da cabeça, na estrada de Matosinhos, e ser enforcado.

Joaquim António de Magalhães, doutor em leis.

A sentença é de 25 de Novembro de 1829: defensor, António Ciro Pinto Osório; a mesma condenação, menos a exposição da cabeça, e teria morte de garrote.

Joaquim José de Queiroz, desembargador da relação.

( Na carta de éditos, está José Joaquim de Queiroz, mas na relação, está, Joaquim José de Queiroz.)

A sentença é da mesma data do antecedente: o mesmo defensor; idêntica condenação.

José Baptista da Silva Lopes, tenente coronel do regimento de artilharia n.º 4.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829: defensor, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva; igual sentença.

José de Barros e Abreu, tenente coronel de cavalaria n.º 12.

A sentença é da mesma data, e teve o mesmo defensor: igual condenação.

José Joaquim Gerardo de S. Paio, desembargador da relação do Porto, e natural da mesma cidade.

A sentença é de 25 de Novembro de mesmo ano, de 1829: defensor, António Ciro Pinto Osório; igual condenação.

José Júlio de Carvalho, tenente coronel de caçadores n.º 10.

A sentença é de 18 de Setembro de 1829: foi seu defensor, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva; a mesma condenação.

José Maria de Sousa, capitão, comandante, de caçadores n.º 6.

A sentença é da mesma data, e teve o mesmo defensor; igual condenação.

José Vitorino Barreto Feio

A sentença é de 21 de Agosto do mesmo ano: defensor, Francisco Alves de Matos; igual condenação; mas a morte seria na forca.

Manuel Alexandrino Pereira da Silva, major de infantaria n.º 18.

A sentença é de 18 de Setembro: defensor, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva; a mesma condenação; porém a morte seria de garrote.

Manuel António Velêz Caldeira, desembargador da relação do Porto, e natural da mesma cidade.

A sentença é de 25 de Novembro: defensor, António Ciro Pinto Osório; a mesma condenação.

D. Manuel da Câmara, tenente de infantaria n.º 14, natural de Lisboa.

A sentença é de 21 de Agosto de 1829: defensor, Francisco Alves de Matos; a mesma condenação, mas acrescia ter a cabeça exposta na estrada de Matosinhos.

Manuel Joaquim Barreto Praça, capitão de cavalaria.

Sentença da mesma data, e teve o mesmo defensor: idêntica condenação, mas a morte seria na forca.

Manuel José Mendes, major do exército.

A sentença é da mesma data, e o mesmo defensor: idêntica condenação.

Miguel Correia de Mesquita, major de caçadores n.º 11.

A sentença é de 18 de Setembro: defensor, Gaudêncio Xavier de Carvalho e Silva; a mesma condenação, mas a morte seria de garrote, e sem exposição da cabeça na estrada de Matosinhos.

Pedro António Rebocho, major de caçadores n.º 10.

A sentença é da mesma data, e teve o mesmo defensor, e igual condenação.

Rodrigo Pinto Pizarro, coronel de cavalaria; natural de Sabrosa, concelho de Vila Real.

A sentença é de 21 de Agosto, e foi seu defensor, Francisco Alves de Matos; a mesma sentença, mas agravada com o ser a morte na forca, e ter a cabeça em exposição na estrada de Matosinhos.

Rodrigo Pinto Pizarro, foi um dos mais bravos oficiais do exército português, e um dos homens mais honrados, leais e enérgicos do partido liberal

Pertencendo em 1830, ao partido da oposição (depois chamado Setembrista, e por fim Patuleia) não quis (por dissenções com o Sr. D. Pedro, Vila Flor e outros) acompanhar o exército liberal, na sua invasão de 8 de Julho de 1832; deixando-se ficar em Paris, para onde tinha imigrado, e de onde escreveu contra a regência daquele príncipe.

Só apareceu em Lisboa, depois de terminada a guerra civil.

O Sr. D. Pedro, mandou-o prender (28 de Junho de 1834) e, no acto da prisão, vociferou contra o príncipe e seus ministros.

Depois da morte do Sr. D. Pedro, foi Pizarro eleito deputado, e depois ministro.

Em 22 de Setembro de 1835, foi feito barão da Ribeira da Sabrosa.

Tomás Guilherme Stubbs, general.

A sentença é também de 21 de Agosto, e foi seu defensor o mesmo antecedente; a mesma condenação, mas a morte seria de garrote.

Tomás Pinto Savedra, tenente de cavalaria.

A sentença é da mesma data, e teve o mesmo advogado; a mesma condenação, porém a morte seria na forca.

Estas ridículas sentenças, não foram mais do que um inútil e aparatoso acto de ferocidade, praticado pelos ministros que o toleraram.

As pessoas ausentes na Inglaterra, na França, na Itália, ou na Ilha Terceira, estavam fora do alcance da vindita desta gente sanguinária, que, não podendo perseguir de outro modo os seus inimigos políticos e particulares, se desforravam enchendo resmas de papel, com sentenças cruelíssimas, que bem sabiam que jamais passariam do papel.

Desta gente dizia-se que alguns, sabendo que era inútil as sentenças imitidas, faziam-no para desacreditar o governo de D. Miguel.

O que é certo, é que muitos indivíduos que, tendo sido cruéis perseguidores dos liberais, desde 1828 até 1834, foram depois encarniçados perseguidores e assassinos dos realistas!

Devemos notar, que os sanguinários ministros que condenaram à morte os 12 desgraçados que foram executados no Porto, ESCOLHERAM os que menos serviços tinham prestado à revolta de 16 de Maio; não se importando com outros que se tinham distinguido nesta revolta, tão desastrosa para os vencidos como para os vencedores – Temos alguns exemplos – o brigadeiro, Luís do Rego, foi para a praça de Elvas, tendo a cidade por menagem.

Os brigadeiros Claudino e Pamplona Moniz, apenas estiveram presos, e o general Pamplona Rangel (visconde de Beire) nada teve que sofrer.

As cabeças dos infelizes que foram executados em 9 de Outubro, estiveram três dias expostas na forca, segundo as sentenças, e ao 3.º dia, a Misericórdia as tirou e mandou enterrar em TERRA SAGRADA.

Depois de 1834, os cadáveres das doze vítimas, imoladas pelos ferozes ministros da alçada, foram recolhidos em um túmulo comum, no pátio da Misericórdia (na rua das Flores) em frente da porta da entrada do pátio, e na frente do túmulo esta inscrição:

AQUI JAZEM

AS OSSADAS DOS MARTYRES DA PATRIA

QUE NO PATIBULO, EM PRAÇA PUBLICA,

TERMINARAM SEUS DIAS,

A 7 DE MAIO E 9 DE OUTUBRO

DE 1829.

Todos os anos, a 7 de Maio, se fazem na igreja da Misericórdia, sufrágios pelas almas destes 12 infelizes, que serviram de escudo àqueles que, ontem como hoje, se servem dos mais fracos para atingirem os seus ignóbeis desígnios.

A alçada condenou:

A pena última, de garrote ou forca 42 – Mas como acabamos de ver, só 12 destas sentenças se executaram; os 30 restantes condenados estiveram presos por diversas cadeias, onde alguns faleceram, e outros foram libertados pelos fins do ano de 1833, e até Maio de 1834.

A diversas penas 30

Absolveu, por sentença, ou por lhe aproveitar o régio indulto 68

Mandou dizer de facto e direito, mas não consta que sentenciasse 23

Remeteu para juízos privilegiados 3

Mandou citar, para se defenderem, mas não houve procedimento 1.930

Foram presos, em diversas terras do reino 1.474

Soma total de todos os indivíduos que estiveram presos por... Liberais, incluindo os que foram executados 1.640

A alçada condenou, só por sentença de 9 de Abril de 1829, a pena última, 23 liberais, os 10 infelizes que foram justiçados em 7 de Maio, e 13 aos quais foi comutada a sentença, em degredo perpétuo, para diversas possessões portuguesas do Ultramar.

16 de Junho de 1829: O governo do Sr. D. Miguel organizou uma expedição, para ir conquistar a Ilha Terceira. Os navios eram comandados pelo chefe de esquadra, Rosa, e a tropa pelo, então coronel, José António de Azevedo e Lemos.

Era composta dos batalhões de caçadores n.º 1 e 11 – dos regimentos de infantaria n.º 7 e 16 – artilharia, sapadores, etc.

Chegando à ilha de S. Miguel, recebeu ainda os segundos batalhões dos regimentos de infantaria n.º 1, 13 e 20, e um parque de artilharia.

11 de Agosto de 1829: Pelas 11 horas e 45 minutos da manhã, fundeou a esquadra realista ( que tinha saído de Lisboa a 16 de Junho) em frente da Vila da Praia, debaixo do fogo de 5 fortes e 3 baterias, não o podendo fazer calar completamente.

Pelas 4 horas da tarde, o bravo tenente Azevedo, à frente de 600 homens, salta em terra, levando os liberais até aos seus entrincheiramentos. Ai foram feridos mortalmente Azevedo e o major D. Gil Eanes da Costa e Sousa de Macedo (irmão do conde da Madeira e filhos dos condes de Mesquitela.)

A tropa, desanimada por este facto, e não tendo uma reserva, tratou de se abrigar dos fogos do inimigo, nos acidentes do terreno, onde os liberais a foram procurar, matando uns e aprisionando outros, sem escapar um único dos que desembarcaram, porque Rosa não quis mandar as suas barcas e chalupas, recebe-los, o que muito bem podia fazer, ao abrigo da escuridão da noite; mas preferiu cometer a cobardia de abandonar aqueles desgraçados ao furor dos vencedores e fugindo com tal medo das águas da ilha, que até mandou picar as amarras, sem ser perseguido por um único navio liberal! Continuava a luta política, os ideais à muito que tinham desaparecido.

Os realistas perderam nesta sua malograda empresa, 25 oficiais e 454 praças de pré, sendo a maior parte, prisioneiros.

30 de Agosto de 1829: Maria da Glória, embarca em Portsmouth, para o Rio de Janeiro, com sua madrasta, a Sr. D. Maria Amélia, imperatriz do Brasil.

16 de Abril de 1830: Nasce nesta cidade, o Sr. D. Américo Ferreira dos Santos Silva, bispo desta diocese.

Estudou em Paris as letras profanas, no exemplaríssimo colégio do célebre padre Sacra-Família.

Concluiu os preparatórios, no Porto, sendo seu mestre, o padre Jerónimo da Costa Rosário, sacerdote também de comportamento exemplar.

Formou-se em teologia e recebeu capelo, na universidade de Coimbra, em 1852, e quatro meses depois, tomou ordens de presbitério.

Em 1853, já era professor de teologia no seminário patriarcal de Santarém.

Foi a Roma com o cardeal patriarca, D. Guilherme, na qualidade de secretário, recebendo então o titulo de monsenhor, e o papa Pio IX o nomeou seu camarista secreto, supranumerário.

Em 1858, foi despachado cónego capitular, da Sé Patriarcal de Lisboa, e pouco depois, reitor e comissário dos estudos, do distrito de Santarém; lugar de que pediu a sua exoneração, pelo seu mau estado de saúde.

Desempenhou com solicitude e inteligência várias comissões, de que foi encarregado, inclusivamente a do governo do patriarcado, tendo por colegas outros dois cónegos, durante a ausência do prelado. Já então o Sr. D. Américo era desembargador e juiz da relação eclesiástica e cúria patriarcal.

Em 1869, foi eleito por unanimidade, vigário capitular do patriarcado, sede vacante, por falecimento do cardeal patriarca, D. Manuel Bento Rodrigues.

Exerceu este emprego até 18 de Junho de 1871.

Em 23 de Dezembro de 1869, foi eleito bispo do Porto, e confirmado pelo Sumo Pontífice, Pio IX, em 26 de Junho de 1871, sendo sagrado em Lisboa, em Setembro do mesmo ano.

Era filho de um negociante dos principais do Porto, e de uma senhora virtuosíssima.

Seu pai, o Sr. João Ferreira dos Santos Silva, foi feito 1-º barão de Santos, em 8 de Abril de 1850. Teve igual titulo, seu irmão, o Sr. João Ferreira dos Santos Silva Júnior, em 12 de Junho de 1860.

1830: O Sr. D. Manuel I manda construir, em S. João da Foz do Douro, o asilo dos náufragos (casa de salva vidas) que o governo liberal vendeu por 300$000 réis, em 1835 (tendo custado 6.400$000 réis!)

Depois do horroroso naufrágio do vapor Porto (29 de Março de 1852) o governo expropriou esta casa, tendo de dar por ela ao seu proprietário 4.200$000 réis!

1 de Julho de 1830: A alçada condena à pena de morte, na forca, a Inácio Moniz, capitão de milícias de Guimarães, e a perdimento de todos os seus bens.

Moniz, prova com documentos autênticos, ser 28.º descendente do famoso D. Egas Moniz, aio de D. Afonso I, e o Sr. D. Manuel, por carta régia, de 16 do mesmo mês de Julho, lhe comuta a pena, em degredo perpetuo para a África.

7 de Abril de 1831: Os brasileiros revoltados, expulsam do trono o Sr. D. Pedro, tendo-o obrigado a abdicar em seu filho, o Sr. D. Pedro II.

O ex-imperador, seria decerto trucidado pelos revoltosos, se não foge para bordo da nau de guerra britânica, Warspite. Nomeou para tutor de seus filhos, o seu melhor amigo, José Bonifácio de Andrade e Silva, porém os brasileiros anularam esta nomeação.

22 de Abril de 1831: Os liberais da Ilha Terceira, tomam a Ilha do Pico.

9 de Maio de 1831: Os liberais da Ilha Terceira, tomam a Ilha de S. Jorge.

23 de Junho de 1831: Os liberais da Ilha Terceira, tomam o Faial.

1 de Agosto de 1831: Os liberais da Ilha Terceira, tomam a Ilha de S. Miguel, e todo o arquipélago açoriano passa a ser Liberal.

O Sr. D. Pedro, unido aos emigrados liberais que estavam em Inglaterra, e sob o titulo de duque de Bragança e regente em nome da rainha, pede protecção aos governos da França, Grã-Bretanha e Bélgica, colocando-se à frente dos liberais. Contrai empréstimos, hipotecando os bens do estado e os das ordens religiosas, e engaja navios e gente para invadir Portugal.

Em Dog-Island reúne-se o casco da divisão inglesa, que marchou para os Açores. Neste arquipélago se fazia também um grande recrutamento, com a possível actividade.

Em Portugal, o governo realista cria um grande exército, para resistir aos liberais. Além das tropas de 1.ª linha, tinha 48 regimentos de milícias, e 52 batalhões de voluntários realistas, tudo na força de 80.000 homens. Isto, além das ordenanças.

2 de Fevereiro de 1832: O Sr. D. Pedro publica um manifesto, no qual alega os direitos de sua filha ao trono de Portugal, e embarca em Belle-Isle, com direcção aos Açores, onde chega no dia 23.

3 de Março de 1832: O Sr. D. Pedro dissolve a regência da Terceira, assumindo ele a mesma regência e a ditadura, e dando todo o impulso aos preparativos da expedição contra Portugal.

Era governador da ilha da Madeira, D. Álvaro da Costa e Sousa de Macedo (filho dos condes de Mesquitela) que o Sr. D. Miguel fez conde da Madeira.

O Sr. D. Pedro o convida a abandonar a causa realista, entregando-lhe a Madeira e Porto Santo, porém D. Álvaro recusa energicamente, como havia feito em 1822, em Montevideo, quando o Sr. D. Pedro o tinha convidado para abandonar a causa da pátria, para se unir à da independência do Brasil, como fez o general Lecór.

D. Álvaro da Costa e Sousa de Macedo, era um dos melhores e mais fieis generais do exército realista, e desde que os liberais se tinham feito fortes na Terceira, tratou da defesa da Madeira, pondo-a em estado de poder resistir vantajosamente aos mais rijos ataques.

O governo português tinha-lhe mandado em Janeiro e Fevereiro, dois reforços de tropas escolhidas, na força de 1.500 praças; munições de guerra, e oficiais para organizarem novos batalhões; de modo que, neste mês de Março a guarnição da ilha constava de 4.000 homens de 1.º linha, e igual número de milícias e voluntários realistas.

Tinha também por si, a maior parte da população da ilha.

A recusa de D. Álvaro, causou grande desgosto e embaraço aos liberais; pois que da Madeira podiam tirar grandes e valiosos recursos, tendo, além disso, mais a seu favor esta bela ilha.

29 de Março de 1832: O Sr. D. Pedro, pois, tenta conquistar, à força de armas, o arquipélago da Madeira, mandando para ele a sua esquadra; porém o almirante Sartorius, que a comandava, vendo a conquista impraticável, contentou-se em bloquear a Madeira, e tomar a ilha de Porto Santo.

29 de Maio de 1832: Ninguém reconheceu este bloqueio, e Sartorius retira destas águas, depois de 55 dias de inútil bloqueio, fundeando nos Açores, e ficando adiado o projecto de conquistar a Madeira.

D. Álvaro mandou logo ocupar a ilha de Porto Santo.

Alguns navios de guerra e mercantes, dos Estados Unidos, e da Dinamarca, entraram no Funchal, sem fazerem caso do bloqueio, e a ilha nunca teve falta de provisões.

O CERCO DO PORTO 1832/34

O Sr D. Pedro embarca com as suas tropas, dando à vela, dos Açores, em direcção a Portugal. A sua esquadra, é, na quase totalidade, tripulada por estrangeiros.

As tropas de desembarque, eram 4.500 portugueses e 3.000 estrangeiros (ingleses, belgas, franceses, polacos, etc.)

O exército realista estava escalonado por todo o litoral português, esperando a chegada dos liberais.

30 de Junho de 1832: O governo do Sr. D. Miguel I, declara em estado de sítio todos os portos do reino, desde que a esquadra do Sr. D. Pedro fosse deles vista.

O Sr. D. Miguel, oferece também uma amnistia a todas as praças de pré do exército liberal, que se apresentassem.

7 de Julho de 1832: Avista-se a esquadra liberal, nas águas da Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Matosinhos.

8 de Julho de 1832: Desembarcam os liberais, na pequena enseada denominada Praia dos ladrões, próximo a Arenosa de Pampelido.

O brigadeiro realista, José Cardoso de Carvalho (que em 6 de Novembro de 1833 foi feito marechal de campo) era governador das armas do Minho, comandante da 3.ª brigada, da 4.ª divisão, e tinha o seu quartel general em Vila do Conde, em cuja povoação estava estacionado o regimento de infantaria n.º 22, e alguns regimentos de milícias do Minho.

Bernardo de Sá Nogueira (depois marquês de Sá da Bandeira) vai, como parlamentário, por ordem do Sr. D. Pedro, convidar José Cardoso, para se lhe reunir; mas ele respondeu que só reconhecia o Sr. D. Pedro, como um chefe de aventureiros, etc., e que, se ele lhe tornasse a mandar outro parlamentário, para o mesmo fim, o mandaria fuzilar.

O general, visconde de Santa Marta comandante da 4.ª divisão do exército realista, saiu do Porto, pela manhã deste dia 8, em direcção a Arenosa de Pampelido, com o regimento de Braga e um esquadrão de cavalaria de Chaves !!! E pôs-se a ver o desembarque, a distância de tiro de canhão!

O visconde de Santa Marta, tinha uma divisão de quase 15.000 homens, e portanto, o dobro das forças liberais; mas, apesar disso, recolhe ao Porto e ordena a retirada, deixando em poder dos liberais, todo o material de guerra que estava nas arrecadações, assim como as munições, que estavam nos paióis; toda a artilharia do castelo da Foz, etc. etc.

Á meia noite deste dia 8, forma a tropa realista, em vários pontos da cidade do Porto, e nessa mesma noite retira tudo precipitadamente, e na maior confusão, para Vila Nova de Gaia, como se sobre esta gente viesse um inimigo, dez vezes superior em forças.

9 de Julho de 1832: O Sr. D. Pedro e o seu exército, entram na cidade abandonada, logo pela manhã, no meio dos maiores regozijos dos seus habitantes, cuja maior parte eram liberais.

10 de Julho de 1832. Os realistas entretêm-se a fazer fogo de artilharia, sobre os navios da esquadra liberal, que tinham fundeado no rio Douro, nesse mesmo dia, e que respondiam ao fogo do inimigo com os tiros das suas peças.

Os realistas também metralham a cidade, e esta, do mesmo modo respondeu com a sua artilharia ligeira.

Na noite do mesmo dia 10, Santa Marta foge (é o termo) para Grijó, e no dia seguinte, para Oliveira de Azeméis, a 42 quilómetros do Porto; abandonando a formidável posição da Serra do Pilar (como havia abandonado o castelo de S. João da Foz) ponto importantíssimo, e sem a posse do qual era impossível a conservação dos liberais no Porto.

O Sr. D. Pedro, apenas entra na cidade, proclama à nação, alegando os direitos de sua augusta filha à coroa de Portugal.

Nos dias 10 e 11 de Julho: o Sr. D. Miguel I proclama ao povo português e ao exército, alegando igualmente os seus direitos ao trono.

Os soldados que tinham sido aprisionados nos Açores, e que vinham no exército liberal, assim como a maior parte dos recrutas feitos nos Açores, principiam logo a desertar para o exército realista.

Do Sul do reino, marcham tropas sobre o Porto.

Os generais realistas, viscondes de Monte Alegre e de S. João da Pesqueira, com milícias e voluntários realistas do Minho e Trás-os-Montes, aproximam-se do Porto, pelo lado do Norte, em observação aos movimentos do exército liberal.

A 4.ª divisão do exército de operações, marcha para o Norte do Douro.

15 de Julho de 1832: O general Póvoas, marcha também para a frente, nos dias 15 e 16 de Julho.

18 de Julho de 1832: Os liberais fazem uma sortida para o Noroeste do Porto, e tem lugar um combate, em Paredes, entre o batalhão de voluntários realistas de Braga, comandado pelo coronel Leite Pereira -–e um batalhão inglês, e outro de infantaria n.º 18, com duas peças de campanha, comandadas pelo coronel Hodges.

Os voluntários realistas sustentaram, por algumas horas, com grande bravura, o fogo dos contrários; mas, em razão da desigualdade de forças, retiram, debaixo de fogo, para Penafiel. Ali se lhes uniram 300 ordenanças, e, depois de um vivo fogo, nas ruas da cidade, e tendo os realistas gastado todo o seu cartuchame, retiram. Os ingleses deixaram nas ruas 40 e tantos mortos, antes de ficarem senhores da cidade, onde se demoraram 5 horas, entretendo-se em incendiar e reduzir a cinzas o mosteiro dos frades capuchos de Santo António.

Vendo Hodges que não podia conservar-se tão isolado do exército liberal, e que, de um momento para outro, podia ser envolvido por forças inimigas muito superiores, retira para o Porto.

22 de Julho de 1832. Os liberais atacam na Granja e em Ponte Ferreira os realistas, com o maior denodo, sendo com o mesmo repelidos; e, depois de 10 horas de fogo, e de grandes perdas de parte a parte, ficam os beligerantes nas suas antecedentes posições.

O conde de Vila Flor marcha, na noite de 22, para Ponte Ferreira, com um reforço de 5.000 homens, para no dia seguinte continuar a batalha contra as tropas do visconde de Santa Marta.

O Porto ainda não estava fortificado, e tinha as suas linhas de defesa pouco guarnecidas; mas, apesar disso, Vila Flor, para levar este reforço, tinha desguarnecido não só as posições em volta do Porto, mas até mesmo a da Serra do Pilar, e tanto receio teve de ser esta posição atacada e tomada pelo general realista Póvoas, que mandou cortar a ponte sobre o Douro.

Se Póvoas, que tinha as suas tropas acampadas desde Grijó até aos Carvalhos, atacasse com alguns corpos a Serra do Pilar, mandando o resto das suas forças para Ponte Ferreira reforçar Santa Marta, terminava a guerra no dia 23 de Julho, mas preferiu ver os touros de palanque. Só no dia 27 é que se dignou marchar sobre Vila Nova de Gaia!

23 de Julho de 1832: Pelas 11 horas da manhã, principia a batalha, que durou até ás 8 da noite.

De ambas as partes se combateu com o fervor mais encarniçado, e as perdas foram grandes, tanto dos realistas, como dos liberais.

O resultado desta batalha, foi retirarem os liberais (alguns em grande desordem) para o Porto, e os realistas fugirem para Baltar, e de lá para Penafiel, também na maior desordem, chegando alguns até Vila Real, e outros até Amarante.

Ao passo que os realistas assim fugiam em desordem, sem que ninguém os perseguisse, um terror pânico se tinha apoderado das tropas que haviam ficado no Porto, e dos habitantes desta cidade: foi o caos – participaram a D. Tomás Mascarenhas, governador militar da cidade, que os realistas haviam surpreendido, nos seus acampamentos, todas as forças liberais, pondo-as em completa derrota, e que o Sr. D. Pedro tinha fugido a toda a brida para Matosinhos, de onde embarcara para Inglaterra. Esta notícia espalhou-se no Porto com a rapidez do raio, e tudo ficou aterrado.

D. Tomás Mascarenhas fez reunir na torre da Marca toda a tropa que havia no Porto, pronta a embarcar à primeira ordem, fazendo recolher aos navios surtos no Douro, as secretárias, arquivos militares e muitas bagagens. Também alguns magistrados e empregados públicos fugiram para bordo, chegando alguns navios a sair a barra, rebocados por um vapor.

24 de Julho de 1832: Pelas 7 horas deste dia, publicou o Sr. D. Pedro uma proclamação, declarando a falsidade de tal notícia, e o pânico cessou.

Não se chegou a saber, tanto a razão porque os realistas fugiram no fim da acção de 21, como a origem do boato que aterrou os portuenses!

2 de Agosto de 1832: Duas escunas liberais, ás ordens do almirante Sartorius, ameaçam a Figueira, mas, tendo-se-lhes feito fogo do castelo, por ordem do coronel realista, José Pedro Melo, governador do castelo, retiraram.

Também fundearam em frente de Vila do Conde, chegando a deitar gente em terra; porém o fogo do seu castelo os fez retirar.

A mesma sorte teve a tentativa sobre Aveiro, e a segunda contra Vila do Conde.

O Sr. D. Pedro, cujo plano era, com a vitória de Ponte Ferreira, arremessar os realistas para Trás-os-Montes; como os resultados não corresponderam ás suas esperanças, resolveu atacar o general Póvoas, nas suas posições, fazendo-o retirar para o Sul.

6 de Agosto de 1832: Com este fim, o conde de Vila Flor sai do Porto, na noite deste dia 6, com as forças que julgou necessárias.

7 de Agosto de 1832: O brigadeiro realista, Caetano Alberto de Sousa Canavarro, comandante da 1.ª brigada, que tinha as suas avançadas nos Carvalhos, dá parte ao general Póvoas (à 1 hora da madrugada do dia 7) que aquelas tinham sido atacadas, e as fizera retirar sobre Grijó. Daqui foram os realistas retirando sobre o lugar das Airas, ou Souto Redondo, onde estavam as reservas realistas. (A antiga estrada real, divide a aldeia de Souto Redondo, da das Airas. Esta pertence à freguesia de S. Jorge de Caldelas, e aquela à de S. João de Ver, ambas no concelho da Feira: entretanto, estas duas povoações não formam verdadeiramente mais do que uma aldeia, e por isso se lhe dá indistintamente o nome de Souto Redondo, e das Airas.)

Ao nascer do sol, os batalhões de voluntários realistas de Mangualde e de Penafiel, e um meio esquadrão de cavalaria n.º 8 do Fundão, são atacados pelos atiradores liberais, contra os quais aqueles resistem, dando a cavalaria duas cargas, que os fez suspender o seu movimento para a frente, retirando os realistas, só ás 9 horas, por ordem de Póvoas.

As pequenas vantagens obtidas pelos liberais, desde a uma hora do dia 7, e a sucessiva, retirada dos realistas, de todas as posições avançadas, animou tanto aqueles, que julgaram certa a vitória, pelo que avançaram estouvadamente, ás nove e meia da manhã, e quase em desordem, contra o grosso das tropas realistas, postadas em Souto Redondo.

Contavam tanto com a derrota dos realistas (ou talvez com a entrega de grande parte das suas tropas) que muitos traziam lenços azuis e brancos, atados nas baionetas, em vez de bandeiras, e vinham cantando o hino da rainha uns, outros o da carta.

O regimento de infantaria de Bragança n.º 24, comandado pelo coronel António José Doutel, estava formado ao fim do lugar, do lado do Sul, em coluna de grandes divisões. Póvoas recomendou ao comandante, que, depois da ordem do brigadeiro Canavarro, só desse uma descarga, atacando logo o inimigo, à baioneta.

Os liberais tinham postado a sua artilharia em um monte, ao Oeste da aldeia, e a sua metralha e um nutrido fogo dos seus atiradores, fez bastantes baixas nos realistas; cujas tropas inactivas estavam desesperadas por não entrarem em acção.

Então Póvoas decidiu-se a atacar. O regimento 24 dá uma terrível descarga, quase à queima-roupa, e, apoiado por um esquadrão de cavalaria n.º 8, comandado por José Urbano de Carvalho, dá uma horrorosa carga de baioneta, contra a artilharia liberal, que lhe ficava em frente, tomando uma peça e um obus.

A bravura e sangue frio do 24, e a rudez do seu ataque, aterrou os contrários, pondo-os em completa derrota, e fazendo-os retirar sobre o Porto.

Toda a divisão realista os perseguiu até perto dos Carvalhos, causando-lhes perdas enormes, não só pelo de fuzilaria, como pelas repetidas cargas de cavalaria.

Dois homens e dois regimentos se cobriram neste dia de uma glória imemorável – Foi, da parte dos realistas, o coronel Doutel, e o seu regimentos de infantaria n.º 24, pelo rigor da sua disciplina, pela sua inimitável coragem, e pelo seu imperturbável sangue frio.

Porém o coronel Pacheco (um dos mais bravos oficiais do exército liberal) e o seu regimento (infantaria n.º 10) renovaram neste dia, tão infausto ás armas do Sr. D. Pedro, as memórias gloriosas dos feitos militares que enobreceram as legiões romanas, excedendo em sangue frio, coragem e abnegação, os feitos legendários da guarda imperial de Bonaparte.

No meio da desordem geral, que o pânico tinha causado nas tropas de Vila Flor, só o regimento de infantaria n.º 10 conservou a mais rigorosa disciplina, retirando sempre na melhor ordem, apesar das repetidas cargas da cavalaria contrária, que o dizimava, e Pacheco comandava com tanta presença de espírito, como o poderia fazer em uma parada.

Se não fosse a bravura e sangue frio do 10 de infantaria, que protegeu a retirada das outras tropas, poucos chegariam ao Porto.

Este distintíssimo oficial (o coronel Pacheco) sendo chefe do estado maior do general Stubs, e depois de escapar nos mais sanguinolentos combates, veio a morrer em um miserável reconhecimento, no sitio da Areosa (arrabaldes do Porto) no dia 1 de Dezembro de 1833.

As perdas dos liberais, em Souto Redondo, foi imensa, tanto física como moral. Além de mais de 300 prisioneiros e apresentados, tiveram mais de 600 mortos ou feridos; e a guarnição e povo do Porto ficaram aterrados com semelhante e tão inesperada derrota.

Se Póvoas se tivesse sabido aproveitar da vitória (ou, se tivesse vontade disso...) entraria no Porto, de envolta com os restos da divisão liberal; mas, ele contentou-se com a glória de vencer a batalha – triunfo que, em grande parte, deveu ao regimento n.º 24 e ao seu comandante – e, não só deixou os liberais retirarem sem fogo, desde os Carvalhos, mas até mandou colocar nesta povoação a maior parte da sua cavalaria, com as espadas desembainhadas, impedindo que a infantaria e os caçadores continuassem a perseguição do inimigo.

O Sr. D. Pedro, DESENGANADO de que lhe tinham mantido os que na Inglaterra lhe tinham asseverado, que apenas desembarcasse em Portugal, se levantaria todo o reino em seu favor, trata de fortificar seriamente o Porto, e esperar os acontecimentos.

Os realistas continuam a aglomerar tropas em redor do Porto; mas a intriga lavra nos seus generais.

O visconde do Peso da Régua (Gaspar Teixeira) é feito comandante em chefe do exército de operações contra o Porto.

8 de Setembro de 1832: A Segunda divisão realista, que estava nos Carvalhos (a 10 quilómetros do Porto) avança sobre Vila Nova de Gaia, e toma esta posição.

No mesmo dia, atacam a Serra do Pilar, mas são repelidos com grandes perdas. Distinguiu-se neste ataque, o regimento de milícias de Tondela, que chegou a dar uma carga de baioneta, já dentro da cerca; mas perdeu muita gente, e teve o seu bravo coronel (Rodrigo de Sousa Tudela, denominado – o fidalgo do Atalho – próximo a Águeda) gravemente ferido.

10 de Setembro de 1832: Neste dia uma força liberal do Porto, e a guarnição da Serra do Pilar, fazem uma sortida sobre Vila Nova de Gaia; mas são repelidos. Os realistas os perseguem até à Serra do Pilar; porém são rechaçados.

11 de Setembro de 1832: A esquadra realista estabeleceu o bloqueio do Porto, previamente anunciado ás nações estrangeiras, que o reconhecem. Esta esquadra compunha-se de uma nau, uma fragata, duas corvetas, dois brigues, e um vapor.

Era comandada pelo almirante João Felix Pereira de Campos, reconhecido como bom oficial de marinha, mas de sentimentos liberais – O mesmo que, com o general Madeira, havia respondido a conselho de guerra, por abandonar a Baia, em 1823.

Os realistas construem baterias em redor do Porto, e as dos liberais são ampliadas e reforçadas: isto dá em resultado ser metralhado o campo dos realistas, e a cidade, morrendo gente, e arrasando muitos edifícios do Porto e de Vila Nova de Gaia.

Os liberais fazem frequentes sortidas sobre o campo inimigo, sendo quase sempre repelidos.

29 de Setembro de 1832: Gaspar Teixeira, ataca as linhas do Norte do Porto, por três pontos diferentes. De ambos os lados se bateram com encarniçamento.

O capitão Travassos, de artilharia, chega a entrar na cidade com as suas peças; mas é morto, e a sua gente, desanimada, retira.

O regimento de milícias da Figueira, julgando que o 2.º batalhão do novo regimento de infantaria de Lisboa (que substituiu o n.º 4) era um batalhão francês, lhe deu uma descarga, que lhe matou 39 soldados e fez muitos feridos; o que causou grande confusão nos realistas.

Foi à voz de – «Estamos cortados pelos franceses!» -- que as milícias fuzilaram a infantaria.

O engano procedeu das barretinas à francesa que trazia o batalhão.

Custa a compreender como se desse este engano. As tais barretinas do novo padrão, já eram usadas pelos regimentos de infantaria n.º 1, 7, 13 e 16 – todos os quatro regimentos de caçadores – do Alentejo (n.º 1) da Beira Alta (n.º 4) – do Minho (n.º 7) e da Beira Baixa (n.º 8) – e até já usavam destas barretinas os regimentos de milícias de Guimarães, Lousa e outros – e até o próprio da Figueira!

Este acontecimento prova a desordem e... desmazelo que reinava no exército realista.

As forças que atacaram o Porto, andavam por 10.000 homens, dos quais, perto de 2.000 morreram junto ás trincheiras. Os liberais também tiveram grandes perdas.

Em todos os ataques ás linhas do Porto, ficavam os realistas com muito menos número de mortos do que de feridos (como acontece em todas as batalhas) porém entre os liberais, dava-se o contrário – os mortos eram em maior número do que os feridos, e estes, quase todos gravemente; porque, estando a coberto pelas trincheiras, todos eram feridos da cinta para cima.

Finalmente, depois de 8 horas de fogo violentíssimo, tanto de artilharia como de fuzil, os realistas retiram, sem terem conseguido mais do que morrerem e matarem.

6 de Outubro de 1832: O Sr. D. Miguel I, nomeia o duque de Cadaval marechal do exército e comandante em chefe de todas as tropas da capital e da província da Estremadura; assim como de todas as baterias das duas margens do Tejo, e das mais que faziam a defesa de Lisboa (Peniche, Ericeira, Cascais, Setúbal, etc.)

10 de Outubro de 1832: A esquadra realista, comandada por João Felix, tinha arribado a Vigo, por causa de um temporal. Saiu deste porto neste dia 10, e no dia seguinte, pelas duas horas da manhã, encontra-se com a esquadra liberal, comandada por Sertorius, nas alturas das Ilhas de Baiona.

A esquadra liberal opera a sua retirada ás 4 da tarde.

14 de Outubro de 1832: Os realistas atacam furiosamente a Serra do Pilar, resistindo os liberais com igual valor; e, como estavam cobertos pelas suas trincheiras e baterias, fizeram grande destroço nos contrários, matando e ferindo muitos distintos oficiais e grande número de praças de pré.

O bravíssimo brigadeiro Peixoto, foi, nesta acção, mortalmente ferido, morrendo no hospital de sangue, estabelecido no mosteiro de Grijó, no dia 16 deste mês. Foi uma grande desgraça para os realistas – que retiram com grandes perdas.

16 de Outubro de 1832: O Sr. D. Miguel I resolve colocar-se à frente do seu exército de operações, sobre o Porto e a Serra do Pilar.

Sai de Lisboa neste dia 16, com suas irmãs, as infantas, D. Isabel Maria, e D. Maria da Assunção. Entram no dia 20 em Coimbra, no meio de grande entusiasmo e dos maiores demonstrações de regozijo público.

24 de Outubro de 1832: Os realistas, comandados pelo brigadeiro, João de Abreu Castelo Branco, dão outro ataque à Serra do Pilar; sendo, como das mais vezes, bravamente repelidos. Foi o último ataque que deram a este glorioso reduto das tropas liberais.

26 de Outubro de 1832: O visconde de Veiros (general Leite) é exonerado do governo das armas da Estremadura, mas nomeado marechal do exército, em atenção aos grandes serviços prestados à pátria. O visconde do Peso da Régua, é, no mesmo dia, exonerado de comandante em chefe do exército de operações, contra o Porto, e vai ocupar o governo do visconde de Veiros. O visconde de Santa Marta, é nomeado comandante em chefe do exército de operações. Todas estas mudanças se efectuaram neste dia 26, dia em que o Sr. D. Miguel I fazia 30 anos de idade.

29 de Outubro de 1832: A família real sai de Coimbra, pernoitando nesse dia em Agueda, e no dia 30, no palacete de Alexandre Luciano Soares de Albuquerque, do Buraco, na freguesia do Couto de Cocujães – primo do Sr. Pinho Leal – autor do Portugal antigo e moderno.

1 de Novembro de 1832: O Sr. D. Miguel I, atravessa rapidamente as posições do seu exército, e entra em Braga... com as Infantas.

«A saída da capital, foi um grande erro do Sr. D. Miguel, ou de quem o aconselhou; porém, uma vez que deu esse passo, tão deplorável para a sua causa, devia conservar-se à frente do exército, do qual, para evitar as grandes intrigas que nele lavravam, se devia declarar comandante em chefe.

É preciso falar claro a todos. Não me importa que os liberais me chamem miguelista; nem que os realistas digam que já bebi água... dos amores – o que quero é dizer a verdade, seja a favor, ou contra quem for; e por isso, afirmo que – o SR. D. MIGUEL I, NUNCA TOMOU A SÉRIO O OFÍCIO DE REI.

Abandonou completamente as rédeas do governo, a ministros, áulicos e conselheiros – ou néscios, ou sanguinários, ou traidores (quando não eram tudo junto!)

As suas ocupações predilectas, eram os toiros, cavalos, caçadas, o torno etc. etc.

(Quem sai aos seus não degenera. Seu bisavô, D. José I, abandonou o governo do reino, a Sebastião José de Carvalho e Melo, deixando-o fazer quanto quis – isto é – muitas coisas óptimas, muitas boas, e muitas péssimas. A vida do rei, era estar ao torno, fazendo carapetas, espirais, bilros, piões, etc. etc. – por isso o povo dizia -- «O marques de Pombal, está no trono, e o rei está ao torno.» -- O Sr. D. Miguel também tinha torno; mas faltava-lhe um marquês de Pombal

Se os papéis se trocassem – isto é – se o Sr. D. Pedro estivesse no lugar de seu irmão, e este no daquele, não teria existido a desgraçada guerra fratricida de 1832 a 1834.

O Sr. D. Pedro, era um bom guerreiro, um óptimo chefe, e um trabalhador infatigável. De noite e de dia, examinava as suas baterias, percorria toda a sua linha de defesa; olhava a tudo, e a tudo providenciava – tomando por divisa – vencer ou morrer.

O Sr. D. Miguel nutria o firme propósito de se deixar sempre iludir e atraiçoar, para que sustentou a guerra por dois anos, consentindo que os portugueses se despedaçassem uns aos outros, e que Portugal fosse tão cruelmente devastado?

Se ele tinha tenção de se deixar vencer – praticaria um acto de virtude e patriotismo, se, logo que seu irmão entrou no Porto, proclamasse ao seu povo, dizendo -- «Não quero ser vosso rei: prefiro ser um simples particular, e viver uma vida de divertimentos de toda a casta; por isso, unam-se ao meu augusto irmão, e reconheçam como rainha de Portugal, a Sr.ª D. Maria II.

Quantas desgraças se evitavam, se ele assim obrasse?!»

(Assim escrevia Pinho Leal)

O Porto estava completamente e rigorosamente cercado. A tropa e o povo, sofriam grande falta de viveres. Os navios que se arrojavam a entrar a barra com mantimentos, eram metidos a pique. Muitos sitiados (mesmo estrangeiros) por causa da fome, passavam para os sitiantes.

Os liberais continuavam as suas sortidas, no intuito de obter mantimentos, mas eram sempre repelidos, perdendo inutilmente oficiais e soldados.

10 de Novembro de 1832: O Sr. D. Pedro não tinha dinheiro para a compra de munições, nem para pagamento dos soldos e prés aos estrangeiros – nem quem lho emprestasse; mas, neste dia 10, consegue que o barão de Quintela lhe adiante 2.500 contos de réis, pelo exclusivo do tabaco, por 12 anos.

Nos dois exércitos beligerantes, lavra a intriga entre os oficiais superiores, o que produz repetidas mudanças nos comandos das divisões e brigadas.

No exército realista, o brigadeiro José António de Azevedo e Lemos toma o comando da 3.ª divisão, e o tenente general Sarmento, o do 4.º -- No exército liberal. É tirado o comando ao conde de Vila Flor; mas, em atenção aos seus muitos serviços à causa da carta, é feito duque da Terceira.

28 de Novembro de 1832: Os liberais, em força de 6.000 homens, fazem uma sortida, sobre os acampamentos de Ramalde e Paranhos, que pertenciam à 2.ª e 4.ª divisões realistas; conseguindo incendiar algumas barracas; mas, o brigadeiro Teles Jordão, à frente de um esquadrão de cavalaria n.º 6 (dragões de Chaves) os obriga, com uma furiosa carga, a retirar precipitadamente para a cidade.

17 de Dezembro de 1832: Mais infelizes foram ainda os liberais na sortida ao Candal, apesar de bem delineada, e de bem tomadas precauções.

Um batalhão inglês e outro francês, marcharam na noite de 16 para 17, em reforço da guarnição da Serra do Pilar, na intenção de protegerem a esquerda e centro dos atacantes.

O brigadeiro João Schwalbak (que em 23 de Setembro de 1835, foi feito barão de Setúbal, e em 13 de Outubro de 1843, visconde do mesmo titulo) comandante da divisão ligeira, passou com esta (em força superior a 3.000 homens) na madrugada de 17, o rio Douro, desembarcando em Vale de Piedade. Parte destas tropas chegaram a avançar até ao alto da Bandeira, onde os caçadores liberais do batalhão n.º 5, chegaram a misturar-se com o batalhão de voluntários realistas de Vila Flor, suponde-os dos seus, porque o uniforme era igual. (gola e canhões encarnados).

Outra secção dos liberais avançou até ao Candal, na intenção de distrair a atenção do inimigo, enquanto o resto das suas forças, arrombava os armazéns da companhia, para levarem para o Porto todo o vinho que podiam. Nada conseguiram.

O general Lemos os arrojou de Vila Nova, levando-os até à margem.

Mais triste sorte experimentaram os que investiram pelo Candal.

Na quinta da Telheira estava acantonado o 2.º regimento de infantaria de Elvas (n.º 17) o batalhão de voluntários realistas da Covilhã e Fundão, e o regimento de milícias de Lamego.

No Candal, estava o batalhão de voluntários realistas de Castelo Branco e Penamacor, comandado pelo seu bravo tenente coronel, José de Pina Machado de Morais Borges Ferraz, e toda a brigada era comandada pelo brigadeiro Luís Cândido Tavares Osório.

Estas tropas, que estavam todas debaixo de forma, por ser a hora da descoberta, caíram inopinadamente sobre os liberais, arrojando-os até à beira do rio.

Os liberais, ainda poderam encravar a artilharia do forte da Afurada; mas com a pressa, ficou tão mal encravada, que os realistas rapidamente a desencravaram, e logo fez fogo aos contrários.

Os liberais ainda resistiram à volta de uma hora, na margem do rio, e, enquanto uns incendiavam o mosteiro – que ficou todo reduzido a cinzas – outros sustentavam o fogo, para protegerem a junção dos que estavam nos armazéns; mas, acometidos encarniçadamente pela brigada de Luís Cândido, embarcaram tumultuosamente, depois de ficarem muitos mortos ou prisioneiros na praia, e morrendo ainda muito maior número afogados no rio.

Presenciou-se então um facto, que horrorizou não só os liberais, mas os próprios realistas. As tropas de Schwalbach, cujos barcos tinham ido a pique, com as balas do inimigo, agarravam-se ás amarras de dois brigues de guerra ingleses, que estavam fundeados em frente de Vale de Piedade, para saltarem dentro dos navios e se salvarem de uma morte horrorosa; mas os ingleses os empurravam para o abismo, tendo alguns mesmo a crueldade de lhes cortarem as mãos com os terçados de marinha.

Nesta desgraçada tentativa, perderam os liberais uns 500 homens, entre mortos, feridos e prisioneiros.

Neste dia 17 de Dezembro, o Sr. D. Miguel I passou revista ás tropas realistas, acantonadas em redor do Porto, e no dia seguinte ás que guarneciam Vila Nova de Gaia.

19 de Dezembro de 1832: O Sr. D. Miguel I foi visitar a fundição de Crestuma, e logo no dia seguinte tornou para Braga, que foi a Cápua deste príncipe sem cuidados.

1833: Os chefes realistas, decidem reduzir o Porto pela fome; e, para isso, tratam de construir uma formidável linha de baterias, desde S. Payo até Quebrantões; construindo mesmo uma bateria na extremidade norte do Cabedelo, a tiro de pistola do castelo de S. João da Foz.

Além disso, tinham uma esquadrilha de barcos, artilhados, em Avintes, para rondarem o rio.

Deste modo, muito poucos géneros alimentícios entravam no Porto, e esses mesmos só com grande risco dos seus condutores.

Vários navios que se aventuravam a entrar a barra com mantimentos e outros géneros, eram metidos a pique, pela artilharia realista. Só em um dia, foram ao fundo, treze desses navios com pequeno intervalo de tempo, uns dos outros.

A fome, com todos os seus horrores, ameaçava os cercados.

As tropas estrangeiras, por falta de pagamentos, e pelo sofrimento de várias privações, estavam insubordinadas.

A causa liberal estava a ponto de sucumbir, não só pela fome, mas também pela desarmonia dos seus chefes, pela falta de dinheiro para se fazerem os recrutamentos no estrangeiro, e pelas continuas deserções para o campo inimigo. – Do exército sitiante também desertavam para o Porto; mas, em menor número.

Os homens mais bem intencionados de ambos os partidos, e que previam que, se a guerra fosse terminada à força de armas, Portugal se transformaria por algum tempo em um lago de sangue de seus filhos, tentaram uma convenção; e este projecto foi sincera e energicamente aprovado e apoiado pelos ingleses. – As bases desta convenção eram:

1.ª, que o Sr. D. Miguel I casaria com sua sobrinha.

2.ª, que o Sr. D. Pedro iria residir, por alguns anos, para Viena de Áustria.

3.ª, que os chefes principais do exército liberal, sairiam para fora do reino, temporariamente.

4.ª, que seriam garantidos os postos dados pelo Sr. D. Pedro, e que entrariam nas fileiras do exército realista, todos os oficiais do liberal que o requererem.

Os franceses, porém, em ódio à Inglaterra, que patrocinava esta convenção, instigaram, com todas as suas forças, os liberais à resistência.

1 de Janeiro de 1833: Neste dia, conseguiu desembarcar, fora da barra do Porto, o general francês João Baptista Polignac. – Este Polignac, é o valentão nosso conhecido que, tendo fugido (Junho de 1808) à vista das ordenanças de Tomar; depois, sob as ordens de Margeron, e na companhia do príncipe de Salm-Salm, atacaram com cavalaria e infantaria, o círio de Nossa Senhora da Ameixoeira (a 4 de Julho de 1808) junto à Vila de Alcoentre, fazendo uma ignóbil carnagem nos romeiros, e tomando-lhes as duas bandeiras da Senhora, que foram para o museu de artilharia de Paris, como trofeus de uma grande batalha e gloriosíssima vitoria, pois como tal foi publicada no Monitor, folha oficial francesa.

Desta vez, Polignac não matou alguns velhos, mulheres e crianças pacíficos e indefesos, ás cutiladas e fuzilaria, mas muitos milhares de portugueses com a peste de que foi portador.

Acompanhavam este Polignac, 118 recrutas belgas; mas 11 destes, vindo doentes com o cholera-morbus, o comunicaram aos seus camaradas, e em breve à cidade do Porto e a todo o reino, morrendo deste flagelo muitos milhares de pessoas, de todos os sexos e idades.

2 de Janeiro de 1833: Desembarcou também, no mesmo sítio, o general Froment, com 150 recrutas franceses.

O Sr. D. Pedro dá o comando em chefe do seu exército a Polignac, com o posto de major general.

O governo espanhol obriga a sair de Vigo a esquadra de Sartorius; proibindo que lhe vendessem viveres.

8 de Janeiro de 1833: Os Miguelistas, tentam desembarcar na Foz, sendo repelidos com grandes perdas.

24 de Janeiro de 1833: Sartorius, navegando para o Sul, ataca o castelo do Queijo e, depois de rijo fogo de parte a parte, teve de retirar.

Neste dia, sete batalhões e um esquadrão de lanceiros liberais, fazem uma sortida por Lordelo e Nevogilde, que não teve outro resultado senão derramar-se muito sangue de portugueses. – já não eram as campanhas de 1823 (guerra da poeira) nem as de 1826 e 1827, nas quais, cada bando, sem se esquecer do lema da sua bandeira, lembrava-se que todos eram portugueses. Agora estava tudo mudado! Realistas e liberais, eram duas hordas de canibais, tratando de cometer toda a casta de atrocidades contra os do partido oposto!

Os marinheiros da esquadra liberal, revolucionam-se, por falta de pagamentos: levam os navios para a ilha de Bayona, e dali, Sartorius exige que o Sr. D. Pedro pague os soldos atrasados, para ele, oficiais e marinheiros; ameaçando-o de voltar para a Inglaterra e vender lá os navios, para pagamento dos soldos em dívida.

No Porto, não era menor a insubordinação dos estrangeiros. Hodges e outros oficiais e soldados, de diferentes nações, deixam o serviço do Sr. D. Pedro, e abandonando o Porto, vão uns para a Inglaterra, e outros para os realistas.

O Sr. D. Pedro, achando-se em tamanhos apuros, por falta de dinheiro, vê-se obrigado a lançar um tributo de um milhão de cruzados à cidade do Porto.

21 de Fevereiro de 1833: O ministro da guerra, do Sr. D. Miguel (conde de S. Lourenço) é feito general em chefe do exército de operações, sendo substituído na respectiva pasta, pelo conde de Barbacena, que era chefe do estado maior general do exército.

4 de Março de 1833: O conde de S. Lourenço resolve atacar o Porto, tanto pelo Norte, como pelo Sul, neste dia 4 teve lugar um rijo combate, no qual entrou também a esquadrilha de barcos, do Douro. Depois de um dia de sanguinolentos combates, em vários pontos, ao realistas recolhem aos seus acampamentos, depois de abandonarem as posições que com tantas perdas de vidas tinham conquistado.

O Sr. D. Pedro dirige uma carta, ocultamente, ao conde de S. Lourenço, convidando-o, sob grandes promessas de prémios tentadores, a que tivesse com ele uma conferência – o conde recusa.

A peste, a fome e a guerra, fazem horríveis destroços nos habitantes do Porto.

13 de Março de 1833: O Sr. D. Pedro, vendo que Sartorius continuava na mesma insubordinação e ameaças, demite-o, nomeando em seu lugar o capitão Crosby; porém Sartorius recusa entregar o comando, sem que lhe pagassem o que lhe deviam, e aos seus.

O príncipe manda Crosby e Doyle à esquadra, com ordem de prender Sartorius, mas este, prende-os e mete-os no porão da fragata D. Maria II.

Na esquadrilha realista não corriam as coisas melhor a favor do Sr. D. Miguel. O almirante, João Felix, é exonerado do comando, e nomeado major general da armada e inspector do arsenal da marinha. O comando da esquadra foi dado ao chefe de divisão Aboim. – Este Aboim foi sempre conhecido por liberal, e em breve se conheceu que o era. Foi um passo erradíssimo (se não foi traição) entregar-lhe o comando da esquadra. João Felix também passava por liberal; mas era um caracter honradíssimo, no qual se podia depositar plena confiança.

24 de Março de 1833: Teve lugar a acção chamada das Antas, na linha de defesa da cidade, e ao norte dela. O resultado foi correr muito sangue, como sempre!

25 de Março de 1833: Os liberais, fazem uma sortida sobre a bateria do Cabedelo, mas são repelidos.

9 de Abril de 1833. Os liberais, atacam e tomam a bateria do Covelo.

10 de Abril de 1833: Os realistas, tentam reconquistar a bateria do Covelo, porém são repelidos.

O Sr. D. Pedro manda expulsar do Porto, os velhos, as crianças e os estropiados. O Sr. D. Miguel manda recolher as crianças no colégio dos jesuítas, de Coimbra. Os que eram militares foram para veteranos, e aos mais, deu-se também abrigo e alimento. – Ainda havia sentimentos, apesar do ódio reinante.

A VERGONHA DO SR. D. PEDRO!

O Sr. D. Pedro não tinha consentido que o general Saldanha o acompanha-se para Portugal; porém, vendo a que ponto haviam chegado as intrigas no seu exército, o chama e lhe dá o comando das suas tropas.

Sartorius declara que, se não lhe não pagarem até ao fim deste mês de Abril, retira com a esquadra para Inglaterra.

Foi nesta triste conjuntura, que o barão de Quintela faz ao Sr. D. Pedro um novo empréstimo de 2.500 contos de réis, SALVANDO DESTE MODO A CAUSA LIBERAL; mas, foi-lhe preciso recorrer também a empréstimos, para obter tão grande quantia.

Como depois de terminada a guerra, nem lhe deram o contrato do tabaco, como se havia estipulado, NEM LHE PAGARAM, Quintela teve de pagar o capital e juros aos seus credores, depois de uma diuturna demanda, em que o barão (já conde de Farrobo) havia chamado inutilmente o governo à autoria. Isto deu em resultado o desmoronamento total da casa Quintela, uma das maiores do reino. – Era voz pública, que o 1.º barão de Quintela, havia deixado a seu filho (o de que se fala no texto) 14 milhões de cruzados em prédios, e igual quantia em numerário!

A história destes empréstimos, e da ruína desta grande casa, dava assunto para um grande livro. Foi um acto de ingratidão, dos maiores que se tem praticado desde que à memórias escritas.

14 de Maio de 1833: Os realistas construem o famoso castelo de Gaia, no sitio onde consta ter existido um antiquíssimo.

Era um ponto de grande perigo, e onde morreram muitos artilheiros e outra gente; mas de onde se causaram grandes ruínas à cidade do Porto, desde este dia 14, em que a artilharia deste castelo principiou a vomitar os seus projécteis contra o Porto.

A intriga continua a lavrar entre os chefes realistas. O Sr. D. Miguel resolve entregar o comando do exército e da esquadra a oficiais estrangeiros. Convida o marechal general, conde de Bourmont, para comandante em chefe do exército de operações, e lorde Eliot, para almirante da sua esquadra. Ambos aceitaram. Bourmont chega a Portugal, trazendo em sua companhia dois filhos, alguns generais e outros oficiais franceses, de reconhecido mérito. – tenentes generais: Conde, Augusto de la Rochejaquelin; Reynaldo Macdonell; e o Conde de Almer.

Marechais de campo: Barão de Grival; e Bourdais.

Brigadeiros: Conde, Luís de Bourmont; Spring; Barão de Feried; Visconde de Tanneguy Duchastel; Brassager; Granier; Conde de R. de Rochellines; e Henrique de Payseux.

Treze coronéis; dez tenentes coronéis; dez majores; vinte e quatro capitães; vinte e cinco tenentes; dezanove alferes; e Mrs. Prunelle e Lebrun, médicos militares.

Eliote, ao qual também se havia encarregado da compra de três vapores de guerra e do engajamento de oficiais, artilheiros e marinheiros, prepara-se para sair com os vapores que havia comprado, e com uns 600 homens de guarnição e tripulação.

O general Saldanha, tenta terminar a guerra sem mais derramamento de sangue. Combina uma conferência com o general realista, José António de Azevedo e Lemos. O lugar marcado para esta conferência foi um dos brigues de guerra ingleses que estavam fundeados em frente do Vale de Piedade.

Com efeito, ali se juntaram, pela parte dos liberais, Saldanha e outros chefes – e pela dos realistas, Lemos, o conde da Baia (cunhado de Saldanha) – o brigadeiro, Luís Cândido Tavares Osório – o tenente coronel dos voluntários realistas de Castelo Branco e Penamacor, José de Pina Machado de Morais Borges Ferraz – e outros. Ainda até hoje se ignora do que se tratou e o que se decidiu, não só na primeira conferência, como em outras que a ela se seguiram.

Saldanha deu melhor direcção aos negócios dos cercados. Logo que tomou conta do comando do exército liberal, tratou de abrir uma comunicação com o mar, escolhendo a praia em frente da Luz, o que foi de grande utilidade para os liberais; cuja sorte alguma coisa melhorou.

O Sr. D. Pedro pôde conseguir resgatar a sua esquadra, com o segundo empréstimo Quintela, e a entregou ao capitão inglês Napier, que trouxe da Grã-Bretanha alguns oficiais e soldados de marinha, e ao qual nomeou almirante.

20 de Junho de 1833: Os liberais projectam uma sortida contra o Sul do reino. Os realistas sabem-no, e tratam de aglomerar, desde os Carvalhos até Santo Ovídio, um grande aparato de carros e bestas de transporte, para marcharem em perseguição dos contrários; mas estes, baldam todos aqueles preparativos, embarcando 2.500 homens, sob as ordens de Vila Flor, levando em sua companhia o marquês de Palmela, como delegado do Sr. D. Pedro, em matérias civis.

Este embarque foi feito com muita dificuldade, e gastando-se alguns dias, terminou neste dia 20 de julho.

O comandante em chefe do exército realista sabe desta expedição, e manda para o Sul uma coluna da força de 2.000 homens, de todas as armas, sob as ordens do brigadeiro Nuno Augusto de Brito Taborda, tendo por chefe de estado maior, o tenente coronel, Augusto Xavier Palmeirim, que foi mandado nesta coluna, mas com destino a servir na divisão do visconde de Molelos.

24 de Junho de 1833: Vila flor e a sua coluna, desembarcam em Cacela (Algarve).

A MARINHA LIBERAL!

1 de Julho de 1833: Consta ao Sr. D. Miguel, que os liberais tentam seduzir os oficiais da esquadra realista, para se passarem para aqueles; e, quando o não poderem conseguir, incendiar a esquadra, que estava fundeada no Tejo.

É certo que à nau D. João VI foi lançado fogo, mesmo no rio, e teria ardido, se um arrojado marinheiro mulato, com iminente perigo de vida, não descesse a apagar o fogo.

O Sr. D. Miguel, para evitar este perigo, e para entregar o comando da esquadra a Eliote, manda sair Aboim, com todos os navios sob as suas ordens, para as águas de Vila do Conde. A esquadra sai, neste dia 1 de julho, mas, em vez de se dirigir ao Norte, segundo as ordens de D. Miguel, navega para o Algarve!

5 de Julho de 1833: neste dia a esquadra realista, encontra-se com a esquadra liberal, nas alturas do Cabo de S. Vicente. – Os vapores de Napier estavam fundeados na baia de Lagos; e quando o almirante os mandou chamar, recusaram os seus oficiais entrar em combate, sem que a cada vapor se dessem 2.000 libras; por isso se uniram muito tarde à respectiva esquadra.

Principiou a batalha, alcançando Napier uma vitória facílima, aprisionando alguns navios, e outros se lhe entregaram, e tomaram o serviço do partido liberal.

É certo que entre os oficiais da esquadra realista e Napier tinham havido prévias combinações, aliás, não se atreveria este a atacar um inimigo, que lhe levava grande superioridade, tanto na qualidade dos navios, como na sua artilharia e guarnições.

Mais. – Napier sabia até quais os navios que lhe resistiriam, e quais os que se lhe haviam de entregar; e tanto que, não atacou a nau almirante (a D. João VI) nem os outros navios, que, como aquele, se lhe entregaram sem disparar nem um único tiro, (a nau D. João VI, arriou bandeira, logo no princípio do combate, e consta mesmo que fez alguns tiros contra a nau Rainha.) e foi atacar a nau Rainha de Portugal, que resistiu, quase só, contra toda a esquadra liberal.

Ninguém ignorava em Portugal, que a brigada real da marinha, era, na sua quase totalidade, desafecte à causa realista; e que, tanto oficiais como soldados, se passariam para o inimigo, logo que a ocasião se lhes proporcionasse.

Finalmente, os liberais obtiveram uma vitória fácil, e importantíssima, não só material, como moral; pois que causou geral desânimo nos servidores fieis do Sr. D. Miguel.

Da esquadra realista apenas escaparam três vasos – duas corvetas, que fugiram para Lisboa, e um brigue, que fugiu para a ilha da Madeira.

Todo o mundo reputou um acto de traição, a saída da esquadra realista para as águas do Algarve, em vez de ir para as do Minho, como lhe fora ordenado pelo Sr. D. Miguel. Se seguissem este rumo, em breves dias se lhes uniram os três vapores comandados por Eliote, e o valioso reforço de oficiais e marinheiros militares ingleses, com os quais afoitamente podiam contar os realistas, e as coisas teriam mudado muito de figura.

A vitória do cabo de S. Vicente, foi um passo gigantesco em favor dos liberais, que, não só ficaram exclusivamente senhores do mar, que dominavam com uma já poderosa esquadra, como porque poderam dispensar uma grande parte dos soldados de marinha, que tinham sido da esquadra realista, para reforçar a expedição de terra. Esta, já aumentada com os oficiais e soldados realistas que se lhe haviam apresentado no Algarve, marchava agora triunfante, em direcção a Lisboa, seguida paralelamente pela esquadra, pronta a dar-lhe protecção e acolhe-la, em caso de necessidade.

Enquanto as coisas assim corriam no Sul, fundeava no porto de Viana um dos vapores de Eliote, trazendo a seu bordo o conde de Bourmont e outros oficiais franceses.

14 de Julho de 1833: O conde de Barbacena, que era tenente general, foi feito marechal do exército; mas foi exonerado de chefe de estado maior general, junto à pessoa do Sr. D. Miguel, e substituído pelo conde de Bourmont, que foi então elevado ao posto de marechal general do exército.

O barão de Clouet foi feito comandante em chefe do exército realista.

25 de Julho de 1833: Bourmont percorre as linhas de defesa da cidade, e manda-as atacar.

O ataque principiou ás 6 horas da manhã e terminou ás 2 horas da tarde. Foi, como os antecedentes, pessimamente dirigido, pois tendo o general francês mais de 40.000 homens em volta do Porto, apenas atacou com 12.000, sendo grande parte deles milícias, voluntários realistas, e o regimento dos soldados com baixa, que haviam sido chamados ao serviço. – o exército deu-lhe o nome de regimento dos boticários, por terem gola e canhões amarelos, que era o uniforme dos cirurgiões-mores, ajudantes de cirurgia, enfermeiros, etc.

Os liberais tinham a sua linha guarnecida com 15.000 homens, protegidos com as suas fortificações e por grande número de bocas de fogo. Mesmo assim, diferentes posições foram várias vezes tomadas, perdidas e retomadas; porém o resultado deste encarniçado combate, foi correrem ondas de sangue português, sendo as perdas dos realistas (que atacavam a peito descoberto) muito superiores ás dos liberais.

Neste mesmo dia, 25 de Julho, pelas 10 horas da noite, chega ao Porto um vapor inglês, trazendo a notícia da derrota e morte de Teles Jordão, na Cova da Piedade e em Cacilhas, a23; e do abandono de Lisboa pelos realistas e da entrada de Vila Flor na capital, a 24.

26 de Julho de 1833: O Sr. D. Pedro, embarca logo no mesmo vapor que trouxe a notícia, saindo para Lisboa, chegando a esta cidade no dia 28.

Neste mesmo dia 28, chega a Vila do Conde o vapor de guerra inglês, Lorde das Ilhas (um dos três mandados comprar pelo Sr. D. Miguel), trazendo a seu bordo Eliote e mais 15 oficiais franceses, para o exército realista.

Os generais realistas reúnem-se em concelho, e decidem mandar 25.000 homens sobre Lisboa, ficando ainda em volta do Porto uns 15.000. – Note-se que esta decisão não passava de uma patacoada; porque então, já nem 25.000 homens estavam em volta do Porto! – O general Lemos propôs que se destruíssem todas as munições de guerra, que não fosse possível conduzir; que se atirasse com toda a artilharia ao rio Douro; e, abandonando o cerco do Porto, marchasse imediatamente todo o exército sobre Lisboa, a marchas forçadas; mas esta proposta, que também já pouco valia, não teve mais quem a apoiasse.

O Sr. D. Miguel acorda momentaneamente do seu letargo crónico, e encarrega o almirante Eliote de ir à Inglaterra comprar uma esquadra igual à do Sr. D. Pedro. Eliote marchou logo para a sua pátria, a tratar desta compra.

Mas o exército liberal marchava de triunfo em triunfo. Na capital achava, não só o resto da esquadra realista, que tinha escapado do destroço do Cabo de S. Vicente, como imensos recursos de toda a qualidade; os arsenais abundantemente providos de material de guerra; e grande reforço de gente com que aumentou as suas fileiras.

Ainda mais – lorde Palmerston, tinha jurado que se o Sr. D. Miguel seria expulso do trono português, logo que a ocasião se lhe proporcionasse – e chegou essa ocasião – foi a ocupação de Lisboa pelos liberais.

9 de Agosto de 1833: O governo inglês reconhece a Sr. D. Maria II, e neste mesmo dia, entrega as suas credenciais a lorde William Russel, como embaixador da Grã-Bretanha, ao governo liberal.

Apesar de tudo isto, o general Córdova, embaixador espanhol em Portugal, retira de Lisboa para Coimbra, onde estava a corte do Sr. D. Miguel.

As tropas realistas, desanimadas com tantas derrotas, principiam a desertar em grande número – os milicianos e voluntários realistas, para suas casas, e os soldados de linha para o campo inimigo. – De alguns regimentos de milícias, apenas ficaram os oficiais, e não todos. Os voluntários realistas ficaram reduzidos à quarta parte. Era a consequência infalível de tantas derrotas sofridas.

No dia 6, tinham principiado a marchar sobre Lisboa parte das tropas realistas que cercavam o Porto, pelo Sul do Douro – e neste dia 9 marcharam, com o mesmo destino, parte das que estavam do lado do Norte.

O conde de Almer, fica comandando o exército de operações sobre o Porto. Nesta cidade ficara governando o general Saldanha.

17 de Agosto de 1833: O conde de Almer, vendo que, com as poucas tropas que tinha, não podia conservar um rigoroso cerco, decide tomar posições mais à retaguarda. Não querendo deixar em poder dos contrários os grandes depósitos de vinhos, da companhia do Alto Douro, o Sr. D. Miguel encarrega o duque de Lafões de propor ao Saldanha, que o vinho saísse francamente a barra do porto, depois de ter sido vendido a um banqueiro inglês, ficando o dinheiro depositado na mão dele, até ao fim da guerra, para então ser entregue ao seu legítimo dono.

As conferências do duque com Saldanha, duraram oito dias; mas este não anuiu à proposta. Então, o conde de Almer manda destruir neste dia 17, uma grande parte destes vinhos, que valiam muitas dezenas de contos de réis, porque eram todos de superior qualidade.

18 de Agosto de 1833: Saldanha ataca o general realista, Pantaleão, obrigando-o a levantar o cerco pela parte do norte.

Os realistas tinham construído uma ponte de barcas, em Gramido, porém o barão de Clouet a tinha mandado desfazer.

O conde de Almer quis acudir ao general Pantaleão; mas, como já não havia a ponte, teve de ir passar a Arnelas, pelo que, só se reuniu a Pantaleão no dia 19, quando já de nada lhe podia valer.

O conde de Almer, decidiu abandonar Vila Nova de Gaia, tomando posições mais à retaguarda – isto é – estabelecendo uma linha muito mais vasta de assédio. – Os generais franceses e ingleses ao serviço do Sr. D. Miguel, nada cá vieram ensinar, nem fizeram coisa alguma digna de grandes elogios. Este novo plano de campanha, do conde de Almer, não passou de um grande disparate. Pois, se o exército realista, na força de mais de 50.000 homens, não conseguiu fechar hermeticamente o cerco, como queria Almer sustenta-lo com 15.000 homens.

Apenas este plano estava concebido, já Saldanha o sabia no Porto; pelo que, desguarnecendo as suas linhas do Norte, manda reforçar a toda a pressa a posição da serra do pilar.

20 de Agosto de 1833: Quando os realistas principiavam o seu movimento de retirada, deu sobre eles inopinadamente a guarnição do pilar, fazendo-lhes alguns mortos e feridos, e grande número de prisioneiros. Muitos soldados realistas, desanimados com tantos e tão grandes reveses, apresentaram-se aos liberais.

Grande parte da artilharia grossa que se retirava do sitio, caiu também em poder das tropas do Porto.

Almer, toma posições em S. João da Madeira, Feira e Ovar. – Quase toda a tropa de linha realista, tinha marchado para Lisboa, pelo que a maior parte da gente do conde de Almer pertencia aos corpos de milícias e voluntários realistas.

23 de Agosto de 1833: Os realistas que cercavam a cidade pelo Norte, também alargaram o cerco, tomando posições a uns 8 quilómetros à retaguarda – isto é – o assédio do porto, em rigor, deixou de existir; e tanto que Saldanha, com a maior parte da sua tropa de linha, embarca para Lisboa, neste dia 23, deixando Stubbs com o comando das tropas restantes.

3 de Setembro de 1833: Os liberais fazem uma sortida sobre Penafiel, sem outro resultado mais do que arranjarem alguns recrutas voluntários.

4 de setembro de 1833: Nova sortida, agora sobre Vila do Conde, cujo resultado foi levarem para o Porto uns 200 prisioneiros, quase todos pertencentes ao regimento de milícias desta vila.

A causa realista podia julgar-se perdida; mas, como a guerra prometia durar ainda muitos meses, e causar grandes desgraças, tentou-se ainda uma vez pôr-lhe termo por meios diplomáticos.

A Inglaterra estava francamente interessada neste resultado, e Napier, por ordem do seu governo, teve uma seguida correspondência com o conde de Bourmont, nos dias 18, 19 e 20 de Setembro.

Bourmont opinava judiciosamente pela aceitação das propostas da Inglaterra, que, no estado das coisas, eram sobremodo favoráveis aos realistas. Vinham estas a ser:

1.º, o Sr. D. Miguel casaria com sua sobrinha, mas sairia temporariamente para o estrangeiro, com uma avultada pensão, até que o tempo fizesse esquecer mais alguns factos praticados durante o seu governo.

2.º, ser-lhe-ia restituída a casa do infantado.

3.º, todos os postos dados pelo Sr. D. Pedro e pelo Sr. D. Miguel ficavam garantidos.

Muitos fidalgos que estavam então ao lado do Sr. D. Miguel (e alguns dos quais, pouco tempo depois, passaram para o lado do Sr. D. Pedro) opuseram-se com todas as suas forças a esta convenção, sob pretexto de não quererem a saída do rei, e preferiram frases violentas contra Bourmont e alguns outros generais franceses.

Bourmont, justamente escandalizado com estas agressões, pediu a sua demissão, que logo lhe foi concedida. O barão de Clouet e outros o imitaram, e saíram imediatamente de Portugal.

22 de Setembro de 1833: chega a Lisboa a Sr.ª D. Maria II, e neste mesmo dia foi Saldanha elevado ao posto de marechal do exército.

10 de Outubro de 1833: o governo de Luís Filipe reconhece a Sr.ª D. Maria II, como rainha de Portugal.

O conde de Almer, vendo que o Porto apenas tinha uma insuficiente guarnição, composta quase exclusivamente de voluntários, aperta o cerco, na intenção de dar um ataque formal.

Almer, tinha o seu quartel general em Baltar, mas as suas patrulhas vinham até junto ás linhas da cidade.

O Sr. D. Pedro ordena terminantemente ao general Stubbs, que faça uma sortida contra os realistas.

31 de Outubro de 1833: Stubbs obedece, e neste dia 31 sai com uma coluna até Grijó, mas os realistas o obrigam a retirar em debandada, perseguindo-o até aos Carvalhos.

5 de Novembro de 1833: Stubbs faz outra sortida, com uma coluna de 2.000 homens e dois esquadrões de cavalaria, sobre S. Mamede de Infesta. O conde de Almer lhe sai ao encontro, e obriga a retirar precipitadamente para as trincheiras, deixando em poder dos realistas alguns prisioneiros, quase todos oficiais.

22 de Novembro de 1833: Os realistas que estavam ao sul do Porto, aproximam-se desta cidade, tomando posições nos Carvalhos.

Stubbs, arguido pelos seus superiores de não ter alcançado uma única vitória contra os realistas, tenta ainda uma última sortida, sobre Carvoeiro e Valongo, mas nenhum resultado favorável conseguiu.

O Sr D. Pedro, vendo a incapacidade de Stubbs, convida o conde de Vila Flor para ir tomar o comando das tropas do Porto, mas o general recusa. O príncipe mandou então o general Torres – já então feito barão do Pico do Celeiro. Este chega ao Porto no fim de Novembro, mas Stubbs não lhe quis entregar o comando, e só o fez, depois de ordens terminantes do Sr. D. Pedro. – Só lhe entregou o comando, a 18 de Dezembro, e depois de reiteradas ordens. Mesmo assim, o Sr. D. Pedro deu-lhe então o titulo de barão de Vila Nova de Gaia.

O conde de Almer, que estava ainda senhor das províncias do Minho, Trás-os-Montes e Beiras, procedeu a grandes recrutamentos, criando novos corpos de primeira linha, e organizando um regimento de lanceiros.

O seu exército chegou a ponto de poder mandar para Santarém um reforço de 3.000 homens, de boas tropas.

1 de Dezembro de 1833: Vendo-se com forças superiores ás do inimigo, aproxima-se do Porto, chegando até à Areosa. Stubbs lhe sai ao encontro, e travou-se uma pequena acção, que teve um fatal resultado para os liberais, que então perderam um dos mais bravos oficiais, o coronel Pacheco. (Vide 7 de Agosto de 1832.)

16 de Dezembro de 1833: As propriedades dos realistas tinham sido sequestradas, no Porto. Neste dia 16, suspende-se a venda destas propriedades, e mandam-se levantar alguns sequestros.

Quando, neste dia, se levantava o sequestro ás propriedades do negociante Souto, a populaça faz um grande tumulto, e se dirige à casa da câmara, na intenção de assassinar os membros da comissão municipal, que correram grande risco. O único meio que se achou para apaziguar este tumulto, foi dissolver a comissão.

1834

Em Londres, os agentes do Sr. D. Miguel e do Sr. D. Pedro, protegidos pelo governo inglês, tentam ainda uma fusão dinástica. O Sr. D. Miguel casaria com sua sobrinha, e reinariam ambos. Todos os títulos e postos seriam reciprocamente reconhecidos, e estabelecer-se-ia o governo representativo.

11 de Fevereiro de 1834: O encarregado desta missão, saiu de Londres neste dia 11; mas, quando chegou a Lisboa, já se tinha dado a sanguinolenta batalha de Almoster (18 de Fevereiro) na qual a vitória se inclinou para os liberais; pelo que estes não quiseram estar por nenhuma combinação, em que eles não ditassem exclusivamente as condições.

José António de Azevedo e Lemos, que era general do Alentejo, passa a comandante em chefe do exército realista e o conde de Almer, a general do Alentejo. – Tinha sido demitido o conde de Bourmont; sucedeu-lhe o imbecil Macdonell, que também foi demitido, e nomeado o general Póvoas, que foi substituído pelo general Lemos.

A saída deste oficial, eminentemente organizador, activo, inteligente e bravo, pôde reputar-se como a aniquilação completa do cerco do Porto. Demais a mais, pouco depois da saída de Almer, para o seu novo destino, foram tiradas duas brigadas para o Sul, o que enfraqueceu muito a força dos sitiantes.

18 de Março de 1834: Publicam-se dois decretos – um exautorando o Sr. D. Miguel, de todas as honras devidas ao seu alto nascimento – e outro extinguindo a casa do infantado, sendo os seus bens julgados fazenda nacional.

Lorde Howard, embaixador inglês, sai de Lisboa para o Cartaxo, na intenção de tentar ainda uma combinação para terminar a guerra por meios pacíficos; e para que, pelo menos oficialmente, se não repetissem as expressões ofensivas, empregadas pelos liberais, sempre que se tratava da augusta pessoa do Sr. D. Miguel; e, finalmente, para que fosse anulado o decreto que extinguia a casa do infantado, que seria entregue ao Sr. D. Miguel, a quem pertencia.

Apesar do apoio prestado pelos fidalgos liberais, a esta combinação, o Sr. D. Pedro e os exaltados se opuseram a ela obstinadamente. – O Sr. D. Pedro assinara, sem hesitar, os dois decretos de 18 de Março, nos quais era atrozmente insultado seu augusto irmão, chamando-lhe usurpador e outros nomes injuriosos, que, por fim de contas, não só o ofendiam a ele, mas a todos os membros da casa real de Bragança!

Deve confessar-se que o Sr. D. Miguel, nem até então, nem depois, até à sua morte, consentiu em que na sua presença se tratasse com desconsideração, o Sr. D. Pedro, ou a Sr.ª D. Maria II – e ele mesmo, quando falava deles, empregava sempre expressões de moderação e deferência. Assim, o rei, honrando os seus parentes, honrava-se a ele mesmo.

Lorde Howard, escreveu, do Cartaxo, uma carta particular ai conde de S. Lourenço, ministro da guerra do Sr. D. Miguel, para darem principio ás combinações; porém o ministro recusou toda e qualquer comunicação, que não fosse franca e oficial; ao que lorde Howard anuiu prontamente, e logo a 22 de Março, na Ponte da Asseca, houve uma conferência entre o general Lemos e o ministro inglês. – Com lorde Howard, iam o marechal Saldanha, o almirante Parker e dois oficiais da marinha inglesa. lemos levava os seus ajudantes de ordens; mas todos se afastaram, ficando a tratar do negócio, somente Howard e Lemos.

Lemos declarou, por si e em nome de todo o exército realista, que recusava todo o tratado que tivesse por condição a saída do Sr. D. Miguel, de Portugal. – o procedimento do general Lemos, nesta conjuntura, se tinha muito de louvável, belo e leal, nada tinha de humanitário, e o meio único porque então se podia conseguir alguma combinação que terminasse a guerra, era a saída do Sr. D. Miguel.

A morte de Fernando VII, a expulsão de Carlos X, e a queda do partido Tory, foram três golpes mortais para o partido realista, que já não tinha remédio senão sujeitar-se à condição da saída do rei, por mais árdua que ela lhe parecesse.

Todavia, que marchava (o general Lemos) para Santarém, a dar parte a El-rei do ocorrido, e lhe mandaria a decisão para o Cartaxo.

Com efeito, pouco depois, o conde de S. Lourenço oficiou a Howard, dizendo-lhe que se não aceitava a proposta da saída do Sr. D. Miguel, sem que também saísse do reino o Sr. D. Pedro: que, ou sairiam ambos, ou nenhum.

Assim terminou esta última tentativa de pacificação que, em geral, tanto desagradava aos liberais como aos realistas.

Em quanto duravam estas conferências, a guerra continuava em todo o reino.

26 de Março de 1834:A guarnição do Porto, reforçada com alguns corpos que tinham vindo de Lisboa, saiu da cidade, neste dia 26, sob o comando do barão do Pico de Celeiro, e foi bater o brigadeiro realista, António Guedes de Quinhones, que comandava uma brigada que lhe confiara o marechal de campo José Cardoso de Carvalho, o qual, sabendo desta derrota, em Oliveira de Azeméis, onde tinha então o seu quartel general, marchou a toda a pressa para o norte do Douro, a tomar o comando das suas tropas, mas esta derrota desanimou muito os realistas.

3 de Abril de 1834: Houve uma renhida acção, na Lixa, entre José Cardoso e o barão do Pico do Celeiro. Os realistas, depois de uma brava resistência, tiveram de retirar para Amarante.

9 de abril de 1834: neste dia, 3.000 espanhóis (christianos) ocupam Chaves e Mirandela.

Outra forças liberais castelhanas, superiores a 25.000 homens, tendo por comandante em chefe o general Rodil, invadem as nossas províncias da Beira Baixa, Alentejo e Algarve, e, sem prévia declaração de guerra, manobram contra as tropas realistas.

O duque da Terceira avança para Trás-os-Montes, onde também opera o general Avilez, com tropas portuguesas e espanholas.

17 de Abril de 1834: Os realistas abandonam toda a margem direita do rio Douro, cujo rio atravessam na barca do Pocinho, tomando a direcção de Trancoso.

O general espanhol, Rodil, ocupa a cidade da Guarda, com 8.000 homens.

A praça de Almeida, havia muito ameaçada pelos castelhanos, é abandonada pelo marechal de campo, Francisco Nunes de Andrade.

Nesta praça estavam 800 presos liberais (que para aqui tinham sido transferidos de outras cadeias) os quais foram logo soltos, e tomaram as armas, sob o comando do coronel Valdêz, e ficaram a fazer a guarnição da praça.

22 de Abril de 1834: Assina-se em Londres o tratado da quadrupla aliança, ofensiva e defensiva, entre os governos de Lisboa, Espanha, França e Inglaterra, para serem expulsos, o Sr. D. Miguel I, de Portugal, e D. Carlos V da Espanha.

Carlos V, ainda estava em Portugal; mas os seus partidários, já faziam a guerra, com vantagem, nas províncias setentrionais da Espanha.

O barão do pico do Celeiro, sai do Porto, e ocupa: Souto Redondo, Oliveira de Azeméis, Feira e Ovar; porém o brigadeiro realista, Bernardino Coelho Soares de Moura, faz desalojar precipitadamente os liberais destas posições; mas, temendo a junção deles com as tropas castelhanas, do barão de Carandolet, que estavam nas vilas de Ceia e Gouveia, retira para a Mealhada, na intenção de cobrir Coimbra.

Soares de Moura ainda tinha sob o seu comando uma forte brigada, composta dos batalhões de caçadores n.º 7 e 12; dos regimentos de infantaria n.º 11 e 12; vários contingentes de outros corpos de linha; dois esquadrões de cavalaria n.º 1; o esquadrão de cavalaria, da guarda real da polícia do Porto; o batalhão de voluntários realistas de Penafiel; e um parque de artilharia.

Finalmente, o Porto vê-se completamente livre do cerco.

16 de Maio de 1834: A última derrota dos realistas, nas planícies da Asseiceira, teve lugar neste dia 16, abreviou a conclusão desta guerra fratricida.

27 de Maio de 1834: Termina a guerra pela convenção de Évora-Monte.

RELAÇÃO DOS OFICIAIS REALISTAS, QUE SE PASSARAM PARA OS LIBERAIS, E FICARAM AO SEU SERVIÇO – PELO QUE FORAM EXCLUÍDOS DAS ESCALAS, PELAS ORDENS DO EXÉRCITO, N.º 139, DE 21 DE DEZEMBRO DE 1833, E N.º 31, DE 23 DE MARÇO DE 1834.

Tenentes generais:

João Manuel da Silva

Visconde de Beire

Barão de Albufeira

Luís do Rego Barreto

Marechal de campo:

José Osório de Castro Cabral

Brigadeiros:

José benedito de Melo

Nuno Augusto de Brito Taborda

João Vieira da Silva

Arma de Engenharia

Coronéis:

João de Sousa Pacheco Leitão

José Maria das Neves Costa

Barão de Eschwege

Tenentes coronéis:

João José Ferreira de Sousa

Lourenço Justiniano de Lima

José Bento de Sousa Fava

Francisco Isidoro Lino

Majores:

Feliciano José Pereira da Silva

Joaquim Pedro Pinto de Sousa

José Joaquim Pereira Martins

João Carlos Tann

Diogo Teive Vasconcelos Cabral

Manuel José Dias Cardoso

Miguel Joaquim Pires

José Mansos de Faria

Evaristo José Ferreira

José de Freitas Teixeira Spinola Castelo Branco

António José da Silva Costa

Capitães:

Luís António de Mesquita

Cipriano José Soares

Francisco de Paula Soares Pegado

José Simplicio de Araújo e Sousa

Caetano Alberto Maia

João Pereira Homem Teles

Primeiros tenentes:

Francisco Xavier Soares

João Lourenço Domingues

Francisco Inácio Mendes

Firmino Lopes Moreira Freixo

Segundos tenentes:

Manuel Maria da Rocha

António de Sousa Menezes

Balbino Caetano de Carvalho e Melo

Eduardo José Xavier

Francisco Januário Cardoso

Manuel Vaz Parreiras

Vicente Pires da Gama

Arma de Artilharia

Coronel:

Francisco Cipriano Pinto

Tenente coronel:

António Joaquim da Gama Lobo

Majores:

João Alberto Coelho

João Justiniano da Silva

Manuel Inácio Ferreira

Capitães:

Fortunato José Barreiros

António José Peixoto

José Cândido da Silva Montes

José Marcelino da Costa Monteiro

José de Sousa e Andrade

José Silvério da Fonseca

Primeiros tenentes:

Geraldo António da Cunha Saldanha

Duarte José Fava

Lourenço José Duarte

José Raimundo Danin

José de Figueiredo do Tojal

Matias Valente do Couto

Inácio José Perdigão

António Vicente de Abreu

Segundos tenentes.

José Manuel de Sousa

Aires Pinto de Sousa Pinheiro

Arsenal real do exército

Tenente coronel:

José Joaquim Januário Lapa

Capitão quartel mestre:

José Martins

Arma de cavalaria

Tenentes coronéis:

Barão de Beduido

José de Sá Coutinho

Majores.

José Gabriel Dias Pereira

António Agostinho Pereira de Lacerda

João Anselmo de Vasconcelos

Manuel Maria da Gama Lobo

Capitães:

Bento Gelasio de Brito Taborda

António de Sousa Melo Freire de Alte

António Joaquim Durão

Pedro Maria de Brito Taborda

Ricardo José Gomes

Francisco Maria de Lacerda

António Maria Henriques de Sousa

Diogo de Sousa Folque

João António Peixoto de Mendonça

José Jacob de Abreu

Joaquim José Freire da Mata.

Tenentes:

Rodrigo Afonso de Atouguia

José António de Oliveira

Filipe José de Carvalho

D. Pedro José de Lencastre

Diogo José Victor Galvão

José da Silva

João Maria Valente da Nóbrega Botelho

António Manuel Ribeiro

Luís Maria da Rocha Fontana

Quartel-mestre da guarda real da polícia de Lisboa:

João Pedro Eliseu; mais 17 alferes de cavalaria

Cirurgiões-mores:

António Rodrigues Leitão

Bartolomeu Quintela

Arma de infantaria

Tenentes coronéis:

Jacinto Carlos Mourão

Augusto Xavier Palmeirim

Majores:

D. José Maria Carlos de Noronha

José Joaquim Ferreira de Sousa

José Justino Teixeira

Joaquim António Severo

José Inácio de Vasconcelos

Manuel Guedes de Quinhones; e mais 20 capitães; 10 tenentes; e 6 alferes.

Passaram-se para o exército liberal, mas não consta que ficassem ao seu serviço (teriam sido recusados)

Tenentes-generais:

Visconde de Souzel

Vicente António de Oliveira

Marquês de Sabugosa

Luís Inácio Xavier Palmeirim

Conde de Alhandra

Marechais de campo:

Marquês de Torres Novas

Romão de Arriada

Carlos Frederico de Caula

Manuel Ribeiro de Araújo

Veríssimo António Cardoso

Joaquim José Maria de Sousa Tavares

Francisco Nunes de Andrade

Brigadeiros:

Manuel José Xavier Palmeirim

Gonçalo Cristóvão Teixeira

D. João de Castelo Branco

José Lane

João Pigot

Tomás Teotónio de Sousa Pimentel

Engenheiros:

Francisco de Paula Travassos

Lourenço Homem da Cunha Eça

Manuel Joaquim Brandão de Sousa

José Clemente dos Santos

Raimundo Peres Milão

Fulgêncio Gomes dos Santos

Tenentes-coronéis:

Frederico Luís Guilherme de Varnhagem

Pedro José Botelho de Gouveia

Joaquim Francisco António de Sousa

João Carlos de Miranda

Manuel Joaquim da Silva

Majores:

Joaquim Manuel Vidal

José da Silva dos Anjos

José António Mourão; e mais 6capitães: 4 primeiros tenentes; e 1 segundo tenente.

Artilharia

Coronel:

Pedro José de Santa Bárbara

Tenentes-coronéis:

Joaquim Gregório Alpoim

Diogo António Guterres

Majores:

Teodoro José Duarte Querido

Francisco Manuel Ribeiro de Araújo

José Maria Lopes; e mais 8 capitães; e dois primeiros tenentes.

Cavalaria

Coronel:

Paulo Lopes da Mata

Tenentes coronéis:

Manuel Bernardo Aranha Cota Falcão

José Maria Ferreira Sarmento

Majores:

João Ferreira Machado

Francisco da Costa Damazo

José Pereira da Costa; e mais 13 capitães; 19 tenentes; 28 Alferes, 2 cirurgiões-mores; e um cirurgião ajudante.

Infantaria

Tenente coronel:

Lucas António de Sá

Majores:

D. José de Melo e Faro

António Manuel da Fonseca

Agostinho Vaz Carapinho

Valeriano Caldeira Teles

António Jacinto Pereira de Matos

José António de Oliveira; e mais 24 capitães; 19 tenentes; 57 Alferes; 2 capitães quartéis; e 2 tenentes quartéis mestres.

(Faltam nesta lista, grande número de oficiais de várias patentes, do Ultramar, que foram admitidos no exército liberal.)

Oficiais realistas que se apresentaram aos liberais, antes da convenção de Évora Monte.

Marechal do exército:

Conde de Barbacena

Tenentes generais:

Vicente António de Oliveira

Marquês de Sabugosa

Luís Inácio Xavier Palmeirim

Conde de Alhandra

Visconde do peso da Régua

Visconde de S. João da Pesqueira

Romão de Arriada

Álvaro Xavier da Fonseca Coutinho e Póvoas

Visconde de Santa Marta

Marechais de campo:

António Feliciano Teles de Castro Aparício

Manuel Pinto da Silveira

D. Inácio de Castelo Branco do Couto Munhoz

Aires Pinto de Sousa

Caetano Alberto de Sousa Canavarro

Brigadeiros:

João Vieira da Silva

D. João de Castelo Branco

Agostinho José da Costa

António José Ribeiro

António Colmeiro de Morais

Bernardino Mascarenhas da Rosa

Francisco Salazar Moscoso

João Pigot

Coronéis:

Baltazar de Sousa Botelho e Vasconcelos

António da Silva Pinto

António Joaquim de Figueiredo

Diogo de Lemos Pereira de Lacerda

Nicolau José Monteiro

João José Cortês Paim

Lourenço António Falcão Encerrabodes

Francisco Pinto Henriques de Menezes

Ricardo Leão Martins

Matias José de Almeida

José Pedro de Vasconcelos

João Francisco de Matos

José Manuel de Assis

Paulo Lopes da Mata

António Maria Macedo Tudela Forjaz

José da Silva Rodarte

Jerónimo de Gouveia Sarmento

Francisco de Andrade Corvo de Camões

José António de Abreu

António Pinto da Mota

Tenentes coronéis:

José Pedro de Melo

Jacinto Pimentel Moreira Freire

Domingos António Gil

José Joaquim da Silva e Vasconcelos

José Maria de Macedo Gouveia e Vasconcelos

Joaquim Borges de Medeiros

Manuel António de Almeida

Ricardo José de Morais

Anselmo José Ferraz

Bernardo da Silva Azevedo

António Luís da Cunha

Joaquim José Bandeira

Majores:

Raimundo José Peres Milão

Bernardino Mascarenhas da Rosa

Joaquim Passos de Amorim

Francisco António de Figueiredo de Morais Antas

José Leite de Sousa Pereira de Foios

Vicente Paulo Justo Rufino Lopes Rego

Eleutério José Martins Pestana

Domingos José da Silva

João da Veiga Leite

José Joaquim Ferreira de Sousa

João Crisóstomo da Silva Veloso

Salvador de Carvalho Assis

Francisco Vitorino de Vasconcelos

Manuel Alves Chaves

Francisco Xavier de Gouveia

João José de Abreu Machado

Joaquim Maria Beltrão

Evaristo Simpliciano

João Maria Pinto

António Maria Ludovice

Agostinho Vaz Carapinho

D. Manuel da Costa Sousa de Macedo

Manuel Bernardo de Macedo

Francisco Maria Rosado Metêlo

Francisco Luís de Sousa

António Guedes de Sousa

Manuel Gudes de Quinhones

Domingos José Teixeira

Salvador Ferreira Coelho

Manuel António Regueiros

Francisco António Jorge

José Homem Trigoso

António José Soares

Casimiro Xavier de Azevedo e Carvalho

João José de Lorena

António Teixeira de Figueiredo

João Manuel de Morada

Bernardo Francisco de Almeida

Manuel da Fonseca Soares

João Crisóstomo da Silva Veloso

André Lúcio Soares Luna

Júlio António Teles Jordão

Tomé Ferreira Galhardo; e mais 53 capitães; e 8 alferes.

Oficiais do exército realista, cujas patentes foram garantidas, ou que entraram no quadro efectivo do exército liberal, por acções que, durante a luta, mereceram esta classificação.

Engenheiros

Coronel:

José António de Abreu

Artilharia

Tenente coronel:

António Joaquim da Gama Lobo

Cavalaria

Brigadeiro:

José Urbano de Carvalho

Coronéis:

Joaquim António de Morais Palmeiro

António Cardoso de Albuquerque

Tenentes coronéis:

António Maria Henriques de Sousa

José Joaquim da Silva e Vasconcelos

Majores:

José Maria Enchieta

D. Luís Maria do Carvajal

José Maria Fraga

Manuel José Nobre; e mais 10 capitães; 8 tenentes; e 5 alferes.

Infantaria

Brigadeiro:

Rodrigo Luciano de Abreu

Coronel:

António Pedro Baptista

Tenentes coronéis:

Manuel de Abreu Madeira

José Jerónimo Gomes

Manuel Maurício Gomes

Majores:

João Lampreia Sárria

Francisco António Caldas; e mais 1 capitão; 6 tenentes; e 5 alferes.

2 de Janeiro de 1836: Principiou o Banco Comercial Portuense as suas funções comerciais.

5 de Janeiro de 1837: Por decreto é criado no Porto um conservatório de artes e ofícios, que em 20 de Setembro de 1844 é incorporado na Academia Politécnica desta cidade.

13 de Janeiro de 1837: Reforma do plano dos estudos, da academia politécnica, da cidade do Porto, por Manuel da Silva Passos, então ministro do reino. No decreto que determina a reforma, dizia-se:

«Attendendo à necessidade de plantar no paiz sciencias industriaes, que differem muito dos estudos classicos e puramente scientificos, e até de estudos theoricos, contendo simplesmente a descripção das artes, e offerecendo para este fim a populosa e rica cidade do Porto, a localidade mais apropriada, por seu extenso commercio, e outras muitas circumstancias, podendo a academia real de marinha e commercio satisfazer, até certo ponto este importante objecto, logo que receba uma organização mais conveniente, etc., etc.»

A academia real de marinha e comércio, da cidade do Porto, foi criada por alvará de 9 de Fevereiro de 1803.

Neste alvará se determina a construção de um edifício adequado, correndo, nos primeiros anos, a despesa, por conta de subsídios da Câmara, da companhia geral de agricultura dos vinhos do Alto douro, e do real do vinho (ao qual por isso se chamava subsidio litterario). Vide os anos 1755 e 1803.

O edifício da academia, de vastas e sumptuosas proporções, ainda está (1877) incompleto, e tarde se concluirá, pois se tem de proceder a custosas expropriações da parte Oeste do edifício, que deve chegar, por este lado, até à viella do Assis, tendo de demolir-se todo o lado Este da rua, e ainda várias outras casas.

A fachada Este está concluída, e apenas metade da do Sul (que é o frontispício.) – Também está quase concluída a fachada Norte; mas nada à feito da Oeste – Depois de concluída fica esta uma das mais vastas e melhores, do seu género, da Europa.

Muitas pessoas entendidas, tem notado a impropriedade da aplicação que se tem dado aos baixos do edifício, ocupados por lojas de louça ordinária, tendas, padarias, botequins e tabernas, o que, na verdade, não é das coisas mais decentes.

No interior, ainda existe (sem ar e sem luz!) o antigo colégio dos meninos órfãos, e a igreja de Nossa Senhora da Graça, em estado de ruína.

Está também aqui (1877), o instituto industrial, com uns 400 alunos – e duas aulas da academia portuense de belas artes (as de desenho e arquitectura).

A escola industrial portuense, foi criada em 30 de Dezembro de 1852, e se incorporou no edifício da academia; porém este instituto só principiou a funcionar em 1854.

Na academia, professavam-se (1877) os seguintes cursos:

Curso de engenharia, de pontes e calçadas.

Curso de minas.

Curso de agricultura.

Curso de comércio.

Curso de pilotos.

Curso preparatório de engenharia militar.

Curso preparatório da escola médico cirúrgica.

Curso complementar da academia de belas artes.

Curso de veterinária.

Curso de director de fábricas.

Curso de condutores de pontes e calçadas.

Curso de maquinistas.

Curso de telegrafistas.

Curso de mestres de oficinas.

Curso de mestres químicos e tintureiros.

Curso de condutores de minas, e chefes mineiros.

O real do vinho, aplicado para a construção do edifício, foi lançado somente por 10 anos. Era um real em cada quartilho de vinho, que se vendesse nos meses de Junho até Novembro de cada ano, na cidade do Porto e em todo o distrito em que a companhia dos vinhos do Alto Douro tinha o exclusivo da venda de vinho maduro.

A junta administrativa da companhia, encarregada da cobrança desta contribuição, foi-o também de mandar tirar a planta do edifício, a qual foi aprovada pelo governo, em 26 de Setembro; mas as obras já tinham principiado em 1803.

Apesar de o imposto aplicado para as obras, por dez anos, ter continuado a cobrar-se enquanto a companhia existiu, esta em 1825 representava que, para manutenção da academia e complemento da construção do seu edifício, não bastavam os subsídios estabelecidos e que até àquela data havia a junta provido àqueles encargos à custa de sacrifícios pecuniários dos seus próprios fundos e de que ainda não estava indemnizada.

Esta representação deu lugar a que por alvará de 16 de Agosto desse ano fossem adoptadas diversas providências reduzindo as despesas do pessoal da academia e ampliando a todos os meses do ano o imposto estabelecido só para seis meses.

Entretanto não se pode dar grande impulso ás obras.

Para as obras tem sido dados subsídios pelo governo; e contudo não poderam ainda ser concluídas.

Em 1877, o Sr. Deputado António José Teixeira apresentou na Câmara um projecto de lei nesse intuito.

Se for aprovado, realizasse-a um empréstimo de 300.000$000 réis, que o governo amortizará anualmente; e dentro de pouco poderá estar concluído um edifício cuja construção principiou à três quartos de século!

E concluído que seja, será destinado para a academia politécnica, para o instituto industrial, para a academia das belas artes e para a biblioteca, e denominasse-a paços dos estudos do Porto.

14 de Janeiro de 1837: As Armas da Cidade são aumentadas, e o titulo de Duque do Porto, é concedido aos segundos filhos dos reis.

4 de Janeiro de 1838: É tapado o arco da Torre da muralha da cidade, na viela da Madeira.

4 de Janeiro de 1839: Morreu nesta cidade, João Pedro Ribeiro, jurisconsulto português.

6 de Janeiro de 1841: Inauguração do Seminário dos Meninos Desamparados.

27 de Janeiro de 1842: O Sr. António Bernardo da Costa Cabral (feito conde de Tomar, em 8 de Setembro de 1845) faz nesta cidade a revolta que restaurou a carta constitucional.

Foi também proclamada em Lisboa, a 7 de Fevereiro, e restaurada a 10.

MARIA DA FONTE ou PATULEIA

Maio de 1846: Os povos do Minho, acabrunhados pelos grandes tributos que já pagavam, e ainda mais pelos que receavam vir a pagar, em vista do novo sistema de lançamento de décima, inventado pelo ministro cabralista, principia a juntar-se tumultuosamente em diferentes pontos.

Um enterro na igreja da Póvoa de Lanhoso, foi o princípio da revolta à mão armada, que começou por mulheres!

Daqui nasceu a guerra civil, chamada da MARIA DA FONTE ou da PATULEIA.

O povo, nem sabia o que queria, nem tinha chefes. O grito heterogéneo era – Viva o povo! – Morram os cabrais! – No meio porém destes gritos, davam-se também vivas ao Sr. D. Miguel I; à república; ás leis de D. João VI; à Sr.ª D. Maria II; aos capitães-mores, etc. etc.

O governo manda tropas sobre a província do Minho – e, em cortes, apresentou uma proposta de lei que mandava fuzilar todo aquele que se achasse com armas na mão, contra o governo cabralista. Esta proposta, transformada em lei, foi aprovada pelas duas câmaras, votando a favor alguns PRELADOS!

José Bernardo da Silva Cabral (feito conde de Cabral, em 24 de Outubro de 1867) que era então ministro da justiça, foi mandado para o Porto, como lugar tenente da rainha, e com amplos poderes; mas em breve teve de fugir, apupado pelo povo.

Em Lisboa, houve também revolta, no sentido da do Minho, a 11 de Maio, morrendo ou ficando feridas, várias pessoas do povo.

Finalmente, o reino todo, como um só homem, anuiu aos revoltosos.

Os irmãos Cabrais, fugiram para o estrangeiro.

Os setembristas (os que tinham feito a revolta a 9 e 10 de Setembro de 1836, em Lisboa, com a guarda nacional, e que tinham destruído a carta e aclamando a constituição de 1822) os setembristas, digo, tomam conta da situação.

O duque de Palmela é encarregado de formar um ministério Setembrista.

O conde das Antas foi mandado com tropas apaziguar o Minho.

6 de Outubro de 1846: Na noite de 6 para 7, a corte reagiu contra o governo existente, conseguindo o seu derrube, aparecendo na madrugada de 7, em armas, toda a guarnição de Lisboa, tendo à sua frente os dois marechais, Saldanha e Terceira; e formando um ministério cartista. A isto se chamou a emboscada de 6 de Outubro.

O duque da Terceira é mandado ao Porto, pela rainha, como seu lugar tenente; mas, quando ele desembarcou, já na cidade se sabia da emboscada.

José da Silva Passos, que se pusera à testa dos populares, prende o duque e quase todos os que o acompanhavam, metendo-os no castelo da Foz, donde depois foram transferidos para a cadeia da relação.

No Porto organiza-se a – JUNTA PROVISÓRIA DO GOVERNO SUPREMO DO REINO, EM NOME DA NAÇÃO E DA RAINHA.

As províncias do Norte obedecem ao governo desta junta.

O então barão (e depois conde) do Casal, general das armas do Minho, marcha com as suas tropas contra o Porto, e, depois de andar alguns dias em volta da cidade (mas fora do alcance da artilharia) foi acometido pelo general da junta, Sá da Bandeira, e obrigado a fugir para Trás-os-Montes.

O Algarve declara-se a favor da junta, saindo daquela província uma coluna, ás ordens do brigadeiro Celestino Soares, para fazer a revolta no Alentejo; porém o general Schwalbak (cartista) o derrota e põe em fuga junto à vila de Viana do Alentejo.

O conde das Antas sai do Porto com uma forte coluna, em direcção à capital, e toma posições em Santarém.

Saldanha (já então feito duque) sai de Lisboa ao seu encontro, e toma posições no Cartaxo.

15 de Novembro de 1846: Em Trás-os-Montes, Sá da Bandeira ataca o Casal em Vale-Paços mas, no princípio da acção, os regimentos n.º 3 e 15, da junta, passam-se para os cartistas, tendo Sá da Bandeira de retirar para o Porto, pelo rio Douro. – Quando regressava ao Porto, foi atacado em Boaças, Ancêde e Portantigo, pelas guerrilhas do Macdonell, que dos rochedos das duas margens, faziam fogo para os barcos. Houve poucos mortos e feridos de parte a parte. O Sr. Alberto Ferreira Pinto Basto, comandante do batalhão da Vista Alegre, perdeu dois cavalos, que caíram em poder dos realistas. A guerrilha de Luís do Amaral Semblam, desarmou uma grande parte do mesmo batalhão.

18 de Novembro de 1846: Já pela manhã tinha sido feito prisioneiro, em Boáças, o coronel de artilharia, da junta, Gromicho Couceiro (que depois foi ministro da guerra) com 36 soldados da guarda municipal, que do Porto iam unir-se ás tropas de Sá da Bandeira, ignorando que elas tinham sido batidas, o que só souberam em Boáças.

Foi neste dia 18 a primeira vez que as guerrilhas de Macdonell deram os primeiros tiros contra os liberais.

Gromicho Couceiro foi apresentado ao Macdonell. O general convidou-o a ficar ai serviço do Sr. D. Miguel, com o posto de brigadeiro, ao que ele recusou. Foi então mandado em paz, para bordo, com a sua espada (que se lhe não havia tirado) e com os seus soldados, aos quais apenas se haviam tirado as armas.

A musica da guerrilha intitulada batalhão de voluntários realistas de Paiva e Fermendo, apanhou nesta ocasião, uns 1.500 pares de sapatos aos setembristas, e com eles calçaram muitos guerrilheiros, que iam de tamancos.

Também caíram algumas armas em poder dos realistas, e dois cunhetes de pólvora.

Já pela manhã, o major realista Figueiredo, tinha feito algum fogo, na Régua, à gente do Sá da Bandeira.

Se o rio não levasse tanta água, correndo os barcos, por isso, com grande velocidade, Sá da Bandeira mataria muitos realistas, mas é provável que perdesse a maior parte das suas tropas.

Era notável que Macdonell nunca quisesse fazer fogo ás tropas cartistas, mas só ás republicanas! – Dizia que estas não queriam rei nem Roque, ao passo que as outras, em todo o caso, eram monárquicas.

20 de Dezembro de 1846: Casal, reforçado com dois regimentos que se lhe tinham apresentado, torna a vir sobre o Porto, na esperança de ali haver uma contra revolução; mas como isto se não realizou, marcha a atacar os realistas que estavam em Braga, sob as ordens do imbecil general escocês Macdonell, e os faz fugir desta cidade, neste dia 20.

22 de Dezembro de 1846: Em diversos pontos do reino, se dão alguns combates entre cartistas e setembristas; sendo o principal neste dia 22, dado pelo general Saldanha, contra o conde do Bonfim, em Torres Vedras, no qual os setembristas foram completamente derrotados, caindo em poder do inimigo grande número de prisioneiros.

Deu muito que falar a acção de Torres Vedras; e dizia-se, que já então, havia combinação entre o duque de Saldanha e o conde das Antas.

O que é certo, é que este, achando-se com grandes forças em Santarém, podia facilmente acudir ao conde do Bonfim, que, em lugar de ficar vencido, seria o vencedor.

Note-se também que Saldanha, podendo aniquilar facilmente as tropas do conde das Antas, desanimadas com a derrota dos seus em Torres Vedras, as deixou ir muito devagar e em paz, para o Porto (uma marcha de 225 quilómetros) sem lhe dar um único tiro!

Janeiro de 1847: Logo neste mês, a junta procura atrair ao seu partido os realistas que estavam em armas; ao que Macdonell se opôs obstinadamente.

Os realistas, afugentados de Braga pelo Casal, tinham retirado para Guimarães, e de lá para Amarante, onde se conservaram 23 dias. Desta vila marcharam para Vila Real, e de lá para Chaves; mas tudo em completa desordem, pelo desmazelo ou imbecilidade de Macdonell.

20 de Janeiro de 1847: Os realistas saíram de Amarante pelo meio dia, tendo de atravessar o Marão, então coberto por uma camada de neve, de mais de 70 centímetros, por uma noite de escuro, sem capotes, sem guarda fechos, sem nada. Parece impossível como não ficaram quase todos mortos pelo frio. Eram 2 horas da madrugada, quando chegaram a Campean (ainda na serra) onde passaram o resto da noite. O Sr. D. Miguel (ou o Sr. António Ribeiro Saraiva) não podiam fazer uma escolha mais deplorável! – Tudo tornava a correr para os realistas, como de 1832 a 1834.

Os realistas estavam aquartelados em Vila Pouca de Aguiar e povoações imediatas, sobre a estrada de Chaves.

1 de Fevereiro de 1847: Junto à aldeia de Sabroso, Macdonell, com o seu estado maior, sobe a um alto, de onde vê perfeitamente, porque estavam muito perto, alguns soldados de cavalaria e muitos caçadores, da coluna do general cartista Vinhais.

Aconselhado e instado pelos seus, recusa retirar, obstinando-se em estar ali a ver os movimentos dos cartistas. Vendo a teima insensata do escocês, o seu séquito o vai pouco a pouco abandonando (os últimos, já com bastante risco) e só fica o infeliz Rangel (Pai do administrador do conselho do Cartaxo em 1877, o Sr. João Augusto Ferreira Rangel de Sampaio) que levou a sua abnegação até querer partilhar a sorte do general.

Alguns cavaleiros do Vinhais, chegam junto de Macdonell e Rangel, e os assassinam cobardemente, roubando-lhe depois, não só todo o dinheiro que lhes acharam, mas até despojando-os da roupa que traziam vestida.

A gente de Macdonell, sem ser perseguida, marcha pela Ponte de Cavez, para a Terra de Barroso, com direcção a Guimarães, unindo-se nesta cidade ao brigadeiro Bernardino Coelho de Moura, que já então tinha tomado o partido da junta do Porto, assim como Póvoas, Guedes e outros. – Enquanto Macdonell foi vivo, o Vinhais andava sempre em volta das suas tropas, fingindo querer ataca-las; mas, assim que o escocês morreu, nunca mais se atreveu a aproximar-se dos realistas!

A junção dos realistas à causa da junta, deu grande força moral e material ao partido popular.

A junta tinha uma esquadrilha de vapores, superior à do governo de Lisboa. Além dos dois vapores que tinha levado para o Porto, o duque da Terceira, tinha aprisionado outro, vários navios do cruzeiro do Algarve, e tinha-se-lhe apresentado uma corveta.

Mandou pois, para o Algarve, por mar, uma divisão, sob o comando de Sá da Bandeira. Esta divisão marchou para o Alentejo, onde se uniu ás tropas do conde de Melo, que estava em Évora; e com esta força que era respeitável, avançaram sobre Setúbal.

Nesse tempo, Saldanha tinha estabelecido o seu quartel general em Oliveira de Azeméis, não se atrevendo a avançar.

29 de Abril de 1847: Há uma revolta em Lisboa, a favor da junta, sendo soltos os prisioneiros do Limoeiro; porém foi sufocada pelas tropas da rainha.

1 de Maio de 1847: Os cartistas, marcham sobre Setúbal, tendo então lugar o combate do Alto do Viso, ao Oeste da mesma cidade.

O general da junta, barão de Almargem, põe cerco ao castelo de Viana. A sua guarnição sai de noite, pretendendo meter-se na praça de Valença, que se conservava fiel ao governo de Lisboa; porém, sendo esta manobra pressentida por Almargem, a cerca, caindo quase todos os oficiais e soldados (uns 300) em poder das tropas da junta.

O general Bernardino Coelho Soares de Moura, com o seu esquadrão de cavalaria; com outro de cavalaria n.º 1 – com o regimento de infantaria n.º 9; voluntários de Viseu e Ceia; 5.º da legião e outras tropas, persegue pela província de Trás-os-Montes, a coluna do Vinhais, que obriga a entrar em Espanha, por Alcaniças, depois de lhe ter feito grande número de prisioneiros.

Ao mesmo tempo, o general Póvoas obrigava o barão do Casal a passar precipitadamente para a margem esquerda do Douro (Beira Alta) ficando assim as províncias do Norte completamente livres das tropas da rainha.

21 de Maio de 1847: O desenvolvimento que em Portugal tinha tomado a revolução, deu sérios cuidados ao governo de Lisboa, que reclamou a intervenção das potências aliadas pelo tratado da quadrupla aliança, feito em 22 de Abril de 1834; e, neste dia assina-se o protocolo para que a França, Espanha e Inglaterra invadissem Portugal e restabelecessem o governo da Sr.ª D. Maria II.

30 de Maio de 1847: O conde das Antas, com uma divisão de tropas escolhidas, embarca no Porto, na intenção de se dirigir ao Sul do reino; mas logo ao sair da barra, pelas 5 horas da Manhã do dia 31, a esquadra inglesa e alguns navios de guerra espanhóis e franceses, intimam o conde das Antas para se entregar com as tropas do seu comando, no momento em que os navios da junta levantavam ferro, em frente da barra do Porto.

4 de Junho de 1847: Antas, rende-se imediatamente, e os ingleses levam os prisioneiros para a torre de S. Julião da Barra, onde entraram neste dia 4.

A resolução tomada pelo conde das Antas, de sair do Porto, com tropas escolhidas, tendo fora da barra uma forte esquadra inimiga, e a sua fácil entrega, deu muito que falar. Deve porém confessar-se que a entrega do conde das Antas e da esquadrilha da junta, deu em resultado a breve terminação da luta; e portanto, o não derramar-se mais sangue português.

Os navios da junta, são entregues pelos ingleses, ao governo de Lisboa.

Um exército espanhol, de 25.000 homens, sob o comando do general Concha, avança sobre o Porto, ao passo que Saldanha avança sobre Vila Nova de Gaia.

14 de Junho de 1847: O general Sá da Bandeira, que estava em Setúbal, foge para bordo de um navio inglês, e as suas tropas, vendo-se assim abandonadas, debandam, cada um para sua parte.

25 de Junho de 1847: Saldanha, com os regimentos de infantaria 16, granadeiros da rainha, caçadores n.º 1, e voluntários cartistas de Midões (o batalhão do tristemente famoso João Brandão) atacam as posições de Vila Nova de Gaia, apenas defendidas por duas companhias (3.ª e atiradores) do regimento de infantaria n.º 9 que sustentou 12 horas de fogo, com a maior coragem e galhardia, não perdendo uma polegada de terreno, pelo que foram justamente elogiadas por todos os jornais do Porto.

Este regimento, vulgarmente denominado do Pópulo, foi organizado por Macdonell, em Braga, no dia 1 de Dezembro de 1846, sob o titulo de batalhão de infantaria de Braga. Depois de unido à junta, esta o denominou 3.º regimento de fuzileiros da liberdade, e pouco depois, regimento de infantaria n.º 9.

27 de Junho de 1847: Já depois de estabelecido o armistício, algumas tropas cartistas pretenderam tomar à traição o forte de Gaia, mas foram bravamente rechaçadas pela guarnição, composta exclusivamente de voluntários.

29 de Junho de 1847: O duque da Terceira e outros presos políticos, e prisioneiros de guerra, foram postos em liberdade.

30 de Junho de 1847: A causa popular devia forçosamente sucumbir, em vista da poderosa intervenção estrangeira, e finalmente, se efectuou a celebre convenção de Gramido, assinada pelo general César de Vasconcelos, por parte da junta; e Concha, por parte dos aliados.

Em cumprimento de esta convenção, foi a cidade do Porto entregue aos espanhóis, e desarmadas as tropas da junta.

Os prisioneiros da junta, que estavam no castelo de S. Julião da Barra, foram soltos.

As cadeias de Lisboa estavam quase atulhadas de presos patuleias, que também, em virtude da convenção, foram logo postos em liberdade.

1 de Julho de 1847: Concha e os seus castelhanos, entraram no Porto, não permitindo que as tropas do Saldanha ali entrassem, sem terem saído todos os soldados da junta – para se evitarem desordens; mas, apesar disso, muitos soldados da Patuleia foram mortos ou feridos pelas tropas cartistas, ao regresso a suas casas.

Os que retiraram para o Sul, foi preciso serem escoltados por couraceiros espanhóis, até passarem os acampamentos das tropas do Saldanha, em Vila Nova de Gaia.

Assim terminou a célebre campanha, denominada MARIA DA FONTE OU PATULEIA.

1849: O Saldanha, que não era amigo dos irmãos Cabrais, influi para que o conde de Tomar entre de novo no ministério! Por essa ocasião declarou o marechal, em pleno parlamento «que antes queria todos os Cabrais na câmara dos deputados, do que um único dos da junta do Porto».

Esta opinião, poucos meses lhe durou, porque logo em Fevereiro de 1850, por influência do conde de Tomar, é demitido do cargo de mordomo-mór da casa real. Saldanha pede então a sua demissão de todos os cargos de comissão, por já não querer servir com os Cabrais.

28 de Julho de 1849: Falece no Porto (no palácio de Entre Quintas) Carlos Alberto, rei da Sardenha e do Piemonte, na idade de 51 anos, pois tinha nascido em 28 de Dezembro de 1798.

Viera residir para esta cidade, depois da derrota de Novara.

1850: O conde de Tomar manda publicar a famosa lei contra a liberdade de imprensa, conhecida pela alcunha expressiva de -- Lei da Rolha – Nunca os jornais da oposição falaram tanto contra o governo, como enquanto durou esta lei!

Abril de 1851: O duque de Saldanha põe-se à frente de uma revolta, para derribar o governo dos Cabrais, mas tem de fugir para a Galiza.

12 de Janeiro de 1852: Canta-se ópera lírica no extinto teatro Camões, sito na rua de Liceiras.

29 de Março de 1852: Horroroso naufrágio do vapor Porto, ao entrar a barra, morrendo 60 pessoas afogadas.

Neste mesmo ano, e por causa deste naufrágio, se instituiu a Real Sociedade Humanitária.

5 de Julho de 1852: Publicou-se o Acto Adicional à Carta.

Porto foi pioneiro na Homeopatia

1 de Janeiro de 1853: Sai o primeiro número do periódico doutrinário GAZETA HOMEOPÁTHICA PORTUENSE

O primeiro consultório dedicado à prática da medicina natural foi fundado no Porto em 5 de Abril de 1852.

Assim, a "Gazeta Homeopática Portuense", surge seis anos antes da sua congénere da capital do reino, assumido-se em toda a linha como o modelo inspirador da publicação "alfacinha". Desde o grafismo - passariam ambas pelos "tipos" e prensas da Tipographia Commercial Portuense, na portuense Rua de Belomonte, n.º 74 - passando pelo editorialista A. F. Moutinho, autor da "Introdução" do número 1, o mesmo que iria ser, anos mais tarde, o tesoureiro do homónimo Consultório Lisbonense, na Direcção tutelada pelo duque de Saldanha.

O primeiro número da Gazeta Homeopática Portuense saiu à luz no dia 1 de Janeiro de 1853. Órgão oficial do Consultório que abrira na cidade, no ano anterior, a "folha" era quinzenal e pretendia afirmar-se como um jornal "escrito em linguagem corrente, acomodado a todas as inteligências, porque todos têm direitos os mais sagrados aos benefícios que o engenho de Hahnemann derramou por toda a superfície da terra ( )". A publicação assume, desde logo, uma posição combativa, ao editar um trabalho - "Homeopatia desapaixonada" - do médico Florêncio Peres Furtado Galvão, que havia sido recusado pela Gazeta Médica do Porto, nesse mesmo ano.

O programa e estratégia do Consultório portuense -- curiosamente instalado na Rua D. Pedro, n.º 81, a curta distância da primeira sede do Jornal de Notícias -- era em tudo idêntico ao que haveria de animar o seu homólogo lisboeta, desde o horário de funcionamento aos serviços e medicamentos gratuitos aos cidadãos carenciados. O Consultório era dirigido por três médicos e um cirurgião, diplomados pelas escolas alopáticas, o que revela algum impacte, não desprezível, que as doutrinas naturalistas teriam causado na comunidade médica da época.

Aliás, dispomos de alguns elementos para a história da homeopatia, entre nós, e que podem ser colhidos, por exemplo, no número 14 da Gazeta portuense. Pela pena do incansável A. F. Moutinho aí se afirma que "em Portugal há muitos anos que as doutrinas de Hahnemann são professadas teoricamente na Universidade de Coimbra pelo nosso ilustre mestre Sr. doutor Florêncio Peres Furtado Galvão (o já citado autor, censurado pela publicação alopática), assim como por mais alguns distintos membros daquela respeitável corporação médica".

O autor do referido texto propicia-nos, de seguida, com uma "geografia homeopata", que vai desde Mafra, onde "já há muito também que o Sr. Dr. Assis de Castro, o primeiro que em Portugal, nas províncias do sul, exerceu as doutrinas do Hipócrates do Norte (Hahnemann)", passando pelo Porto, "onde vai em ano e meio que se fundou um Consultório exclusivamente homeopático, composto por três médicos e dois cirurgiões".

Rapidamente, o exemplo portuense se multiplica pelas localidades vizinhas: Rio Tinto, S. Cosme (Gondomar), S. Gens de Boelhe, Amarante - em que o adepto e médico, de seu nome Constantino Teixeira de Vasconcelos evoca, fatalmente, antepassados próximos do poeta Teixeira de Pascoaes - além de Cambra e Basto, locais que abraçam a causa naturalista através da adesão de um outro "distinto aluno da Escola Médico-Cirúrgica do Porto" e de um outro da Universidade de Coimbra.

Este roteiro identificador dos praticantes homeopatas, nesta época, não ficaria completo sem a evocação do médico António José de Lima Leitão, tido como o primeiro grande teórico português, de formação clínica clássica. Nascido em Lagos, em 1787, António Leitão doutorou-se em Medicina pela Escola de Paris, para onde emigrara em 1808 e ocupou o cargo de cirurgião-mor no Quartel-general de Napoleão.

Depois, Lima Leitão cumpriu um longo périplo que o levou à Corte portuguesa do Rio de Janeiro, Moçambique, Índia, até ao seu regresso a Lisboa, como lente da cadeira de Clínica Médica da Escola Cirúrgica do Hospital de S. José. Homem de cultura mosaico, traduziu clássicos como Horácio, Virgílio, Lucrécio, Racine, Rousseau e Milton (o fundamental "Paraíso Perdido").

Em 1838, o médico solicitara ao governo para ser habilitado a poder demonstrar o valor prático da Homeopatia. A sua pretensão nunca foi atendida e, mais tarde, viria a ser afastado da regência da cadeira "por não cumprir os seus deveres e viciar o espírito dos discípulos".

4 de Fevereiro de 1853: Morre na ilha da Madeira, a princesa D. Maria Amélia, última filha do Sr. D. Pedro, e de sua 2.ª mulher, a imperatriz Amélia.

7 de Maio de 1852: Teve lugar a inauguração do Caminho de Ferro do Leste.

15 de Novembro de 1852: Falece de parto, em Lisboa, a Sr. D. Maria II.

O filho morre também.

Neste mesmo dia foi elevado ao trono, o Sr. D. Pedro V, de sempre saudosa memória. Tinha 16 anos – pois nascera a 16 de Setembro de 1837; pelo que foi seu pai nomeado regente do reino, durante a menoridade do rei.

16 de Setembro de 1855: O Sr. D. Pedro V toma conta do governo do reino.

1856: Invasão do terrível flagelo da Febre Amarela, no Porto, causando a morte de grande número de seus habitantes.

O cólera-morbos tinha invadido a capital e as províncias do Sul, no princípio deste ano, depois, em 1857, se desenvolve também em Lisboa febre amarela, causando a morte a mais de 8.000 pessoas.

1857: Realiza-se nos terrenos da Torre da Marca, a primeira exposição agrícola, por iniciativa de Alfredo Allen (depois visconde de Vilar d`Allen). Viria a ser o embrião do futuro Palácio de Cristal.

22 de Fevereiro de 1858: É lançada a primeira pedra no Teatro Baquet, assim chamado por o seu proprietário, um alfaiate espanhol, chamar-se António Pereira Baquet.

19 de Maio de 1858: Casa o Sr. D. Pedro V com a princesa Stephania de Sigmaringen.

13 de Fevereiro de 1859: É aberto ao público, com um baile de máscaras, o teatro Baquet.

A 1.ª ordem de camarotes fica ao nível da rua, e à sala do espectáculo desce-se por duas escadas laterais; é ela muito elegante e está adornada com bom gosto e asseio.

Do centro do tecto pende um magnífico lustre, que, reflectindo grande cópia de lumes nos cristais que o guarnecem, iluminam largamente a sala, tornando-a sobre maneira vistosa.

Tem 82 camarotes distribuídos em 3 ordens; na frente dos da segunda lêem-se os nomes de grande número de dramaturgos, tanto estrangeiros como nacionais, e de alguns maestros.

Pouco superior ao plano da sala está lançada uma espaçosa galeria, que muito concorre para realçar-lhe a beleza.

A fachada, cuja planta é obra do Sr. Guilherme Correia, ainda que de arquitectura simples, tem um aspecto agradável, sendo coroada por uma varanda de pedra, sobre a qual assentam quatro estátuas representando; a Pintura, a Música, a Comédia, e as Artes.

Estava situado na rua de Santo António; actual rua de 31 de Janeiro.

17 de julho de 1859: Morre a virtuosíssima rainha D. Stephania, de uma angina, deixando o esposo e todo o reino na maior consternação.

PALÁCIO DE CRISTAL

23 de Julho de 1861: Aparece o primeiro projecto de estatutos de uma sociedade que se denominaria, Palácio Agrícola e Artístico. O fim desta sociedade, era construir um palácio destinado a exposições agrícolas, industriais e artísticas; serviria também, para divertimentos, exposições permanentes, e venda de produtos de belas artes.

A sociedade adquirira os terrenos da Torre da Marca, para parque, jardins, aclimatação de plantas exóticas, construção de espaços destinados a aves e outros animais, e fundar uma academia de música de ensino gratuito.

Parte dos terrenos pertenciam à Câmara, os restantes eram de particulares; havendo algumas residências que foram expropriadas por 50 contos de réis.

22 de Agosto de 1861: O Sr. D. Pedro V, e seu irmão o infante D. João, assistem nesta cidade, à Exposição Industrial Portuense.

30 de Agosto de 1861: Reuniram-se no Palácio da Bolsa aqueles que viriam a ser os fundadores do Palácio de Cristal, sob a presidência de Guilherme Augusto Machado Pereira (depois visconde de Pereira Machado), secretários; Eduardo Chamiço, e Alfredo Allen.

Nesta reunião procedeu-se à eleição da primeira Direcção e do Conselho Fiscal, que ficaram assim constituídos: Direcção, presidente, Alfredo Allen; secretários, Francisco de Oliveira Chamiço, Francisco Pinto Bessa; substitutos, António Bernardo Ferreira, Eduardo Chamiço, António José do Nascimento Leão. Conselho Fiscal: visconde da Trindade, José Joaquim Pereira Lima, José Frutuoso Aires de Gouveia Osório.

3 de Setembro de 1861: O Sr. D. Pedro V lançou a pedra fundamental deste majestoso edifício.

O fundo social da empresa do Palácio de Cristal, foi de 250 contos, em acções de 100$000 réis cada uma.

Delineou a planta do edifício, o arquitecto inglês, Sheilds, de Londres, -- que havia dirigido as obras do Palácio de Cristal, de Londres -- e dirigiu as obras, o arquitecto portuense, Gustavo de Sousa. O arquitecto paisagista, alemão, Emílio David, fez o desenho do parque e dos jardins.

As obras de pedra foram atribuídas a quatro empreiteiros portuenses, por 32 contos.

A firma Grierson & C.ª, de Manchester, fez os trabalhos de ferro, por 12.514 libras.

As obras de madeira, trabalhadas à máquina, foram entregues à Eassie & C.ª, de Glocester, por 3.930 libras.

O serviço de lousa, foi entregue a José Soares da Silva, do Porto.

O serviço de pintura, sob a direcção de Shields, foi executado por um pintor inglês.

O palácio tem quatro frentes, medindo 150 metros, e 72,34 metros de largura.

A cúpula que corre sobre a nave do centro, em toda a extensão do edifício, é de ferro e cristal.

A sua altura máxima, é de 18,90 metros.

O comprimento do salão central, é de 103 metros, com 24,53 metros de largura.

Tem capacidade para receber mais de 10.000 pessoas.

As naves laterais, têm de comprimento 48,10 metros; e de largura 8,31 metros. A sua altura é de 14,32 metros.

A frente principal do palácio, virada para o Norte, e está em frente do jardim mais regular, é igual à da retaguarda, que fica para o Sul, e defronte com o rio Douro.

Cada um dos quatro ângulos é ornado de um elegante pavilhão.

Nos dois panos daquela frente, que se estendem para um e outro lado da nave central, incluindo os pavilhões, à as seguintes salas e gabinetes:

A Este, é o salão dos concertos, que foi transformado depois em teatro, denominado de Gil Vicente; havendo também deste lado, gabinetes para senhoras e para homens.

No do Oeste, está o salão do museu, e a galeria dos quadros.

As frentes do Sul, Este e Oeste, têm muitas e grandes salas, sendo: duas de bilhar; uma de leitura; três de jantar; casas de pasto, de 1.ª e 2.ª classe; gabinetes para descanso; e toucadores para senhoras.

No pavimento inferior estão, a cozinha, a dispensa, sala para criados, armazéns e mais oficinas.

As frentes e todas as mais paredes do palácio, são construídas de óptimo granito.

A parte Sul da nave central foi transformada em palco, ficando o resto da nave a servir de sala de espectáculos, e é a mais vasta do reino; correndo-lhe dos dois lados vastas galerias, em lugar de camarotes.

Nos jardins, e a Este do palácio, está um amplo e formoso circo, construído de madeira, ferro e cristal. – Em 1865, foi este edifício, e a parte dos jardins que o cercam, separados do resto dos terrenos pertencentes ao palácio, pela nova rua denominada do Palácio de Cristal, que comunica a rua do Triunfo (antiga da Torre da Marca) com a rua da Restauração.

Ao Oeste do palácio, e a pouca distância dele, se construiu um elegante Chalé, todo de madeira; mas que já está bastante deteriorado (1877).

Tanto do palácio como dos seus jardins, se goza um formosíssimo panorama, vendo-se parte da cidade, os montes e povoações do Sul do rio, a sua barra, a bonita povoação de S. João da Foz, e uma vasta extensão do Oceano.

Também dentro dos jardins, e ao Sul do palácio, está a capela onde esteve sepultado o ex-rei Carlos Alberto.

Na nave central foi colocado (mais tarde) um majestoso órgão, construído por C. M. Widor, era considerado um dos melhores do Mundo. Este órgão, premiado na exposição de Londres de 1862, foi comprado para o Palácio (em segunda mão) por 7 contos de réis: possuía três teclados, 40 registos, jogo completo de pedais, cornetas, campainhas e tambores. – Desapareceu envolto em mistério, aquando da demolição do Palácio!

11 de Novembro de 1861: Falece o virtuoso monarca, D. Pedro V, sucedendo-lhe no trono, seu irmão, o Sr. D. Luís I.

13 de Janeiro de 1865: Thomaz Sandeman, em sessão camarária, apresenta um projecto de ajardinamento para a Cordoaria.

15 de Setembro de 1865: Abertura da Exposição Universal Portuense, estando presentes, o Sr. D. Luís, a Sra. D. Maria Pia, e o príncipe real, o Sr. D. Carlos.

Dezembro de 1865: Promulga-se a lei da liberdade dos vinhos, que deu grande impulso e prosperidade aos negócios deste género.

1868: Proíbem-se no Porto os cemitérios das ordens terceiras, fazendo transferir as ossadas dos irmãos, para o cemitério público do Prado do Repouso.

Neste ano de 1868: A Câmara do Porto manda tirar todos os cruzeiros que em grande número se achavam pelas ruas da cidade.

O povo, apenas lhe constou esta decisão da Câmara, tinha protestado contra ela, e grande parte dos cruzeiros foram à pressa restaurados, pintados e dourados de novo, a ver se assim escapavam. A Câmara, para evitar tumultos e desgostos, mandou remover quase todos de noite.

Foram depois colocados, ao Norte de um jardim, que fora cemitério paroquial, junto da igreja de Santo Ildefonso. Deve confessar-se que estão ali mais decentemente colocados, do que estavam pelas ruas.

10 de Abril de 1869: Assento da pedra fundamental do Mercado do Peixe, ao Sudoeste do jardim da Cordoaria.

23 de Setembro de 1870: Pelas 3 horas da tarde, no hotel da Europa, sito no largo da Batalha, o governador civil do distrito, o Sr. Jacinto António Perdigão, joga o sopapo com o presidente da Câmara municipal da cidade, o Sr. Francisco Pinto Bessa. – Que era também deputado.

Ficaram ambos esmurrados; mas, parece que o Sr. Perdigão ficou mais ferido, pois se viu na necessidade de gritar por socorro, e, acudindo-lhe os seus empregados e alguns municipais, prenderam o Sr. Bessa, metendo-o na relação, onde pouco tempo esteve, por lhe valer o seu privilégio de deputado.

COMPANHIA DAS ÁGUAS DO PORTO

18 de Abril de 1873: Decreto para a organização da Companhia das águas do Porto - limitada, com o privilégio exclusivo da venda de água, por espaço de NOVENTA E NOVE ANOS.

Capital, 350.000 libras esterlinas (1.575 contos de réis) em 35.000 acções, de 10 libras (45$000 réis) cada uma.

Primeira emissão de 200.000 libras em 20.000 acções de 10 libras cada uma.

O juro de 6 por cento ao ano, seria pago em semestres sobre o capital recebido durante a construção das obras.

DATAS DO PAGAMENTO. – Libras 1.0.0 no acto da subscrição.

Libras 3.0.0 no acto da ratificação.

Libras 2.0.0 3 meses depois da ratificação.

Libras 2.0.0 6 meses depois da ratificação

Libras 2.0.0 9 meses depois da ratificação.

SOMA. Libras 10.0.0

Directores: Sir Wilford Brett, K. C. M. G.

Director da Companhia das Águas de Chlsea.

Vice-almirante, Sir Wiliam H. Hall K. C. B.

Director da Peninsular & Oriental Steam Navigation Company.

A Pratt Barlow: Director da Companhia Real de Paquetes para o Brasil.

Roberto Reid: Director do Banco Industrial do Porto.

Joaquim Anselmo Afllalo: Dito

Engenheiros: Thomas Rumball, Esq. M. I. C. E. Londres.

William Lloyd, Esq. M. I. C. E. Londres.

Banqueiros: London & County Bank.

Banco Industrial do Porto.

Vogais: Snrs. Turquand, Yongs & c.a

Tokenhous Yard, Londres.

Secretário provisório: Sr. S. D. Beauclerk.

Escritório provisório: 4, Bishopsgate Street Within Londres.

Esta companhia estabelece-se no intuito de adquirir a valiosa concessão do privilégio de fornecer água à cidade do Porto, durante um espaço de 99 anos, garantido pela municipalidade e confirmado pelo governo de S. M. por decreto de 18 de Abril de 1873 e proceder aos trabalhos necessários de combinação com os mesmos.

A cidade do porto, com uma população de cerca de 100.000 habitantes, ocupando cerca de 20.000 casas, era abastecida com a água dos poços (esta água dos poços geralmente não era boa para a cozinha) e com a água das fontes públicas, que os aguadeiros vendiam pouco mais ou menos por 20 réis, cada barril de 1 almude.

Este sistema era incontestavelmente muito dispendioso, visto o abastecimento ser insuficiente, calculando 600 réis por cada metro cúbico. O máximo preço fixado pela concessão é unicamente uma terça parte daquele custo, isto é, 200 réis por metro cúbico.

Segundo os termos da concessão, a companhia é obrigada a construir as obras necessárias para abastecer a cidade com 10.000 metros cúbicos de água, diários, equivalentes a 4 almudes por habitante.

Foi também assinado um contracto pelo Sr. Leopoldo de la Vallée Poussin, de Paris, o contratador das obras para o abastecimento da água nos subúrbios de Paris, pelo qual ele se obriga a completar todas as obras dentro do prazo fixado pela concessão, e a pagar todas as despesas feitas com a aquisição da concessão, assim como o juro sobre o capital recebido, à razão de 6 por cento ao ano durante a construção dos mesmos trabalhos, pela quantia de Libras 285.000. Propõe-se fazer uma emissão de Libras 200.000, divididas em 20.000 acções de Libras 10 cada uma, para as quais está aberta a subscrição, e uma quantia não excedente a Libras 110.000 por uma emissão de um limitado número de obrigações que serão pagas por meio de um fundo de reserva.

Nenhumas acções ou obrigações serão emitidas além das acima mencionadas, salvo se os accionistas em assembleia geral resolverem o contrário.

A concessão garante à companhia os privilégios seguintes:

1.º O privilégio exclusivo por espaço de 99 anos, de introduzir e vender água no Porto e minar para o abastecimento da cidade.

2.º O privilégio exclusivo de vender fora do Porto a água que a companhia possuir e introduzir por meio de canos.

3.º O direito de colocar canos nas ruas da cidade e estradas públicas, com a faculdade de fazer uso dos aquedutos existentes e efectuar as necessárias modificações.

4.º A abolição do privilégio dos aguadeiros, que não será concedido a ninguém logo que os canos da companhia estejam assentes e o serviço esteja estabelecido.

5.º O direito de obrigar os proprietários do Porto, com determinadas excepções, a colocar à sua custa os canos de serviço desde a base exterior das suas propriedades para o interior das mesmas.

6.º A máxima tarifa dos consumidores particulares, de 200 réis por metro cúbico.

7.º O direito de importar livres de quaisquer direitos, todas as plantas, maquinas e materiais que forem necessários para as mesmas obras.

8.º Os privilégios e direitos necessários para a cobrança das taxas devidas à companhia pela água fornecida, e para a protecção da sua propriedade.

A companhia fornecerá as águas do rio Sousa, distante cerca de 13 quilómetros da cidade, de cuja nascente se pode obter um abundante fornecimento da mais pura água durante o ano.

Nos termos da concessão, depois de expirado o prazo da mesma, que são 99 anos, as obras tornar-se-ão propriedade do governo de S. M., mas a Câmara Municipal do Porto, depois de decorridos 45 anos, tem direito de comprar as obras, pagando à companhia uma anuidade, durante o prazo restante da concessão, igual à média do rendimento liquido da companhia durante os dez anos imediatamente anteriores.

Está calculado que a companhia no termo das suas obras começará a negociar com um liquido de Libas 38.000 por ano, donde de apurará um dividendo na razão de 13 % por ano sobre as acções do capital emitido, depois de prover o juro e fundo de reserva das obrigações. O cálculo desta quantia funda-se numa venda de 3.000 metros cúbicos de água por dia, isto é, 3 décimas partes da água que a companhia pode fornecer pelas suas obras, -- mas quando os habitantes realizam a conveniência e economia de introduzir a água em suas casas – pode fazer-se um aumento considerável.

Admitindo que, só 13.000 casas das 20.000 existentes no Porto são fornecidas pela companhia e que o consumo da água, calculando 5 pessoas por cada casa, é só de 15 galões diários, o rendimento liquido da companhia subirá a Libras 56.000 por ano. Este consumo diário por pessoa. É menos de metade que o consumo de cada pessoa em Londres, Paris, Berlim e outras grandes cidades, não incluindo as fábricas e irrigações, etc. As obras estarão concluídas segundo o contracto, dentro do espaço de 2 anos depois da ratificação das acções.

A concessão, conforme foi publicado no Diário do Governo, com uma tradução oficial, junta com o contracto e cópias do memorando e estatutos da Companhia, podiam ver-se nos escritórios da mesma.

Os pedidos para as acções serão feitos segundo a forma anexa, acompanhada com a entrada de 1 Libra por acção.

O subscritor a quem não couber acção alguma no rateio receberá a entrada sem abatimento algum, e se o subscritor fizer maior número de entradas do que o das acções que lhe couberem, ficará o excesso para ou por conta do pagamento do montante da ratificação.

Não tendo os subscritores feito os pagamentos nas devidas datas, perderão o direito a todos os outros pagamentos que tiverem feito.

Para conveniência dos accionistas portugueses, haverá no Porto um registro para a transferência de acções.

Os únicos contratos feitos pela companhia são os seguintes:

Um contrato em 16 de Outubro de 1873 feito entre Eduardo Augusto Kopke, por parte dos concessionários, e Alfredo Rumball, como depositário da Companhia.

Este contrato não trás despesa alguma à Companhia, sendo o custo da concessão incluído no seguinte: Contrato datado de 15 de Julho feito entre M. Leopold de la Vallée Poussin e a Companhia das Águas do Porto.

Com todas estas vantagens, apesar da incontestável utilidade que adviria ao Porto, se este empreendimento se efectua-se; e apesar dos lucros tentadores que se esperavam da empresa; nada foi feito, tendo a Câmara Municipal do Porto em Abril de 1877, em sessão, representar ao governo, pedindo a rescisão do contrato com a companhia das águas desta cidade, por não haver probabilidade dela se organizar!

1 de março de 1874: Inauguração e abertura ao público, da nova praça do peixe, ao fundo do passeio público da Cordoaria. (Vide 1869, 10 de Abril9.

12 de Agosto de 1874: Inauguração da linha do caminho de ferro americano, que liga a praça de Carlos Alberto (antiga Feira das Caixas ou dos Ferradores) à praça de Cadouços, na Foz.

27 de Dezembro de 1874: Inauguração do Asilo das Raparigas Abandonadas, na rua de Santo Ildefonso.

Esta casa era devida à iniciativa particular e sustentada à custa de esmolas dos benfeitores.

Foi primeiramente destinada a receber as infelizes, privadas dos carinhos maternos, e as que, desviadas, por momentos, do caminho da honra, se mostravam sinceramente arrependidas.

Tendo depois a nova direcção alterado o primitivo plano e fez desta casa um asilo destinado a preservar a infância dos perigos e seduções que sempre se interpõem no caminho da mulher ao entrar na adolescência, quando lhe falta o abrigo da família. – hoje muita falta faz uma casa como esta, nesta nossa cidade do Porto --.

Graças aos donativos da caridade particular e à boa vontade das pessoas que geriam tão útil estabelecimento, estavam acolhidas sob este tecto hospitaleiro, cinquenta crianças do sexo feminino, que, a par do alimento do corpo, recebiam o pão do espírito. Sob as paredes da primitiva casa, de exíguas proporções, levantou-se um mais vasto edifício, construído de modo a satisfazer o fim a que é destinado.

Depois da benção da capela, feita pelo capelão do estabelecimento o Sr. Dr. José Correia Cardoso Monteiro, foi celebrada missa pelo mesmo eclesiástico, a que assistiram, além das recolhidas e das respectivas mestras, a direcção, grande número de senhoras e muitos cavalheiros.

Em seguida, o Sr. João Luís de Melo, presidente, leu um bem elaborado discurso em que fez a modesta história daquele estabelecimento, falando em seguida o Sr. Joaquim Ferreira Moutinho, um dos membros da comissão, que em um estilo brilhante mostrou a utilidade da instituição e fez um apelo a todas as pessoas generosas para que concorram com seus donativos a dar maior desenvolvimento a tão grandioso pensamento.

Em seguida patenteou-se o edifício ao público, sendo numeroso o concurso das visitantes que durante o dia afluíram a contemplar aquela mansão de caridade.

25 de Abril de 1875: Pelas 2 horas da manhã, um terrível incêndio, reduziu a cinzas a antiga Casa dos Vinte e Quatro. Ainda pertencia ao município portuense, que a trazia alugada ao Sr. Francisco Gomes de Carvalho e à Associação dos Latoeiros, que perdeu todo o seu arquivo e mobília.

Esta casa era na rua de S. Sebastião, mas o andar superior era no largo da Sé.

Foi a primeira casa da câmara que teve o Porto.

20 de Maio de 1875: Teve lugar no Porto a inauguração do caminho de ferro do Minho.

Suas Majestades e Altezas, chegaram à estação do Pinheiro, pelas 10 horas e um quarto da manhã, e o comboio real saiu da cidade pelas 11 horas, depois da benção das locomotivas, lançada pelo reverendíssimo bispo da diocese.

À saída do comboio, houve entusiásticos vivas, subiram ao ar grande quantidade de foguetes, salvou a fortaleza da Serra do Pilar, e as músicas regimentais tocaram o hino.

O comboio constava de sete locomotivas, que iam todas adornadas de flores e bandeiras.

As primeiras três locomotivas se denominaram – PORTO – BRAGA -- AVE.

As carruagens eram de novo modelo e muito cómodas.

O comboio parou poucos instantes, nas estações de Ermesinde, Vila Nova de Famalicão (onde tomou água) Trofa e Nine. Aqui foi grande a demora, porque se partiu uma peça de um vagão, e foi preciso tiral-o do comboio, sendo transferidos os seus passageiros para os outros vagões.

Em toda a parte o povo afluía em grande número, e as estações estavam embandeiradas, havendo bandas de música em todas elas.

O comboio chegou a Braga pela uma hora da tarde.

A cidade estava toda embandeirada, e os seus habitantes manifestavam o maior regozijo. A chegada do comboio foi saudada com entusiásticas aclamações, músicas e girândolas de foguetes.

A Câmara municipal, e as autoridades civis e militares de Braga, receberam Suas Majestades e Altezas, na estação. A guarda de Honra foi feita pelo regimento de infantaria n.º 8, e por dois destacamentos de cavalaria n.º 6 e 7.

Na Sé metropolitana houve Te-Deum.

Foi um dia de verdadeira festa, tanto para os habitantes do Porto e Braga, como para os das estações intermediárias.

2 de Julho de 1875: Morre na rua de D. Pedro (que foi do Bispo) José Marques Antunes, comerciante e capitalista desta cidade do Porto, natural da freguesia de S. Pedro de Merelim.

Por testamento cerrado, feito a 27 de Junho deste ano, deixou ao Colégio dos Meninos Órfãos, 200$000 reis.

Ao dos Desamparados, igual quantia.

Ás Ordens Terceiras da Santíssima Trindade, Nossa Senhora do Carmo, e Irmandade do Terço e Caridade, a cada uma 500$000 reis.

Ao Asilo da Mendicidade, 300$000 reis.

Ao Hospital dos Lázaros e Lázaras, 200$000 reis.

Ao dos Entrevados, 200$000 reis.

Ao Recolhimento das Velhas, 200$000 reis.

A 12 raparigas órfãs da freguesia de Merelim, 100$000 reis a cada uma.

A 12 viuvas pobres da mesma freguesia, a cada uma 50$000 reis.

À Junta de paróquia da mesma freguesia duas inscrições da junta do crédito público, do valor nominal de um conto de reis, para aplicar os seus rendimentos em beneficio das escolas da freguesia; e quando a junta não der fiel cumprimento, passará o legado para o hospital de S. Marcos, de Braga.

( Será que existe no Porto, ou em Braga, uma rua com o nome deste Português).

5 de julho de 1875: Pela hora e meia da manhã, um pavoroso incêndio reduziu a cinzas o novo Teatro da Trindade, cuja frente era para o pequeno Largo da Cancela Velha, e a retaguarda para a rua do Estevão, próximo à igreja e Largo da Trindade.

Só ficaram as paredes, sendo os prejuízos avaliados em uns 30 contos de reis. Estava seguro em 17 contos.

Houve suspeitas de ser lançado o fogo de propósito.

Era propriedade particular, que se tinha construído havia apenas um ano.

13 de Julho de 1875: Morre nesta cidade (mais um português) o comendador Manuel Francisco Duarte Cidade, solteiro, capitalista, morador na rua do Souto, da freguesia da Sé.

Por testamento cerrado, deixou os seguintes legados:

À Santa Casa da Misericórdia, dois contos de reis, para serem aplicados ás obras do seu hospital.

Ás ordens da Santíssima Trindade, S. Francisco e Nossa Senhora do Carmo, a cada uma dois contos de reis.

À Irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade, dois contos de reis.

Aos Meninos Órfãos e aos Desamparados, a cada um 48$000 reis.

A cada um dos entrevados, entrevadas, lázaros e lázaras, 1$000 reis.

À Irmandade de S. José das Taipas, para ajuda de se mandarem doirar os seus altares, 400$000 reis.

À Creche de S. Vicente de Paula, 400$000 reis.

Ao Asilo das Raparigas Abandonadas, 200$000 reis.

Ao Asilo da Mendicidade, 200$000 reis.

Ás Meninas Desamparadas do Postigo do Sol, 100$000 reis.

Ao Asilo de Vilar, 100$000 reis.

À Irmandade das Almas de Santa Catarina (para ajuda de dourar a capela-mor) 100$000 reis.

Ás Recolhidas Pobres, do Ferro, 10$000 reis a cada uma.

Ás reclusas do Aljube, 100$000 reis, repartidos igualmente por todas.

Aos Entrevados e Entrevadas da Ordem Terceira de S. Francisco, entrando os familiares da casa, 1$000 reis a cada um.

Mil esmolas de mil reis cada uma, para 1.000 velhos e velhas, entrando neste número os de S. Cosme de Gondomar.

( Alguém conhece uma rua com o nome deste português! Talvez algumas famílias "burguesas" conheçam o nome, mas não a rua ).

29 de Julho de 1875: Foi inaugurada nesta cidade do Porto a primeira parte do Caminho de Ferro do Douro, compreendida entre o Porto e Penafiel.

O ministro das obras públicas o Sr. António Cardoso Avelino, representou o governo.

Houve as solenidades, cerimónias e regozijos do costume, nestas festas nacionais.

7 de Outubro de 1875: Teve lugar a inauguração do Caminho de Ferro de via reduzida, do Porto à Póvoa de Varzim, com estação principal na rua da Boavista.

As estações intermediárias eram:

Nossa Senhora da Hora

Custóias

Crestins

Pedras Rubras

Vilar do Pinheiro

Modivas

Mindelo

Azurara

Vila do Conde.

Assistiram a esta solenidade: o presidente do conselho de ministros, Sr. António Maria de Fontes Pereira de Melo; o ministro das obras públicas, Sr. António Cardoso Avelino; o prelado da diocese, as principais autoridades; convidados e muito povo.

O bispo conferiu a benção ás cinco locomotivas, denominadas:

Rio Douro

Rio Ave

Azurara

Pedras Rubras

Vila do Conde

Póvoa.

As duas primeiras foram as destinadas a tirar os comboios n.º 1 e n.º 2.

Pelas 11 horas da manhã, ao som de musicas marciais e muitas girândolas de foguetes, saiu o comboio n.º 1, e ás 11 e um quarto, o n.º 2.

As estações de Pedras Rubras, Vila do Conde e Póvoa, estavam adornadas de festões de flores e bandeiras, e em todas elas havia bandas de musica; mas a que ostentava mais luxo era a da Póvoa, onde o concurso e as manifestações de regozijo eram imensas.

A guarda de honra foi feita por um destacamento de infantaria 18, e outro de cavalaria n.º 6.

27 de Novembro de 1875: Faleceu nesta cidade o benemérito, José de Sousa Rocha.

Deixou os seguintes legados:

1.800$000 reis, para seis dotes de 300$000 reis cada um, a outras tantas raparigas pobres da freguesia de Campanhã.

100$000 reis, para serem divididos pelos pobres da freguesia de Vila Garcia.

100$000 reis ao Asilo da Mendicidade.

200$000 reis ao Colégio das Órfãs de S. Lázaro.

200$000 reis ao Seminário dos Meninos Órfãos de Campanhã.

100$000 reis aos Entrevados de Cimo de Vila.

100$000 reis aos Lázaros.

100$000 reis ás Lázaras e Entrevadas.

50$000 reis ás Velhas da Cordoaria, no Hospital dos Lázaros.

50$000 reis ás Viuvas Pobres.

50$000 reis ás Recolhidas do Ferro.

1.200$000 reis à Ordem da Santíssima Trindade, para as obras do seu Hospital.

1.000$000 reis para as obras da Igreja de Campanhã.

4.000$000 reis à Santa Casa da Misericórdia.

200$000 reis aos pobres da sua freguesia.

Além destes legados no Porto, deixou para a cidade da Baia (Brasil) mais os seguintes legados:

1.000$000 reis à Ordem da Santíssima Trindade.

800$000 reis ao Colégio de S. Joaquim.

200$000 reis ao Asilo da Mendicidade.

400$000 reis à Santa Casa da Misericórdia.

100$000 reis ao Convento de S. Francisco.

( Srs. Brasileiros, nem só "pés rapados" havia no Porto).

22 de Fevereiro de 1876: Morre nesta cidade, D. Margarida Augusta Teixeira de Aguiar. Era irmã de D. Josefa Adelaide, baronesa de Fornos de Algodres; D. Maria do Carmo, 1.ª condessa de Samodães, casada com o 1.º conde, Francisco de Paula e Azeredo; era tia do conde de Samodães.

Declarou no seu testamento, que queria se cumprisse a disposição da dita sua irmã, baronesa de Fornos de Algodres, para que, logo depois do seu falecimento, fossem entregues ao Asilo da Mendicidade, do Porto, seis contos de reis, em moeda metálica.

Junho de 1876: Faleceu em Moimenta da Beira, António Perfeito Pinto Osório, viuvo de D. Antónia Guedes Cardoso, com a morte da qual focou para sempre extinta a família Noronha, de Adebarros, e a Santa Casa da Misericórdia do Porto, herdeira de todos os haveres daquela antiga e rica família, cuja nobreza remonta ao princípio do século XIV.

Segundo a tradição e várias memórias, consta que o foro de nobreza desta família principiou pelo facto seguinte:

Em 1310, o rei D. Diniz viajava por esta parte da Beira Alta.

Em uma calmosa tarde de Junho, chegou o rei à aldeia de Adebarros, e foi pousar à casa do tio Adão, que era a melhor, e seu dono o mais rico da povoação. Este, vestido de burel e calçado de tamancos, recebeu o monarca e o seu séquito, com a maior franqueza, desembaraço e cordialidade.

O rei pediu água, e o lavrador se aprestou em lha trazer em uma taça de prata; mas o camarista de semana queria impedir o lavrador de fazer este serviço, que a pragmática da corte lhe vedava, porém o lavrador, com a autoridade de dono da casa, e desprezando a etiqueta, teimava em querer levar a água ao rei.

D. Diniz, ouvindo a alteração, e sabendo a causa dela, ordenou que o lavrador o servisse, como desejava, e bebeu a água com grande satisfação, porque, na verdade, a desta terra é a melhor das duas Beiras.

Depois de beber, perguntou ao lavrador:

-- « Desde quando és fidalgo?»

-- « Desde Adão, real senhor »

-- « Então a vossa nobreza, é mais antiga do que a minha.»

-- Não, real senhor, porque Adão sou eu.--»

O rei gostou muito desta "saída", e lhe deu, para ele e descendentes, o foro de fidalgos da casa real; e desde então, até à extinção, todos os primogénitos desta família tiveram o nome de Adão.

PONTE MARIA PIA

4 de Julho de 1876: Principiaram nesta cidade os trabalhos da rolagem do tabuleiro da ponte, que se vai estabelecer para se terminar a linha de caminhos de ferro que desde Lisboa chega a Gaia, findando após a construção da ponte, em Campanhã.

Eram cerca de 9 horas da manhã quando os trabalhos começaram, dirigidos pelo engenheiro da companhia, o Sr. Pedro Lopes, e pelo Sr. Joseph Collin, engenheiro da casa construtora, que é a dos Srs. G. Eiffel & Companhia, de Paris.

O modo de conduzir a parte que se colocou para começo dos trabalhos, foi sem uso de maquinas, mas feito com rolos movidos por meio de alavancas, cujo esforço era produzido pelo trabalho braçal.

O movimento da ponte foi feito empregando-se 4 rolos.

O avançamento era de 25 centímetros para cada movimento das alavancas, tendo-se avançado para fora do encontro, o tabuleiro que se achava construído 37,65 em quatro horas e um quarto de trabalho.

Chegou-se portanto e com felicidade ao pilar construído e que tem o número 1 na margem esquerda do rio.

A ponte compõe-se de 5 pilares e 2 encontros, na extensão de 352,87 e é dividida em vãos, que regulam 37,28; sendo os vãos que tem esta última extensão, suportados por um arco metálico de 160 metros de corda que abrange de uma a outra margem do rio, vindo apoiar-se em dois pilares de cantaria que se acham em construção nas duas margens.

Os materiais para a ponte metálica, são subidos por meio de um plano inclinado, estabelecido na encosta de Quebrantões, ligando o rio com plataforma de montagem.

O movimento é transmitido aos wagonetes por meio de um cabo que se enrola num cabrestante movido por uma máquina a vapor da força de 7 cavalos.

Esta máquina foi importada de Paris do estabelecimento denominado « Société Centrale de Construction de Machines – à Patin – Seine. – Weiser & Richemond.» Gasta 26 quilogramas de carvão por hora, trabalhando a toda a força.

É dirigida pelo inteligente maquinista o Sr. Eugene St. Martin.

Move, quer para a frente quer para a retaguarda.

Julho de 1876: O Sr. Barão do Castelo de Paiva, visitando o hospital, aulas e Asilo dos Irmãos Inválidos, da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, desta cidade, deu de esmola a esta ordem, 5000$000 reis.

Outubro de 1876: Faleceu em Matosinhos, Domingos Barbosa de Brito, que, por testamento feito em 16 de Junho deste ano, deixou:

Santa Casa da Misericórdia, da vila dos Arcos de Vale de Vez, 2.000$000 reis.

Igreja de S. João Baptista, de Parada (terra da sua naturalidade), 2.000$000 reis, para melhoramentos da mesma igreja.

Aos pobres desta freguesia de Parada, 200$000 reis.

Para der dividido em partes iguais, pelos Asilos da Infância Desvalida, do Porto, 4.000$000 reis.

Ordem Terceira do Carmo, 1.000$000 reis.

A cada um dos irmãos pobres da mesma ordem, que no dia do falecimento do testador estiveram em tratamento no hospital, e recolhidos no asilo, 9$000 reis.

Irmandade do Senhor de Matosinhos, para conservação do seu templo, 1.000$000 reis.

Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, 20.000$000 reis, com a obrigação de receber do seu testamento naquela cidade, todos os remanescentes da herança, e dividil-os em partes iguais, por 20 órfãs, pertencentes ao recolhimento da mesma Santa Casa; sendo a distribuição feita por sorteio, e estando presentes todas as recolhidas, e a quantia que pertencer a cada uma será depositada onde oferecer maior segurança, e vença juro, que será acumulado em épocas precisas, sendo entregue ás contempladas, no dia que saírem do recolhimento, para casarem, ou ocuparem alguma posição honesta.

Santa Casa da Misericórdia, da Baia, 20.000$000 reis.

Santa Casa da Misericórdia, da cidade de Porto Alegre, 20.000$000 reis.

Para fazer parte do património do Asilo dos Inválidos da Pátria, do Rio de Janeiro, 20.000$000 reis.

Para as obras e conservação da igreja matriz, da cidade de Itajubá, na província de Minas Gerais, 20.000$000 reis.

Para melhoramento e conservação do cemitério público desta cidade de Itajubá, 5.000$000 reis.

(Srs. brasileiros, leram bem isto?).

12 de Dezembro de 1876: Arrematou no ministério da fazenda, o Sr. João Augusto Pereira Pinto, por 3.452$000 reis, 23.010 metros quadrados de terreno, da cerca do mosteiro da Serra do Pilar, e por 2.001$000 reis, 23.250 metros quadrados de outro terreno da mesma cerca.

O Sr. Manuel Henriques Tavares Basto, arrematou por 2.981$000 reis, 39.410 metros quadrados de um outro terreno da mesma cerca.

O mesmo Sr. Tavares Basto, arrematou mais, por 3.992$500 reis, 28.000 metros quadrados de outro terreno da mesma cerca.

Veio pois a vender-se neste dia, como bens nacionais, terreno desta cerca, na extensão de 113.670 metros quadrados, pela quantia de 12.425$000 reis.

20 de Dezembro de 1876: Caiu na torre da igreja matriz, do Senhor do Bonfim, desta cidade, uma faísca eléctrica, que danificou o relógio, quebrou a corda de um sino, derrubou os postes da linha telegráfica, e deteriorou a torre em algumas partes. Não houve desgraças pessoais.

 

 

 

 

 

1 de Janeiro de 1899: Foi inaugurado o Dispensário da rainha D. Amélia.

2 de Janeiro de 1884: Morre no Porto Pinho Leal, autor do «Diccionario geographico e historico, Portugal Antigo e Moderno».

5 de Janeiro de 1876: Iniciaram-se os trabalhos de construção da ponte Maria Pia.

5 de Janeiro de 1877: por decreto, é agraciada com o titulo de Real, a Associação dos Bombeiros Voluntários do Porto.

 

7 de Janeiro de 1894: Inaugura-se o mercado das flores, no largo de S. Filipe Nery.

10 de Janeiro de 1885: Ficou instalado em edifício privativo, o Ateneu Comercial do Porto.

11 de Janeiro de 1883: A Câmara Municipal do Porto em sua sessão deste dia, aprova as condições apresentadas por Joaquim Domingos Ferreira Cardoso e José Eduardo Ferreira Pinheiro para a construção de um bairro na Campo do Cyrne.

16 de Janeiro: Costumavam os frades cruzios do mosteiro da Serra do Pilar trazer em procissão a uma das janelas a relíquia de um dos Santos Mártires de Marrocos, a qual era incensada da margem do Porto pelas freiras de Santa Clara, que para esse fim se dirigiam ao mirante – que ainda hoje existe.

17 de Janeiro de 1626: O 7º governador e alcaide-mor do Porto, Henrique de Sousa Tavares, 1º Marquês de Arroches, 3º conde de Miranda, nasceu neste dia.

18 de Janeiro de 1791: O bispo do Porto, leva o sagrado viático com grande urgência a D. Ana Joaquina de Alencastre, esposa do governador das armas e da justiça.

18 de Janeiro de 1837: Por decreto é aumentada a Guarda Municipal.

19 de Janeiro de 1719: É nomeado capitão do Forte da Porta Nova, Diogo d`Andrade Gramacho.

19 de Janeiro de 1809: A celebre cantora Todi estreia-se no teatro de S. João.

20 de Janeiro de 1838: A Câmara do Porto dirigiu uma representação à rainha D. Maria II, pedindo que os meninos Órfãos, do Colégio da Graça fossem dispensados de pagar a matrícula na Academia Politécnica, quando tivessem de frequentar as suas aulas -- beneficio que lhes foi assiduamente outorgado.

21 de Janeiro de 1899: Faleceu neste dia, o Cardeal-bispo do Porto D. Américo Ferreira dos Santos Silva.

23 de Janeiro de 1765: Iniciou-se a construção da Cadeia da Relação do Porto.

23 de Janeiro de 1833: Realizou-se o reconhecimento feito pelas tropas constitucionais, ás posições do Monte do Crasto, e do Castelo do Queijo.

 

23 de Janeiro de 1852: A Câmara Municipal resolve que as suas sessões sejam à Quinta-feira.

 

24 de Janeiro de 1840: Morre nesta cidade o seu Bispo eleito, D. Fr. Manuel de Santa Inêz.

24 de Janeiro de 1841: Os portuenses, mandam erigir um monumento, na Lapa, à memória do bispo D. Manuel de Santa Inêz.

24 de Janeiro de 1847: projecta-se circundar a cidade do Porto com linhas de defesa.

25 de Janeiro de 1355: D. Branca Pais doou ao hospital de Rocamador, diversos bens, entre eles; uma casa na rua da Sapataria do Castelo

25 de Janeiro de 1810: Organiza-se o Batalhão de Voluntários do Comércio do Porto.

25 de Janeiro de 1837: Foi demolida a torre do Convento de Santo Eloy.

26 de Janeiro de 1808: Morreu nesta cidade o general espanhol D. Francisco Taranco e Lhano.

26 de Janeiro de 1862: Morreu o grande patriota portuense, Passos Manuel.

26 de Janeiro de 1891: Propõe-se o nome de Fontes Pereira de Melo, para a rua das Valas.

27 de Janeiro de 1592: É fundado o convento de S. João Novo.

27 de Janeiro de 1842: Rebentou na cidade do Porto o grito da restauração da Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa.

27 de Janeiro de 1879: Desmoronou-se uma parte da escarpa dos Guindais, arrasando cinco casas, e ocasionando a perda de quatro vidas.

28 de Janeiro de 1839: A Câmara do Porto pediu uma lei de responsabilidade ministerial.

30 de Janeiro de 1305: O bispo do Porto D. Sesnando foi surpreendido e morto pelos mouros, numa ermida situada na freguesia de Vila Boa na ocasião em que celebrava missa. A vila ficou sendo chamada depois desta data Vila Boa do Bispo.

1 de Fevereiro de 1583: Por alvará do governador da Relação do Porto, os frades de S. Francisco foram nomeados capelães da cadeia.

 

2 de Fevereiro de 1387: O casamento de D. João I, de boa memória, com D. Filipa de Lancastre, de nacionalidade inglesa, teve lugar na Sé do Porto.

2 de Fevereiro de 1714: A confirmação de bispo do Porto de Fr. Fonseca e Évora tem a data deste dia.

2 de Fevereiro de 1816: Sentiu-se um grande tremor de terra; a ponto dos padres que estavam dizendo missa na igreja dos Congregados desampararem os altares e fugirem!

2 de Fevereiro de 1866: Foi neste dia encerrada a exposição internacional, realizada no Palácio de Cristal.

3 de Fevereiro de 1783: Nasce o pintor Joaquim Rafael Rodrigues, que se tornou notável pela grande facilidade de execução.

3 de Fevereiro de 1866: A inauguração do monumento ao saudoso rei D. Pedro V na Praça da Batalha teve lugar neste dia, com assistência do benquisto rei D. Luiz I.

Havia sido lançada a primeira pedra a 11 de Junho de 1862.

Este monumento deve-se aos artistas portuenses.

4 de Fevereiro de 1779: Nasce no Porto, na rua do Calvário, João Baptista da Silva Garrett, o mais nacional de todos os poetas depois de Camões.

5 de Fevereiro de 1728. O senado da Câmara soleniza o consórcio da infanta de Portugal D. Maria Barbara com o príncipe das Asturias, D. Fernando, realizando uma brilhante procissão antecedida de solenes vésperas, luminárias e uma vistosa cavalhada nocturna.

5 de Fevereiro de 1728: Organização da Companhia da Bomba dos Incêndios, a quem se concederam privilégios.

5 de Fevereiro de 1801: O tenente-general Rodrigo de Sousa e Silva Alcoforado, 1.º barão de Vila Pouca, é nomeado governador das armas do Porto.

Faleceu a 9 de Fevereiro de 1807.

6 de Fevereiro de 1826: D. João VI fez mercê do tratamento de senhoria ao cabido da Sé do Porto.

6 de Fevereiro de 1865: Instituição, no Aljube, do Asilo das mulheres vagabundas.

7 de fevereiro de 1835: Desembarca a comissão que conduziu à cidade do porto o coração do imperador D. Pedro.

Foi um dia de grande solenidade para os habitantes da cidade invicta. Mais de 4.000 cidadãos foram acompanhar o precioso depósito até à real capela de Nossa Senhora da Lapa, levando todos tochas acesas. Em todo o transito se viam as janelas armadas de preto.

Eis a inscrição que existe na urna que encerra o coração do imperador:

Eu me felecito a mim mesmo

Me ver no Theatro da Minha Gloria,

No meio dos Meus Amigos portuenses,

D´aquelles a quem devo,

Pelos auxilios que me prestaram durante o memoravel sitio,

O Nome que Adquiri e que honrado Deixarei em herança a meus Filhos.

Porto, 27 de julho de 1834.

D. Pedro Duque de Bragança.

7 de Fevereiro de 1853: A câmara municipal do Porto toma posse do frasco que encerrava o coração de D. Pedro IV

7 de Fevereiro de 1854: É assinado o alvará de aprovação da real Sociedade Humanitária.

8 de Fevereiro de 1801: Inauguração do Hospital da Ordem Terceira Carmelitana.

8 de Fevereiro de 1860: Morre no Porto o glorioso poeta António Augusto Soares de Passos

9 de Fevereiro de 1803: Criação da Real Academia de Marinha e Comércio do Porto; o edifício da Academia foi mandado construir em um terreno pertencente ao colégio dos Órfãos de Nossa Senhora da Graça.

9 de Fevereiro de 1807: Morre nesta cidade o seu Governador das Armas, o general Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado, 1.º Barão de Vila Pouca.

10 de Fevereiro de 1873: É concedido à câmara Municipal do Porto, levantar um empréstimo de 60 contos de reis por decreto deste dia.

11 de Fevereiro de 1410: D Fernando I, proíbe aos proprietários das casas, hortas ou prédios por onde passava o cano da água do convento de S. Francisco, de servirem-se da mesma água, não obstante a posse em que eles se achavam de ela.

12 de Fevereiro de 1732: O doutor em teologia frei Inácio do Bom Jesus, faleceu neste dia.

 

12 de Fevereiro de 1788: Passa sobre a cidade do Porto um formidável furacão.

12 de Fevereiro de 1843: Manda a Câmara Municipal colocar um gradeamento de ferro em volta da praça de D. Pedro IV.

12 de Fevereiro de 1843: Na igreja da Lapa, tem lugar um Te-Deum pelo restabelecimento da Carta Constitucional.

12 de Fevereiro de 1900: Há uma extraordinária cheia no rio Douro.

13 de Fevereiro de 1859: Inaugura-se o teatro Baquet, com baile de mascaras.

14 de Fevereiro de 1865: Transfere-se para o Aljube, o asilo dos rapazes vadios do Porto.

15 de Fevereiro de 1800: O bispo D. Frei António de S. José e Castro tomou posse da diocese do Porto.

15 de Fevereiro de 1813: Manifesta-se um incêndio no Recolhimento do Anjo.

16 de Fevereiro de 1889: Morreu o grande estatuário Soares dos Reis.

17 de Fevereiro de 1721: O cabido da Sé cedeu terrenos seus, para a edificação da Praça de D. Pedro.

17 de Fevereiro de 1824: Organização do Corpo de Cavalaria e Infantaria da Polícia do Porto.

18 de Fevereiro de 1589: Iniciou-se a construção do Castelo da Foz.

18 de Fevereiro de 1789: A casa onde estava o hospital das velhas inválidas de Santa Clara, sita na rua dos Mercadores, foi expropriada em consequência da abertura da rua Nova de S. João.

18 de Fevereiro de 1843: Abriu-se ao trânsito público a Ponte Pênsil sobre o rio Douro.

19 de Fevereiro de 1661: Morreu o ilustre portuense Jerónimo da Silva Azevedo.

Foi desembargador da Suplicação: secretário de várias Embaixadas; um dos mais austeros ministros do seu tempo; sendo ainda, um dos mais distintos, na oratória, e na poesia.

19 de Fevereiro de 1834: Em sessão da Câmara Municipal, aprova-se a planta do Mercado do Anjo.

20 de Fevereiro de 1573: Assenta-se a primeira pedra da igreja dos Grilos.

20 de Fevereiro de 1680: Nasce o portuense Padre Manuel dos Reis Bernardes: Dr. Em teologia; orador eloquentíssimo e muito virtuoso.

20 de Fevereiro de 1790: Estabeleceu-se o Quartel para o 2.º Regimento de Infantaria, depois n.º 18, no Campo de Santo Ovídio, depois chamado da Regeneração.

21 de Fevereiro de 1611: Nasce João Soares de Brito, notável portuense.

Foi sacerdote: Dr. Em Teologia pelas Universidades de Coimbra e Évora; doutíssimo em muitas Faculdades, incluindo a Universidade de Salamanca.

Faleceu em 1664.

 

22 de Fevereiro de 1430: D. Armigioso, prior de Águas Santas, concorda com o bispo D. Hugo II, na cedência de um casal em Paramos (Feira), em troca do jantar que por obrigação dava anualmente!

22 de Fevereiro de 1789: Ocorreu uma inundação no rio Douro, que despedaçou três navios.

22 de Fevereiro de 1857: Teve lugar a célebre mascarada, simulando o regresso de D. Sebastião.

23 de Fevereiro de 1702: São criados dois Terceiros Auxiliares no Distrito do Porto; um nesta cidade outro em Aveiro!

23 de Fevereiro de 1757: Foi o chamado Levante contra o Monopólio da Companhia dos Vinhos.

A sublevação popular no Porto, foi produzida pelos taberneiros, por causa do estabelecimento da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro.

O marquês de Pombal fez desde logo reprimir estes tumultos, por meio das providências enérgicas que costumava tomar, com aqueles que usavam insurgir-se contra os seus actos de Absolutismo.

Pela sentença da alçada do Porto, de 14 de Outubro, morreram enforcados 21 homens e 5 mulheres, padeceram a pena de açoites e galés 34 homens e 9 mulheres, e foram degradados 67 homens e 15 mulheres.

 

23 de Fevereiro de 1835: O governador militar, em ordem do dia, manda que: os oficiais do estado maior rondem de noite as ruas da cidade, afim de evitar os roubos no meio da rua, e o assalto aos prédios.

24 de Fevereiro de 1858: Foi inaugurada a fonte e tanque do Bolhão.

24 de Fevereiro de 1901: As arruaças ocasionadas pelo caso Calmon, tiveram lugar nos dias 24,25 e 26, ficando feridos vários académicos e alguns agentes da autoridade.

25 de Fevereiro de 1797: O governador Francisco de Almeida, tira à Misericórdia do Porto, dez contos de reis, para custeio de quatro iates reais!

25 de Fevereiro de 1844: Muda-se para Paranhos, o matadouro que existia na Fontaínhas.

 

27 de Fevereiro de 1810: Profere a Alçada a sentença contra os presos pelos tumultos de Março de 1809.

27 de Fevereiro de 1854: Morreu nesta cidade o seu Bispo, D. Jerónimo José da Costa Rebelo.

28 de Fevereiro de 1743: Ordenou-se ao Governador das Armas do Porto, que aos Bispos se faça as honras de príncipe, quando entrarem nas suas dioceses.

28 de Fevereiro de 1785: Principiou a edificação da Casa da Feitoria Inglesa, na rua de S. Nicolau, depois rua dos ingleses; terminando a sua construção no ano de 1790.

De Março de 1838: A Câmara Municipal do Porto, presidida por Luciano Simões de Carvalho, deliberou mandar tocar o sino de recolher, de verão ás 10 horas e de inverno ás 9, o que havia caído em desuso desde 1832 "causando esta falta muitas contestações com as patrulhas por causa da hora de se fecharem as tabernas".

O texto citado acima, é o que consta da "Exposição dos principais actos administrativos da Câmara municipal da antiga, muito nobre, e sempre leal e invicta cidade do Porto em 1838".

Nessa época, a mencionada exposição era nada mais nada menos, que os modernos relatórios.

1 de Março de 1813: Como é costume tradicional toda a tropa que se ache nesta cidade, acompanha a Procissão do Enterro do Senhor: achava-se no porto (em descanso nesse dia) uma Brigada de Infantaria Inglesa, que em marcha se reunira ao exercito; o general Nicolau Trant, Governador das Armas, fez que esta força acompanhasse a dita Procissão, com Barretinas na mão, e Armas no braço direito com baionetas.

2 de Março de 1732: Foi nomeado, com Patente Régia, o 1.º capitão da Companhia dos Incêndios, José de Azevedo.

2 de Março de 1810: Foram justiçados na Cordoaria, seis réus, pelos tumultos de Março de 1809.

5 de Março de 1835: Estabelecimento do Telegrafo Comercial no Castelo da Foz, que depois foi instalado na Senhora da Luz.

5 de Março de 1838: É autorizada por uma portaria a Câmara do Porto a demarcar terreno, na Quinta do prado do Bispo, para a construção do cemitério que se ficou chamado do prado do Repouso.

6 de Março de 1838: A Câmara Municipal pede à rainha D. Maria que a dissolva.

9 de Março de 1862: Na madrugada deste dia, foi o Porto açoutado por uma borrasca temerosa, acompanhada de grande trovoada e de chuva copiosa.

O vendaval foi tão violento que produziu graves estragos, arrebatando clarabóias, beirais de telhados e derruindo prédios.

Foi nessa madrugada que o temporal derrubou a bola e a cruz que encimavam a torre da igreja dos Clérigos.

13 de Março de 1856: Inauguração da Sociedade Filarmónica Portuense.

16 de Março de 1681: Instituição do Recolhimento do Ferro, que em 1757 passou para o Codeçal.

17 de Março de 1809: O Governador das Armas do Porto, Bernardim Freire de Andrade, foi atrozmente assassinado em Braga, em um tumulto popular.

17 de Março de 1865: É autorizado o curso público de medicina Homeopática no Porto.

20 de Março de 1708: A cidade do Porto é aliviada de aboletamentos, e volta mais tarde em 16 de Abril de 1834.

20 de Março de 1835: A efervescência dos ânimos, e ressentimentos particulares dão lugar à desastrosa morte do capitão do exército miguelista, João Pita Bezerra que era odiado geralmente por suas crueldades.

29 de Março de 1809: Entrada, à viva força, do exército francês, composto de 23 mil homens, de todas as armas, (tinham entrado em Portugal no dia 7) cometendo as maiores atrocidades.

Infausto acontecimento da Ponte das Barcas sobre o Rio Douro.

29 de Março de 1821: Juramento ás Bases da Constituição Portuguesa, pelas cortes constituintes.

29 de Março de 1826: Quebra dos Escudos Reais pela morte de el-rei D. João VI.

29 de Março de 1852: Naufrágio do vapor «Porto» na entrada da Barra, em que morreram 60 pessoas!

Foi criada em seguida, a Real Sociedade Humanitária, depois aprovada por Alvará de 6 de Fevereiro de 1854.

30 de Março de 1696: Forma-se um terço militar pago na cidade do Porto, chamado da Junta do Comércio Geral do Porto.

30 de Março de 1834: É extinto o monopólio da Companhia das Vinhos.

31 de Março de 1511: Concordata entre o bispo e o cabido da Sé, com Fernão de Pina.

31 de Março de 1808: São mandadas tirar as Armas Reais Portuguesas dos edifícios públicos, pelo intruso governo francês.

31 de Março de 1761: Sentiu-se um forte tremor de terra, chegando o mar a sair dos seus limites, o que deu causa a fugir muita gente para fora da cidade gritando – aí vem o mar! –

 

4 de Abril de 1833: As Armas do Município são nobilitadas com o Colar da Ordem da Torre e Espada, e Coroa Ducal.

4 de Abril de 1834: É aberto à exposição pública o Jardim de S. Lázaro, principiado em 27 de Janeiro.

4 de Abril de 1836: Inauguração do asilo da primeira infância desvalida.

5 de Abril de 1852: Abertura do Consultório Homeopático, que funciona todos os dias.

6 de Abril de 1839: A câmara municipal do Porto, pede à rainha D. Maria II a execução do decreto que mandara criar, nesta cidade, um Asilo de mendicidade.

7 de Abril de 1808: Entra no Porto o General francês Quesnel, com o seu Estado Maior e um Esquadrão de Cavalaria.

9 de Abril de 1829: Proferiu a nefanda alçada do Porto a Sentença de morte de dez Mártires da Pátria.

10 de Abril de 1864: Abertura ao trânsito público do Caminho de Ferro para Taveiro (Coimbra).

12 de Abril de 1861: O Palácio das Carrancas, situado na antiga rua do Triunfo, era pertencente à família da extinta Baronesa de Nevogilde; foi comprado por D. Pedro V, passando a denominar-se desde esta data; Palácio Real.

 

14 de Abril de 1797: Sendo costume imemorial toda a tropa desta cidade acompanhar, com o seu General, a procissão do Enterro do Senhor, e não havendo nesta época, ordenou o Governador das Armas D. João Correia de Sá Benevides, que se reuni-se o Regimento de Milícias do Porto e com o seu Coronel D. António d`Amorim do Gama Lobo, acompanha-se a dita procissão que sai da Igreja das Freiras Claras.

17 de Abril de 1803: Lança-se a primeira pedra para a edificação da elegante Igreja dos Terceiros Trinitários ou Ordem da Santíssima Trindade no Largo do Laranjal, com assistência do bispo do Porto, D. António de S. José de Castro.

 

17 de Abril de 1865: Inauguração do Asilo dos Rapazes vadios, no sítio das Carvalheiras.

17 de Abril de 1875: Estabeleceu-se no Aljube o asilo dos rapazes vadios, que até então esteve na rua das Carvalheiras; Aljube "Pequeno edifício construído extra-muros da circunvalação, mandado fazer por D. Gonçalo Pereira, bispo do Porto, mas encostado à muralha. Está logo abaixo da Sé, no princípio da rua de S. Sebastião, e do chafariz do mesmo nome. Foi construído para prisão dos clérigos delinquentes. Depois que terminou o foro eclesiástico, ficou sendo cadeia pública, e nela se recolhiam as toleradas que infringiam os regulamentos sanitários, e mais algumas criminosas que conseguiam para aqui vir, em vez de irem para os medonhos covis da Relação".

20 de Abril de 1762: Organiza-se o 2.º Regimento do Porto, depois n.º 18 formado do 2.º Batalhão do Regimento que havia, o qual passou depois a ser 1.º e mais tarde n.º 6.

20 de Abril de 1846: Chega, e entra na cidade do Porto, o rei da Sardenha Carlos Alberto, que depois dos acontecimentos de Novara, escolheu o Porto para sua residência, tendo abdicado em 23 de março de 1849.

21 de Abril de 1864: Reorganização da Companhia Real – Utilidade Pública – fundada em 24 de Abril de 1854 e ampliada em 30 de Maio de 1861.

 

22 de Abril de 1862: Efectuou-se no Porto, no campo denominado de Cardelhas, na rua da Boa Vista, a cerimónia do assentamento da primeira pedra para o Hospital militar de D. Pedro V.

24 de Abril de 1851: Rompimento Militar no porto, contra a opressão dos Costas Cabraes.

25 de Abril de 1835: Oferece a Rainha a Senhora D. Maria 2.ª, à Câmara do Porto a Espada e Talim, com que seu Augusto Pai fez a campanha da Liberdade, para ser depositada no município da cidade; para ser exposta ao público.

26 de Abril de 1756: Lançou-se a primeira pedra para a reedificação e aumento da Igreja de N. S. da Vitória, ali constituída para comemorar a grande vitória alcançada contra os mouros.

29 de Abril de 1852: Vem pela 2.ª vez ao porto a Senhora D. Maria 2.ª, em companhia de seu esposo, o Sr. D. Fernando, e de seus filhos o Príncipe D. Pedro, depois Pedro V, e o infante D. Luís, depois Luís I.

de Maio de 1795: A primeira ascensão aerostática que houve no Porto foi realizada por Vicente Lunardi, no Campo de Santo Ovídio, indo o globo aerostático cair à Cantareira, sem sofrer o menor dano o arrojado aeronauta.

Este acontecimento foi, para os portuenses de 1795, um sucesso que lhes deu muito que entender e muito que falar por longo tempo.

Vicente Lunardi, ou capitão Lunardi como foi mais conhecido, assumiu pelo seu arrojo as proporções de um verdadeiro herói.

4 de Maio de 1661: Levantamento do Povo pela imposição do Papel Selado, que mais tarde vigorou.

6 de Maio de 1760: Foi sagrada a igreja do Senhor de Matosinhos, pelo Bispo do Grão Pará, D. Frei João de S. Joseph Queiroz. Este prelado, assaz douto, havia nascido na vila de Matosinhos e fora no reinado de D. João I nomeado pelo marquês de Pombal, Bispo do grão Pará.

7 de Maio de 1829: Recordação horrorosa! Dez Mártires da Pátria foram ao patíbulo na praça Nova, condenados à morte pela Alçada do usurpador.

7 de Maio de 1836: Trasladação das ossadas dos doze Mártires da Pátria para o átrio da Igreja da Misericórdia, acto que foi praticado com toda a pompa e respeito.

10 de Maio de 1763: É organizado o Regimento de Artilharia do Porto, depois chamado n.º 4, com sua aula respectiva.

11 de Maio de 1809: Explosão da Ponte das Barcas, executada pelas tropas francesas, antes de se retirarem.

12 de Maio de 1809: Precipitada fuga, da cidade do Porto, dos franceses acossados pelas forças anglo-lusas.

13 de Maio de 1798: Abertura do Real Teatro do Príncipe, hoje de S. João, principiado em Abril de 1796.

13 de Maio de 1804: Foi concedido à câmara do porto o titulo de Ilustríssima e o tratamento de Senhoria.

13 de Maio de 1813: As Armas da Cidade do Porto, que desde 1012 tinham elas um castelo com duas torres, e no centro a Virgem Nossa Senhora com o menino ao colo, são mandadas acrescentar um braço em cada Torre das mesmas Armas, com uma espada e uma Bandeira.

15 de Maio de 1782: Não foi no Porto, mas julga-se curioso saber, que foi em Pombal onde morreu o grande Marquês deste nome e Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo, com 83 anos de idade.

16 de Maio de 1828: Reacção no Porto, contra a manifestação de D. Miguel como rei.

16 de Maio de 1863: Entrega da Bandeira do extinto Batalhão de Voluntários da Rainha, mandada depositar nos Paços do Conselho do Município da Cidade do Porto, como recordação gloriosa dos feitos praticados por este Bravo Corpo para a restauração das Liberdades Pátrias.

Esta Bandeira é decorada com fita da Ordem da Torre e Espada, por Decreto do dia 1 de Agosto de 1832.

24 de Maio de 1835: No Museu Portuense, são entregues para nele serem depositados o Chapéu e o Óculo de longa vista, que usou nas campanhas da Restauração o imortal Duque de Bragança.

24 de Maio de 1857: Inauguração do Clube Portuense, no Largo da Trindade.

26 de Maio de 1743: Inauguração do Hospital da Seráfica ordem 3.ª de S. Francisco, tendo-se principiado a fundar em 1734, e tinha a sua exposição anual em 9 de Setembro, que depois se fez em Julho.

28 de Maio de 1864: Instalação do Tribunal de Justiça no Edifício do Convento de S. João Novo.

31 de Maio de 1834: Inauguração primária da Assembleia Portuense, no Largo da Trindade.

2 de Junho de 1732: Lançou-se a primeira pedra para a Igreja, e Torre dos Clérigos, concluída em 1749.

2 de Junho de 1833: Morreu na cidade do Porto o seu Governador das armas, Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira.

ELEVADOR DOS GUINDAIS

3 de Junho de 1891: Inauguração do Elevador dos Guindais.

Quando a Câmara do Porto apresentou o processo de candidatura da cidade à classificação, pela UNESCO, como Património Cultural da Humanidade, um dos imóveis do Centro Histórico indicado como sendo de interesse patrimonial, foi a "Casa do Ascensor dos Guindais", localizada, como o próprio nome deixa adivinhar, nas Escadas daquela denominação: ascensor ? Mas, houve um elevador (vamos chamar-lhe assim) nos Guindais? Claro que houve e foi extremamente útil enquanto funcionou mas, infelizmente, teve uma vida efémera, porque acabou de forma desastrosa.

1) UMA CIDADE DE ALTOS E BAIXOS

O Porto, especialmente o seu núcleo mais antigo ou, se pretenderem, para estar mais a par com a actualidade, o seu chamado Centro Histórico, está assente em terreno bastante declivoso. A zona da Sé e a da Vitória, dois dos mais antigos aglomerados populacionais do Porto, foram crescendo e desenvolveram-se sobre duas colinas que em tempos idos tinham de permeio um curso de água, o nosso já conhecido rio da Vila que foi tapado quando se abriu a actual Rua de Mousinho da Silveira. Na época em que ainda não havia transportes públicos e os privados eram privilégio de meia dúzia de bafejados da sorte, as características acidentadas do Porto tomavam difícil, por exemplo, o acesso das zonas ribeirinhas aos pontos mais elevados da cidade. Por isso, ninguém estranhou quando, há pouco mais de cem anos, se constituiu nesta cidade a Parceria dos Elevadores do Porto, uma sociedade que se propunha construir e explorar elevadores que haviam de ligar as zonas baixas da beira rio (mas não apenas) aos pontos mais elevados da cidade, que foram desde sempre as áreas de maior densidade populacional. A ideia era inovadora e, do ponto de vista da rentabilidade, muito oportuna. O rio constituía, por assim dizer, a espinha dorsal do desenvolvimento citadino. Era através dele que chegavam à cidade os vinhos de Riba Douro mas também muitos outros produtos, nomeadamente hortaliças e frutas destinadas ao abastecimento público. O meio de transporte mais em voga, por essa altura, era o carro de bois que se utilizava, em regra, para o transporte dos carretos mais pesados. As coisas mais leves, e entre estas contavam-se os frutos e as novidades da horta, eram carregados pelas próprias pessoas, às costas, e assim transportados para os pontos mais altos da urbe, o que não devia ser " uma pêra doce..." O elevador era, portanto, uma novidade e, como, além dos passageiros, podia transportar também mercadorias e toda a sorte de embrulhos, foi com grande expectativa que o Porto assistiu à constituição da tal Parceria por se pensar, justificadamente, aliás, que os elevadores representariam uma fonte de progresso para a cidade. O primeiro projecto da empresa foi a construção, de um elevador que, subindo ao lado das escadas dos Guindais, junto das muralhas fernandinas, ligaria a beira rio à então chamada Rua da Batalha (actualmente denominada de Augusto Rosa) com o fim da carreira mais ou manos em frente ao edifício onde está hoje a sede do Governo Civil.

2)O MODO DE FUNCIONAR

A elaboração do projecto do elevador foi confiada ao engenheiro Raul Mesnier e a construção da obra ficou a cargo do mestre Adélio Couto que deu por finda a empreitada nos começos de Junho de 1891, o ano da Revolução Republicana do 31 de Janeiro. A inauguração solene do importante melhoramento ocorreu exactamente no dia 3 de Junho daquele ano e constituiu acontecimento de peso no quotidiano da cidade. Os portuenses acorreram em peso para assistirem ao acto solene e aderiram de imediato ao novo meio de transporte que desde o dia da inauguração até aquele em que, por força das circunstâncias, teve que interromper a sua laboração, registou sempre uma crescente movimentação de utentes. O elevador funcionava ininterruptamente, num constante vaivém, para cima e para baixo, desde as 5 horas da manhã até às 11 da noite. Os preços das passagens estavam compreendidos entre os 30 e os 60 reis. Era permitido, como já se disse, o transporte de embrulhos, cestas, canastras, fardos e outros volumes.

 

O funcionamento do elevador fazia-se através de máquinas a vapor, instaladas nas já referidas "Casas do Ascensor" que também eram servidas por uma chaminé com 30 metros de altura, através da qual se expelia o fumo das caldeiras. A tracção fazia-se por meio de grossos cabos de arame que se moviam por aderência sobre os tambores das máquinas que formavam dois grupos trabalhando um de cada vez. O trajecto, em plano horizontal, tinha 412 metros de comprimento. Havia um percurso plano, entre o cimo das Escadas dos Guindais, e o final da linha; e outro de forte inclinação, ao longo de toda a escarpa dos Guindais até à beira-rio. Nesta parte do percurso o elevador funcionava com dois carros. Um, chamado o principal, de maior capacidade; o outro, o secundário, era o carro do contrapeso e tinha como função equilibrar o primeiro ao qual estava ligado por um cabo de aço. Os carros moviam-se, ambos, em carris paralelos, no sistema de compensação, cruzando-se exactamente a meio do trajecto e atingindo os extremos opostos em simultâneo. Os dois carros dispunham de um eficiente sistema de freios, em forma de tenaz, um para redução da velocidade, o outro para uma travagem imediata. Para uma maior segurança havia ainda um sistema de sinais dados por duas campainhas, que a cinco e, a um metro do final da viagem, alentavam o maquinista para que ele começasse a reduzir a velocidade.

Segundo pareceres técnicos da época, a construção do elevador e o seu funcionamento obedeciam a todos os requisitos de segurança e comodidade dos passageiros. Dispunha, inclusivamente, de um dispositivo que tornava possível graduar-se a inclinação por meio de uma espécie de parafuso, tarefa de que se desempenhava um operário nisso especializado.

3) O DESASTRE

Durante dois anos o Elevador dos Guindais dera provas evidentes de ser um excelente e cómodo meio de transporte e a maneira mais fácil de vencer o declive que existia entre a zona ribeirinha e a parte mais alta da cidade. E foi por isso que o público aderiu completamente ao projecto utilizando o "funicular" com muita assiduidade e com total confiança. Mas no dia 5 de Junho de 1893 um desastre, que podia ter atingido bem mais amplas proporções do que aquelas a que realmente se reduziu, pôs termo à carreira do Elevador dos Guindais e inviabilizou os projectos que havia para outros pontos da cidade.

Um inquérito mandado elaborar para apuramento das responsabilidades, revelou que um erro humano estivera na base do acidente. O maquinista António Dias de Oliveira, que tripulava um dos carros, não abrandou, como se impunha, a marcha do veículo, o principal, que, rodando a grande velocidade, foi embater violentamente contra o respectivo suporte que era uma mola de aço em forma de U. Do embate resultou quebrar-se o cabo de ligação entre os dois carros e o do contrapeso começou por deslizar lentamente para atingir uma velocidade louca indo desfazer-se contra uma plataforma junto ao tabuleiro inferior da ponte Luís I. Passavam cerca de quinze minutos das dezasseis horas quando ocorreu o acidente. Nos dois carros viajavam, naquela altura, apenas 8 pessoas. No carro principal, além do condutor, seguia a sua mulher, Deolinda Silva e mais três pessoas. No veículo que subia seguiam o respectivo condutor, António Martins, mais Alfredo Lopes da Costa Braga e uma filha deste, de apenas seis anos de idade. Milagrosamente apenas alguns deles sofreram ligeiras escoriações. Mas o acidente alarmou a cidade e, as primeiras noticias chegadas à Batalha, falavam de mortos e muitos feridos.

Não obstante os grandes prejuízos materiais sofridos a Parceria dos Elevadores do Porto anunciou a suspensão da actividade por apenas dois meses, que seria o tempo necessário para efectuar as reparações e recomeçar as actividades. Mas o Elevador dos Guindais nunca mais voltou a funcionar e com ele morreram, também, os outros projectos. Dessa velha relíquia tripeira resta hoje, de pé, a casa das máquinas. Em tempos, esse espaço serviu de atelier ao escultor Henrique Moreira. Hoje ocupam aquelas instalações, uma igreja Evangélica, uma oficina de marmorista e um atelier de um outro escultor.

4 de Junho de 1754: Fez a sua entrada solene nesta cidade o seu Bispo D. F. António de Távora, vindo pela Porta Nova; cujo cortejo foi feito com grande pompa; e servindo de caudatário o Governador das armas João d`Almada e Melo.

Morreu este Bispo, nesta cidade a 6 de Junho de 1766.

4 de Junho de 1823: Aclamam-se os inauferíveis direitos do Reino e aniquila-se a Constituição de 1822.

6 de Julho de 1543: Sentença de foral, sobre os direitos do pão entrado pela Foz.

 

7 de Julho de 1864: Abertura pública do Caminho de Ferro do Porto a Lisboa.

8 de Julho de 1819: O regimento de Milícias do Porto é o primeiro elogiado na ordem do dia pelo Marechal G. C. Bersford, na revista que passou aos 31 corpos desta arma das províncias do norte.

8 de Julho de 1846: Instituição do Asilo de Mendicidade no Porto.

9 de Julho de 1832: Entrada do Exercito Libertador, comandado pelo imortal D. Pedro, duque de Bragança.

9 de Julho de 1833: Instituição da Real Biblioteca Pública Portuense.

9 de Julho de 1839: Abertura do Mercado Público do Anjo.

9 de Julho de 1862: Lança-se a primeira pedra para o Monumento a D. Pedro IV, na Praça do mesmo nome.

11 de Julho de 1823: Naufrágio do vapor, que do porto saiu para Lisboa, depois de proclamados os inauferíveis.

14 de Julho de 1123: O mais antigo foral do Porto, foi dado por D. Hugo, bispo desta cidade.

14 de Julho de 1828: É nomeada a Alçada para vir ao Porto sindicar dos factos contra a usurpação de D. Miguel; e a despesa que ela fez à nação, desde então, até 30 de Junho de 1832 foi de 66.232$155 réis, fora os mais vencimentos que tinham os seus membros por outros tribunais ou repartições!!

14 de Julho de 1832: é decretada no Porto a extinção das Milícias "chamadas de Segunda linha".

15 de Julho de 1770: Lança-se a primeira pedra para o hospital da Misericórdia, no local onde hoje se encontra.

17 de Julho de 1832: É concedida amnistia geral pelos crimes políticos desde 31 de Julho de 1826.

19 de Julho de 1816: Quebra dos Escudos Reais pela morte da rainha a Senhora D. Maria I.

20 de Julho de 1832: Decreta-se a extinção geral dos corpos de ordenanças do Reino.

21 de Julho de 1792: Instituição da Casa Pia do Porto, confirmada em 24 de Setembro de 1794.

24 de Julho de 1832: Grande incêndio lançado nos quatro asilos do convento dos religiosos Franciscanos que tinha sido edificado em 1425, onde estava de quartel o batalhão de caçadores n.º 5, que havia voltado da acção do dia anterior em Ponte Ferreira.

28 de Julho de 1832: É publicado o decreto instaurando e de novo reformando a ordem militar da Torre e Espada.

1 de Agosto de 1825: Principiou a funcionar, no Porto, a Caixa Filial do Banco de Lisboa; depois Banco de Portugal.

1 de Agosto de 1834: Inauguração do Tribunal Comercial de 1.ª instância no Porto.

2 de Agosto de 1834: Combate figurado, nas linhas de defesa, em presença de Suas Majestades.

4 de Agosto de 1864. Principia a funcionar a sociedade de seguros mútuos de vidas «Previdente», do Banco Aliança.

5 de Agosto de 1834: Figura-se nas Baterias de uma e outra margem do rio Douro, o fogo que nelas se fazia para obter, no cerco do Porto, os desembarques de tropas e munições de guerra e boca, em presença da Senhora D. Maria 2.ª e de seu augusto pai.

6 de Agosto de 1834: Partem para Lisboa suas Majestades no vapor «Royal Tar», no meio de grandes aclamações.

7 de Agosto de 1796: São elevados a regimentos ao quatro terços auxiliares do distrito: Aveiro, Maia, Penafiel, e Porto.

7 de Agosto de 1826: É estabelecido o quartel general do governo das armas na Casa Pia, sendo governador o general Stubbs.

9 de Agosto de 1832: É imposta multa pecuniária a todo o cidadão que sem causa legítima se escuse de servir cargos públicos.

10 ou 11 de Agosto de 1843: É concedido à Câmara Municipal do Porto o tratamento de excelentíssima, em atenção aos relevantes serviços que havia prestado na restauração da Carta Constitucional.

 

10 de Agosto de 1865: Morte do general Francisco Xavier Ferreira, pouco depois de deixar de ser comandante desta divisão militar.

11 de Agosto de 1813: A brigada do Porto é elogiada pelo marechal Beresford, na sua ordem do dia, pelo seu comportamento e valor na batalha de 30 de Junho deste ano.

12 de Agosto de 1857: É ampliado o recolhimento de Nossa Senhora do Resgate das mulheres convertidas e abandonadas, que havia sido fundado em 1813.

13 de Agosto de 1760: São derrubadas as forcas levantadas no Porto, e em que, haviam sido justiçados 21 homens e 4 mulheres, por terem tomado parte no motim popular do dia 23 de Fevereiro contra a Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro.

14 de Agosto de 1795: Entrada dos primeiros doentes para o novo Hospital da Misericórdia.

14 de Agosto de 1806: Inauguração da ponte de Barcas, sobre o rio Douro, no sítio da Ribeira.

15 de Agosto de 1806: Abre-se ao transito público a ponte das barcas, construída no rio Douro entre o Porto e Gaia.

15 de Agosto de 1814: É recebida com grandes demonstrações de alegria a Brigada de Infantaria do Porto, que volta da Guerra Peninsular, a quem se deu um lauto jantar.

15 de Agosto de 1861: Exposição Industrial Portuense, nos salões do edifício da Bolsa.

 

16 de Agosto de 1833: As tropas miguelistas incendeiam os armazéns de vinhos em Vila Nova de Gaia, cuja perda foi avaliada em 5 milhões de cruzados.

17 de Agosto de 1750: Quebra dos escudos reais pela morte de El-rei D. João 5.º.

18 de Agosto de 1804: Morre (pobre) o sempre lembrado magistrado Francisco de Almada e Mendonça, que foi enterrado a dispêndio de seus amigos, que com todos os habitantes do Porto choraram a sua morte.

18 de Agosto de 1833: As tropas liberais comandadas pelo Saldanha derrotaram as forças miguelistas que cercaram a cidade do Porto, terminando assim o memorável cerco.

18 de Agosto de 1856: Foi aberta ao público a estação telegráfica, na Casa Pia.

20 de Agosto de 1856: Instituição do Banco Mercantil Portuense.

21 de Agosto de 1819: Estabelece-se a Câmara Municipal no seu palacete da Praça Nova.

24 de Agosto de 1820: Proclama-se no Porto o sistema constitucional, que foi geralmente abraçado pela nação inteira.

24 de Agosto de 1864: Os amigos inumeráveis do estadista português Manuel da Silva Passos, fazem neste grande dia inaugurar a sua estátua, de mármore nacional! No Rossio da Vila de Matosinhos, sua Pátria.

25 de Agosto de 1774: Por decreto, foi mandado criar na cidade do Porto, um depósito público judicial.

Principiou a funcionar o novo depósito a 8 de Novembro de 1775 e continuou a servir em S. Domingos.

Mudou mais tarde para a Praça Nova, depois chamada de D. Pedro, tendo em seguida mudado para defronte da guarda da Casa Pia, e mais tarde instalou-se no Tribunal da Justiça, em S. João Novo.

26 de Agosto de 1799: Nos dois dias antecedentes, na sala da Assembleia do Teatro, dá o corregedor Francisco de Almada um esplêndido refresco, por ocasião da regência do Príncipe, depois D. João 6.º.

26 de Agosto de 1852: Instituição da Associação Industrial Portuense.

27 de Agosto de 1843: Entrada solene nesta cidade do seu bispo D. Jerónimo José da Costa Rebelo.

29 de Agosto de 1756: Lança-se a 1.ª pedra para a nova igreja dos Terceiros Carmelitanos.

30 de Agosto de 1855: É aberto, benzido, e principiou a funcionar o cemitério público de Agro Monte.

30 de Agosto de 1861: Instala-se a Sociedade do Palácio de Cristal Portuense.

 

4 de Setembro de 1849: O cadáver de El-rei da Sardenha, Carlos Alberto, é levado para Itália, com grande cerimonial.

6 de Setembro de 1776: Embarca e sai pela barra o 2.º regimento do Porto, depois n.º 18, para os Açores, e daí para o Brasil, de onde voltou em 1778.

8 de Setembro de 1756: É lançada a 1.ª pedra para a edificação da igreja de Nossa Senhora do Terço e Caridade, em Cima de Vila.

8 de Setembro de 1832: Foi a cidade posta em cerco, pelas tropas de D. Miguel I.

9 de Setembro de 1820: Grande incêndio que reduziu a cinzas o edifício e tipografia da viúva Alvares Ribeiro.

9 de Setembro de 1839: Revolução, chamada de Setembro – seguida no Porto – proclamando a constituição de 1822, com as modificações que as cortes constituintes fizessem.

10 de Setembro de 1756: Criação do Monopólio da Companhia dos Vinhos.

10 de Setembro de 1808: Criação do corpo de cavalaria da Polícia do Porto.

13 de Setembro de 1796: O Passeio Público das Fontaínhas, começou a ser frequentado, continuando ainda algumas obras.

 

14 de Setembro de 1808: Organiza-se no Porto o corpo da Leal Legião Lusitana, composto de 3 armas, e comandado por Sir R. Wilsom.

16 de Setembro de 1855: A iluminação pública da cidade, principiou a ser feita a gáz.

16 de Setembro de 1865: Funde-se a estatua, em bronze, ao Senhor Dom Pedro V, para o monumento promovido pelos artistas, -- que tinha saído imperfeita na 1.ª prova -- pelo ourives Luiz José Nunes, coadjuvado por outros artistas portugueses.

18 de Setembro de 1865: Inauguração e abertura do Palácio de Cristal -- com a exposição Internacional – por El-rei D. Luiz I, rainha D. Maria Pia, príncipe D. Augusto, El-rei D. Fernando II e mais comitiva, alem de diversas autoridades, e muito povo.

23 de Setembro de 1834: A Serra do Pilar, edificada em 1540, é elevada a fortaleza; em 20 de Fevereiro de 1835, é elevada à classe de 1.ª ordem.

24 de Setembro de 1834: Morre o senhor D. Pedro IV; é feito o aniversário com todo o esplendor, na igreja da Lapa.

25 de Setembro de 1843: É demolida a escadaria em que se fazia a feira pública, junto do convento das Religiosas Beneditinas, sendo aformoseado aquele largo, com a colocação de uma fonte pública.

26 de Setembro de 1808: A junta Suprema, inaugurada no Porto em 19 de Junho, lavra o assento da sua dissolução.

29 de Setembro de 1858: Abertura do palacete próprio da Assembleia Portuense, fundada em Maio de 1834.

30 de Setembro de 1724: É fundado o Recolhimento das Órfãs, pelo padre Manuel de Passos e Castro, tesoureiro da Colegiada de Cedofeita, por disposição testamenteira, deixando-lhe para tal fim avultada quantia.

Os estatutos do recolhimento foram aprovados por alvará de El-rei D. João V.

Sendo depois administrada pela mesa da Santa Casa da Misericórdia o referido Recolhimento de Órfãs, situado em S. Lázaro.

1 de Outubro de 1685: Estabeleceu-se a roda dos Expostos, a cargo e administração da Santa Casa da Misericórdia; depois passou para a Câmara em 1688, com alternativas, até que passou a ser denominada Hospital, e como tal, debaixo da administração da Câmara em 1 de Janeiro de 1865.

1 de Outubro de 1781: Abriu-se para curativo dos irmãos de N. S. do Terço e Caridade o seu hospital.

5 de Outubro de 1212: Os cónegos regulares da Sé Catedral do Porto, viveram conventualmente, em comunidades, sob a regra de Santo Agostinho, desde o ano de 1025 até 1185.

Por Bula Apostólica, obtiveram depois daquela data a permissão de serem separados, onde bem lhes aprouve-se, a exemplo do que sucedia com os cónegos de outras catedrais do reino.

Por carta régia foi declarado terminantemente que, os cónegos regulares não gozem dos privilégios de pessoas miseráveis.(essa carta régia era datada de 5 de Outubro de 1212).

5 de Outubro de 1810: A Brigada de Milícias do Porto, comandada pelo governador das armas Nicolau Trant, entra em Coimbra e faz prisioneiros todos os franceses, que ali tinham ficado, depois de alguma resistência.

3 de Dezembro de 1832: É publicado o decreto dividindo a cidade do Porto em três bairros, para a administração da justiça criminal.

8 de Dezembro de 1842: O retracto de el-rei D. Pedro IV, que orna o salão da Biblioteca Municipal, foi ali colocado por deliberação da câmara municipal, e inaugurado com grande solenidade.

19 de Dezembro de 1832: É publicado um decreto suspendendo a execução dos de, 20 de Abril e 14 de Julho do mesmo ano, respectivo aos direitos de consumo e exportação do vinho do Porto e aguardente.

"AUTOR" Francisco Santos

FONTES COPIADAS:

O Tripeiro

Portugal Antigo e Moderno

Jornal de Notícias

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